
Más allá del invierno.
Sexta passada eu tive três sessões de cura da alma. Na duas primeiras, com cara de “reunião”, encontrei dois meninos, um no corpo de um homem de uns 30 anos. O outro, ainda mais inquieto, no auge dos seus 50 e poucos, chegou sorridente de moto. Me foram apresentados virtualmente por um ex-colega e amigo que, inquieto como eu, sugeriu costuras. O primeiro, de nome Giba, trabalha com Investimentos de Impacto. Entre uma garfada e outra de um almoço gostoso com mesa na rua e dia de sol, lembrou-me de conceitos e autores fortes, questionadores do mundo de hoje. Me contou, por exemplo, que o Charles Eisenstein, filósofo-menino tão maduro e que tanto me marcou ano passado, traz novos olhares sobre a questão do dinheiro (falou isto justo pra mim, que estou a mil nas leituras sobre dinheiro, fluxo, abundância). A conversa foi rica, parafraseando o próprio Eisenstein em “A economia sagrada” que, claro, já encomendei. O segundo, veio com uma xícara de chá, num lugar igualmente acolhedor. Tem nome Artur e é amigo de outros tantos amigos (descobrimos isto juntos). Não era rei, mas me trouxe a grandeza de uma jornada de sabedoria madura, fresca e incessante. Os bons sábios sempre enriquecem o entorno. Ele me contou que desconfia de que inovação e cultivar a alma são a mesma coisa. E que, do ponto de vista desta mesma alma, tudo é útil. Falou da necessidade de termos uma educação erótica, relacional e que, “farsa por farsa, a farsa de ser eu mesmo” é bem interessante, citando Fernando Pessoa. O Artur, no finzinho da conversa, me relembrou da diva Isabel Allende, figura feminina tão presente na minha vida literária. Contou que num Ted destes da vida, ela fala sobre o processo criativo e como os personagens a “tomam” até nascerem em forma de histórias e livros.
Eu tinha contado, no começo do texto, que foram três sessões de cura numa só sexta-feira. Pois a Isabel Allende foi a ponte que eu precisava para chegar ainda mais tocada na minha terceira empreitada do dia: uma nova costura de inquietações femininas. Cheguei, faz pouco, na 17ª costura de biografias e teorias, uma aula-conversa que ainda não sei onde vai dar, mas sei que preciso seguir fazendo. A costura feminina daquela sexta começou com o cair do sol e foi a 4ª edição de uma também aula-conversa onde conto de autores e histórias que têm me ajudado a curar o meu feminino. Também não tenho ideia de onde vai me levar. Só sei que tenho que ir. Nesta, acabei fazendo na sexta porque era o dia que a agenda de uma amiga, a Hellene, permitia. Ela está de partida para a Argentina com a família. Seria uma certa despedida. Ela adoeceu no dia. Não foi. Outras foram. Algo aconteceu. No final da conversa, éramos 7 meninas, todas com seus 7 anos, falando de suas histórias e memórias.
Os três encontros de sexta foram assim tão intensos porque nos permitimos chegar inteiros nas conversas. Nossas crianças internas tiveram voz, nossas guardas baixaram e pudemos rir e confiar que falar com paixão (e das paixões que nos movem) é tudo de bom.
Claro, fui buscar o tal Ted da Isabel Allende. Encontrei algumas falas dela. O título deste é “Tales of passion.” Estou com um de seus livros, “Amor”, na minha cabeceira. E o último, ainda sem data prevista de lançamento no Brasil, chamado “Más allá del invierno” está encomendado na Amazon desde que entrou no site. Aguardo inquieta, com minha menina de sete anos, pela história de uma senhora vibrante que conta, entre outras coisas, como é se apaixonar com mais de dez setênios.
O Giba, o Artur, as mulheres que estiveram comigo na sexta à noite, a amiga Hellene que não foi, a Isabel Allende, eles têm um fio em comum: esta tal paixão como ingrediente. Uma mesma paixão que, ainda resistente e meio encolhida, coloquei como “a” frase do meu último cartão de visitas.
Andei fuçando, dia destes, nos meus escritos sobre Felicidade Interna Bruta, indicador do pequeno-grande país, o Butão. Eu fui para o Butão há seis anos sem ter nenhuma ideia do que viria a ser a viagem. Mais uma vez na vida, me entreguei com paixão ao desconhecido. Sigo colhendo frutos. Pra mim, paixão e “felicidade interna bruta”, ou “felicidade bruta”, com estou preferindo falar, têm a mesma raiz, a mesma fonte que transborda quando somos crianças: a alegria da jornada, sem saber, necessariamente, do ponto de chegada. Se é bruta, é porque é sem amarras, sem “segundas intenções” (Nilton Bonder), sem medos ou vergonhas. Talvez só seja possível se for assim, visceral.
