O lago


Quando cheguei nesta casa o jardim estava abandonado. Nada nascia no solo duro e ressentido.

Observei por muito tempo o percurso da chuva. Quando todos se abrigavam na casa, eu corria pra chuva e aprendia com ela. Cada gota guarda uma sabedoria.

Então me lancei ao trabalho de esculpir a terra. Criei bacias e valetas pra chuva se infiltrar, construi pequenas barragens, veios, corregozinhos secretos.

Cavei com ajuda dos amigos um lago no centro do jardim.

Arrancamos a grama e plantamos uma horta e nosso suor também se infiltrou na terra.

Quando a estiagem chega tenho água guardada no lago para regar até que as chuvas voltem e os ciclos se completem.

O lago pulsa como um coração e o jardim prospera ao seu redor. O coração é o movimento manifestado.

Ter um lago nos aproxima do mistério da água. O lago é um ventre. Convida libélulas, abelhas, aranhas, besouros, passarinhos, sapos e outros seres que a gente não vê mas pressente.

A natureza trama o tempo todo para proteger e consagrar a água. Em volta do lago nasceram plantas de purificação, como as que encontramos nas nascentes e riozinhos. Canaranas, taiobas, lírios do brejo, colocasias, papirus, sombrinhas chinesas, espinafrinhos d’água, cruzes de malta, trapoerabas, vedélias, taboas e tantas outras que não sei o nome de chamar mas que sempre respondem ao chamado das águas.

E a cada dia me surpreende no centro do jardim o começo de toda vida. Sempre o mesmo lago, mas nunca igual. A água cristalina reflete os novos céus e os velhos sonhos.