democracia é escolha e força

Há duas maneiras de entender leis éticas e morais: 1. você pensa que há certa proximidade entre as leis naturais e as regras morais, de maneira que, de alguma forma, as leis da ética têm ligação com o cosmos — e assim, por exemplo, você pode falar de “justiça divina”, “validade da vida”, “bem”, “mal” etc.; 2. você pensa que as regras morais e éticas são apenas uma invenção humana, que nada têm a ver com o cosmos em si (alguma espiritualidade talvez abarque isso, simplesmente não conheço). Eu sou partidário dessa segunda e, se alguém que comigo discuta disso discorde, eis um gargalo a que sempre voltará a discussão. Não existe lei natural que defina, por exemplo, que não se deva matar uma outra pessoa. A natureza (o mundo, tudo que existe) propriamente, a meu ver, não determina nada nesse sentido e, ao matar alguém, você não será condenado além desse plano. Se isso é verdade ou não, não sei, somente desconfio que seja uma mania que o ser humano tem de projetar no cosmos a sua própria imagem. Não matar o outro é um acordo, apenas um acordo. Assim como ser solidário, assim como atribuir direitos, assim como considerar-se igual aos outros nesses termos.

É uma boa ideia não matar os outros. ESCOLHEMOS não deixar que o poder da força física individual ou coisa que o valha vire o poder dominante. Entender que isso seja algo inventado e respeitar isso talvez seja uma atitude mais difícil do que cumpri-lo por ser uma espécie de determinação alheia. É muito mais reconfortante acreditar que, um dia, a justiça será feita ou apenas acatar o pensamento/ordem/princípio de outro. “Simplesmente obedecer” é uma tentação tão constante quanto “comandar”. De qualquer maneira, compreender dessa forma, é se colocar numa eterna responsabilidade — se as pessoas não segurarem seu próprio mundo, ele cai. Disso derivam outras ideias como, por exemplo, considerar uma ideia de justiça ou política que considere a si mesmo (enquanto pessoa) como sujeito passível de “erro” em relação à mesma ética e, portanto, não se pensar modelo de nada. Não por “humildade”, mas por aquele princípio escolhido, um entendimento de democracia, que automaticamente nos empurra a cada um nos considerar, enquanto “igual”, um igual e não um modelo. Consideremo-nos um igual, mais um que segura o mundo, mas da nossa própria maneira, idiossincrática e interessada (ainda que nos interessemos pelo “desinteresse”).

Aceitemos que quando repreendemos alguém por ser racista, misógino, homofóbico, nós NÃO estamos o fazendo em nome de um princípio óbvio cujo conhecimento é alcançável através do estudo. Compreender que negros e brancos são homo sapiens não obriga ninguém a respeitar o outro, só ajuda a desmontar a base teórica de alguns (que, ironicamente, também acreditam numa suposta verdade ética adquirível através de estudo que resultaria necessariamente numa ação). Ou seja, cada uma das parcelas que defendem a posição contra a intolerância o faz baseado numa escolha (a democracia) e usam de força. Força de intimidação, força de discurso, força física também, e não há nada de contraditório nisso. De onde esperar que se façam cumprir determinações que vêm a partir das próprias pessoas senão delas mesmas? Racistas vão ser incomodados pelas reclamações e críticas dos que combatem o racismo sim. O estado vai usar a força para determinar que quem comete injúria racial vá pra cadeia sim. Por mais que soe mais bonito, a democracia não é a ausência da força. Entre tantas forças, a maioria pode impor suas noções de justiça, alguma dúvida de que os menores, “errados” ou “certo”, vão usar de força contrária de que dispõem?

Estive pensando algo: por que os grupos LGBTTs tiveram de construir um argumentação teórico-científica pra se justificarem? Ela se centra (eu acho) na distinção entre “opção sexual” e “orientação sexual”. Esta última seria a forma mais correta de se referir à condição desse grupo, no sentido de que eles não escolheram serem como são, mas eles foram como pré-determinados nesse sentido. Okay. Entretanto, 1. caso fosse uma opção (a sexualidade), isso seria um argumento para que seus direitos de ser fossem ignorados? 2. Ainda que o grupo se esforce para comprovar sua condição e isso fosse aceito como fato, essas conclusões científicas mostram a natureza da condição, no entanto não levam à conclusão alguma quanto à forma com que eles devam ser tratados. Essa ação de se justificar talvez seja mais uma expressão da confusão em termos do que são preceitos éticos e morais, eles independem da verdades atestáveis ou das conclusões racionais. Respeitar os LGBTTs como iguais vem da escolha por princípios democráticos, e isso já abarcaria o respeito ainda que se tratasse “apenas” de um opção (sexual).

(Tem muito a desenvolver sobre isso, talvez um dia eu o faça.)