Cada um tem a sua hora

Recentemente, eu participei do processo de trainee da Folha de São Paulo. Em uma das etapas da prova, tínhamos que produzir um pequeno perfil/ entrevista de mil caracteres sobre alguém que já teve a experiência de salvar uma vida. Joguei a “pauta bomba” nas redes sociais e logo apareceram alguns relatos bacanas. Primeiro, achei injusto escolher só um deles. Depois, fiquei chateada por ter que reduzir a 4 parágrafos a história de uma experiência tão intensa. Por isso, venho publicá-la, nos mínimos detalhes, aqui.

O relato que escolhi é o do Cledileno Teixeira, o Leno. Ele é enfermeiro e atualmente está cursando medicina na USP- Ribeirão. Leno contou que, certa vez, quando era responsável pelo treinamento de equipes de enfermagem do Hospital do Câncer de São Paulo ajudou um paciente em metástase (quando o câncer está espalhado por todo o organismo) a ter mais alguns dias preciosos de vida.

“Seu nome era Marcos e ele era piloto de testes da GM. Ele era um paciente com câncer em metástase”, relembrou.

O enfermeiro acabou ficando íntimo do paciente. “Acredito que seja uma das peculiaridades da enfermagem, né? Nós estamos muito próximos dos pacientes, porque é do trabalho acompanhar o quadro clínico deles. Ficamos muito tempo por perto, então, vamos criando esses vínculos que muitos médicos não conseguem principalmente pela questão do tempo”.

Leno contou que, certo dia, seu paciente teve uma mudança repentina no estado de saúde. “Ele apresentava o chamado declínio clínico. A equipe de enfermagem era nova. Eu estava começando a treiná-los. Todo mundo ficou apavorado. Eram umas oito horas da manhã e tivemos que acionar o serviço interno de emergência do hospital. Fiz uma massagem cardíaca nele, e, depois, fiz a sondagem para que ele eliminasse os fluidos e urina”.

O enfermeiro lembra que, algumas horas depois do salvamento, o paciente já estava recuperado. “Parecia que nada tinha acontecido. Marcos estava super bem, disposto, conversando. Ele me agradecia muito e dizia que não podia ir naquela hora, que precisava viver mais um pouco porque tinha assuntos pessoais para resolver. Enfatizava isso, que tinha assuntos pessoais”, contou.

Passados alguns dias do episódio, o paciente, que já estava com um câncer em estágio mais avançado, acabou falecendo. “Ele já estava na batalha final mesmo. Mas depois de sua morte, os pais dele acabaram me contando que o Marcos havia comprado uma casa para deixar para os dois. Era esse o assunto pessoal que ele tinha tanta urgência para resolver. Aquele salvamento deu poucos dias para o Marcos, o suficiente, porém, para que ele fizesse aquela surpresa”, disse.

“Eu sempre conto essa história porque sempre me faz pensar que a gente não pode desistir de um paciente não, por mais crítico que seja o quadro dele”, finalizou.

*Eu conversei com o Cledileno num sábado, no mesmo dia em que acompanhei pela tevê a triste despedida dos jogadores da Chapecoense. As histórias dos alvi-verdes e a do Leno me fizeram lembrar aquele trecho de “A hora e a vez de Augusto Matarga”, do mineiro Guimarães Rosa: “cada um tem a sua hora e a sua vez”.