O avesso da grama


No primeiro ano da faculdade de arquitetura tive uma experiência que me mostrou que muitas vezes eu iria aprender as coisas pelo avesso das coisas ensinadas.
Foi na primeira aula do curso de paisagismo. Os professores fizeram uma exposição de slides que mostrava um jardim inglês. As imagens de um gramado perfeitamente uniforme que se extendia até o infinito ficaram gravadas em nossas mentes. Algumas árvores, dispostas em lugares estratégicos, dramatizavam a perspectiva. 
Então recebemos um mapa de um quarteirão qualquer. Deveríamos fazer um projeto para uma praça seguindo as diretrizes dos jardins ingleses e seus magníficos gramados e geometria.
Trinta anos depois, passo grande parte do meu tempo arrancando grama.

O gramado forma uma trama extremamente fechada sobre o solo, impedindo que qualquer outra planta brote. Além disso, precisa de enormes quantidades de água para se manter sempre verde. Mata-matos e muitos inseticidas disfarçados de produtos ecológicos são largamente usados nos gramados. 
A minha vizinha tem um gramado de que muito se orgulha. Enquanto eu arranco a minha grama, observo como ela emprega grande energia varrendo as folhas que caem e banindo meticulosamente qualquer plantinha guerreira que brote alí. A cada quinze dias, um jardineiro passa algumas horas com um soprador de folhas, como esses que a gente vê nos filmes americanos, para garantir que nada interfira no efeito majestoso do gramado.
O que a vizinha nem imagina é que se essa grama for retirada manualmente, sem veneno, em pouco tempo a verdadeira cobertura de solo do lugar irá se revelar, abrir espaço para um mundo de surpresas e despertar memórias.
E a alma do jardim vai se desenhar.
Pequenas e delicadas ervas irão tomar o lugar da grama e proteger gentilmente o solo. Em seguida, as sementes adormecidas que antes não conseguiam atravessar o denso bloqueio da grama vingarão e uma imensa variedade de plantas encantadoras começarão a despontar.
Cada uma dessas plantas que surgem sem ninguém plantar carrega um propósito especial: nutrir e curar o solo e as pessoas. Imagino a filhinha da vizinha correndo entre tanchagens, mastruços, serralhas, quebra-pedras, soprando as sementes dos dentes de leão, comendo flores de picão e folhas de trevinhos.

Grande parte do trabalho na terra é permitir que o lugar revele seu desejo.
E, invariavelmente, esse desejo é diversidade e regeneração. Ou regeneração através da diversidade. Nas sociedades humanas também é assim: quanto mais colorida e diversa, mais criativa e próspera será uma comunidade.
Se você peleja para manter seu gramado sempre perfeito e uniforme, experimente arrancá-lo, libertar a terra e proteger o solo com essa mesma grama depois de seca e com uma boa camada de folhas mortas.
Em breve, a mágica vai acontecer.
Você e seu jardim irão viver a maravilhosa e libertadora aventura da regeneração natural e do aprendizado pelo avesso.