A arrogância masculina ou sobre como sempre somos testadas

Fiz dois anos de estágio em um lugar onde a impressora ficava na sala ao lado. E na sala ao lado trabalhava certo senhor daqueles fãs de MPB. Nenhum problema até ai, também sou super fã. Até ele perceber que meu nome era Anna Luísa. A partir desse momento, cada vez que o encontrava eu tinha que escutar: “Você sabia que o Tom Jobim tem uma música que se chama Ana Luiza?” seguida de uma cantarolada. Sim, eu conheço a canção há pelo menos 10 anos, mas já não me importava em responder a cada intervenção feita no elevador. E essa não era a única.

Passei a ter ojeriza. Evitava a sala e outros contatos a fim de diminuir o desconforto daquelas indagações. Passou um tempo, ele foi transferido para outra sala, veio um alívio. Mas como nunca estamos livres de testes — como naquelas matérias ridículas onde apenas mulheres são questionadas sobre qual o nome do vocalista de tal banda ou sua música preferida — nem podemos evitar uma pessoa que trabalha no mesmo lugar para sempre, estava indo embora e encontro o senhor cantarolando uma melodia qualquer.

Dei um aceno cortês e me encaminhei para a saída. E aí vem, claro, a pergunta: “Você sabe que música é essa?”. Ignorei e continuei tentando seguir diante de uma expressão muito satisfeita em poder disseminar seus conhecimentos não solicitados. “É Bárbara”. Eu também, que não consigo ficar para trás, não consegui passar despercebida neste momento. Logo emendei: “Eu sei. Bárbara, amante de Ana, de Calabar, do Chico. Eu li, eu conheço”. A satisfação transformou-se em um misto de surpresa e espanto, ficou mudo. E eu finalmente pude ir embora sentindo aquele prazer de quem não ficou calada dessa vez.

Betty Faria como Ana de Amsterdam na peça “Calabar: o Elogio da Traição” (1973)

Lembrei-me de outro episódio. Estava em um show de uma banda cover de rock. Dessas bem genéricas, mas famosinhas em BH. Meio do show já, vejo um cara interessante, começamos a conversar. Sem nem perguntar meu nome primeiro ou qualquer outra coisa logo vem: “De quem é essa música?”. Quebra de clima total. Lembrei de todas as vezes em que isso acontece. Me recusei a responder alegando que ele jamais chegaria pra conversar com outro homem dessa forma. E disso eu tenho certeza.

A grande questão é que não importa se eu sabia sobre todas essas músicas ou não, mas sim uma questão de exibicionismo por parte de quem indaga, uma certeza de que eu, por ser mulher e, no primeiro caso, por ser mais nova, não poderia conhecer ou saber certas informações. Coincidiu de sim, mas e se não? Eu poderia não gostar de MPB ou tão pouco de rock ou gostar e ainda sim não precisar ter o nome na ponta da língua.

Porque ser mulher é ser testada o tempo todo mesmo demonstrando conhecimento, mesmo sendo boa em diversas áreas, mesmo tendo que lidar com um sobrecarrego de tarefas. E ainda ser legal, saber sobre futebol, gostar de cerveja, conhecer tal banda, entender de mil assuntos e ainda assim não ser suficiente porque sempre vai ter um homem detentor de toda a sabedoria pra te iluminar e explicar didaticamente — o famoso mansplaining — sendo que na maioria das vezes ele sabe menos que você.

Então me pego pensando que na verdade não há uma disposição para trocar ideias e interesses, mas sim a vontade de se mostrar superior para que talvez, nossa, desperte em nós uma incrível admiração pelos seres detentores de toda razão e sapiência. Em mim não, obrigada, posso consultar o Google para isso.