Sim, estamos vivendo dias sombrios. O inverno tem sido rigoroso para nós. Para as mulheres, para os homens, para o Brasil, para os refugiados, para os jovens, os velhos, os sábios, os ricamente ignorantes. Sim, também é verdade que o inverno passa, ainda que este esteja sendo bem longo. Pra mim, que sempre gostei da beleza gélida que pede calor pra alma, especialmente doído. Mas quando eu encontro com figuras como as de sexta assim, sem saber por que, eu relembro do fundo da minha alma que “más allá del invierno” tem uma primavera apaixonante doida para florescer. Que “hibernar” fortalece. E que isto tudo é cíclico e milenar. Enquanto isto, nos resta “curar” com quem queremos estar e o que nos faz vibrar. Afinal, “não se chegou a nada grandioso no mundo sem paixão.” Hegel. (a tal frase do meu cartão).
Quer mais?
• O Ted da Isabel Allende: https://www.youtube.com/watch?v=BXiY3lk5rbg
• um pouco do Charles Eisenstein, em texto escrito pelo meu ex-colega da primeira série, que reencontrei há dez anos em São Paulo, Rodrigo Vieira da Cunha: https://medium.com/@rodrigovcunha/licen%C3%A7a-para-amar-564e3098e817
Algumas das pistas que sugiro na minha costura de inquietações femininas:
• passeie com a sua artista (criança interna) ao menos uma vez por semana;
• exercite as Morning Pages (mais disto no meu post da Julia Cameron: http://projetodraft.com/costuras-de-vida-parte-2-julia-cameron-e-o-resgate-do-artista/
• não julgue, saiba ouvir, não tente ajudar quem não quer ajuda;
• escreva a mão, cozinhe, costure (lembrando do amado Satish Kumar http://projetodraft.com/costuras-de-vida-parte-4-rudolf-steiner-e-a-antroposofia-mais-satish-kumar/);
• Assista a série “A Tenda Vermelha”, Netflix (The red tent) ;
• Assista (se é que ainda não assistiu) o filme “O Segredo dos seus olhos”;
• Assista “Nise, o coração da loucura” e “Julieta”, do Almodóvar (ambos sobre invernos femininos que demoram pra passar);
• Compre e leia o livro “Biografia Humana”, da Laura Gutman.
Finalmente, meia dúzia de frases sobre o feminino. Algumas, ditas por homens com incríveis almas femininas:
• “Solta o que te magoa tanto, o que pesa tanto em você.” / “A ponte é o amor. O botão de partida é a disciplina. E a salvação é a gratidão.” Sophie Hellinger . (http://projetodraft.com/costuras-de-vida-parte-3-bert-hellinger-e-as-constelacoes-sistemicas/)
• “Amor incondicional inclui amor por você. Martírio, não.” / “Não se relacione a partir do negativo e o outro vai ter gratidão tremenda por você.” / “Você muda e o outro muda.” Robert Happé, filósofo holandês que escolheu o Brasil para passar invernos e primaveras.
• “Ecologia é palavra irmã de Economia” / “O dinheiro deve fluir.” / “O dia é feito de pequenas coisas.” / “Estamos vivendo tempos difíceis. Mas a primavera sempre chega.” / “Grandes revoluções acontecem quando não dá mais para suportar.” Satish Kumar, fundador do Schumacher College.
• “Menina, como se sabe, não tem força de menino, mas tem a enorme coragem de se jogar, por inteiro, no poço do seu destino. Pela coragem, menina sabe ficar pequenina. E, também, no mesmo instante — quando menos se espera — menina vira um gigante!” Ziraldo, escritor muito presente na minha infância, em “Menina das Estrelas”.
• “A importância do presente está na responsabilidade que temos de honrar o passado e o futuro, numa medida artisticamente concebida de honrar compromissos e rompimentos.” Nilton Bonder, rabino, escritor e palestrante, em “A Alma Imoral”.
• “Virá um momento em frente a nós muito rapidamente de forma terrível e rápida em que as coisas vão acontecer e nenhuma das nossas velhas ideias e sentidos darão conta. Um lugar de conexão e essência.” Joshua Cooper Ramo, em “The Seventh Sense.”
• “A frase tão escutada: — a gente só tem que voltar a fazer o que a gente já fez e deu certo — não funciona mais. Temos que criar contextos para os indivíduos se transformarem e, ao se relacionarem, poderem chegar a um outro lugar.” Marcelo Cardoso, ex-VP da Natura, CEO na Meta Integral Associates, amigo e provocador de inquietudes da alma.
• “A crise planetária é a crise da humanidade que não consegue atingir o seu estado de humanidade.” Edgar Morin, filósofo francês, escritor.
