Mens sana in corpore sano

Um dia com a Associação Os Amigos dos Animais de Almada


Leggings vestidas, check. Camisola usada vestida, check. Galochas calçadas, check. Cabelo apanhado, check. Natacha tem em 15 anos e sonha salvar todos os animais abandonados do mundo. Para já, contenta-se em cuidar dumas centenas de cães, aos domingos. Numa louvável atitude, chegou a casa há uns meses decidida; “vou voluntariar-me para cuidar dos cães da Associação Os Amigos dos Animais de Almada”.

“Estamos prontas, vamos” anuncia, pouco antes das 10 de manhã enquanto acaba de guardar a garrafa de água na mochila. O dia prevê-se quente e o trabalho que nos espera é cansativo.

A Associação fica na Charneca de Caparica, 20 minutos de carro, tempo suficiente para ela me contar algumas histórias passadas lá A exemplo disso, falou-me do Mateus, um rottweiler lindo, com pouco mais de 2 anos, que foi roubado há umas semanas. Um dos vizinhos da Associação um dia pediu a Helena, a dona, para que o deixasse com ele. Desconfiada, ela pediu para que ele voltasse uns dias depois, para falarem melhor, porque “não iria dar o cão só assim, sem mais sem menos”. Passados poucos dias, Mateus desapareceu.

“Tivemos muita sorte porque já suspeitávamos quem o levou, e com a ajuda das autoridades conseguimos recuperá-lo” comentou Patricia, uma simpática rapariga nos seus 30, que é voluntária na Associação há 6 anos. “Durante a semana tenho o meu trabalho, e nos fins de semana venho cá cuidar deles” explica, enquanto enche mais um balde de água.

Chegadas a quinta, Natacha indica-me o caminho. Trata-se dum espaço grande, dividido em parcelas com cerca de 10 casotas de madeira, isso é, em média 30 cães. Os primeiros que vimos são bebés duma das mais recente ninhadas, tem meras semanas e são adoráveis.

O trabalho no albergue começa cedo, a divisão é feita em equipas. Patricia e Pedro, os membros da nossa, devem ter chegado antes das 9, porque já estavam a acabar de limpar a primeira casa. Indicam-nos as taças sujas e vazias dos 3 cães residentes, que foram retidos no pátio enorme disponível para eles brincar. “É preciso tira-los daqui enquanto trabalhamos, senão não conseguimos. E vão um grupo de cada vez, não se podem misturar” assegura-me Pedro, um quarentão taciturno, alto e loiro, que cuida dos animais como se fossem dele há anos. Este laço forte, entre os animais e quem de eles cuida, foi-me confirmado também pela Patricia. “Aqui sinto-me em casa. Não posso deixar de cá vir”.

As taças lavam-se bem, com esponja de aço e detergente, e os baldes de água também. Há limitações que a Associação enfrenta, mas o cuidado com a salubridade é essencial. Eu e Natacha tratamos desta parte, lavamos e enchemos com comida e água, enquanto os outros dois limpam a casota, tapam os buracos que os cães cavam na areia, retiram os ratos mortos e concertam a cama. Estando prontos, os veteranos deixam os “donos” voltarem, tudo com uma agilidade e rapidez de quem tem experiência, para que tudo corra bem. É uma alegria ver tão lindas criaturas deliciarem-se com o nosso trabalho.

“Durante a semana há uma senhora, empregada mesmo do albergue, que vem cá dar comida e água às manhãs, mas é nos fins de semana que os voluntários fazem a maior parte do trabalho” continua Patricia, quando a questionei sobre o funcionamento diário. “Limpamos as casas, brincamos com eles, e damos-lhes pepitas contra pulgas quando necessário”. A Associação conta também com uma Enfermaria, pronta para dar o apoio necessário aos “4 patas”.

Na terceira casota mora uma cadela lindíssima, castanha, que sofre duma doença que lhe faz cair o pelo, deixando-a com comichão e irritadiça. Meiguissima, lambe a mão a todos os visitantes. Encontrei-a deitada com as patas para cima, tentando em vão coçar as costas contra a areia. Os uivos são aterradores, mas garantem-me que vão trata-la ainda hoje. Pelo que parece, alguns cães, como no caso desta, a Helena os vai buscar aos canis, impedindo assim o seu abate. Trata-se principalmente de cães com doenças, cuja tratamento é dispensado pelos donos, por isso, são abandonados no “corredor da morte”.

“Há pessoas mesmo horríveis” comenta uma outra voluntária, enquanto faz festas a Soja, uma lindíssima cadela com olhos meigos, que foi literalmente atirada para dentro da quinta.

Todos os cães que por aqui passam têm histórias tristes. A maioria são caseiros, disciplinados e bem comportados. À excepção de um ou outro que tem visíveis traumas, os cães que a AOAAA alberga são brincalhões, alheios das atrocidades cometidas pelos humanos, e ansiosos para alguém os adotar.

À música do ladrar feliz de quem sabe que vai ser bem tratado, os “4 patas” estão em permanente busca de atenção. Passo a acariciar cada um, deixo-os lamber as mãos sujas da comida que acabei de misturar. “Se deixarmos o patê por cima, eles comem isso e não tocam na ração. Temos que a misturar bem, com molho, para disfarçar”. Dito e feito, toca a mexer na comida, cuidadosamente medida, sem luvas, porque tudo é relativo quando olhamos para a cara feliz e expectante dos animais.

Enquanto ajudo uma rapariga a ajustar o portão improvisado de madeira que separa duas parcelas, a minha atenção virou-se aos três cães da casota do meu lado. Um rato gigante tinha entrado no meio deles, e o início da caça deu-se por um incrível barulho. Balde de água entornado, taças de comida reviradas, o rato não sobreviveu. A carinha pateta deles, quando nos aproximamos, revela uma satisfação inocente de quem adora brincar.

Natacha não gosta de roedores. Pediu, logo no início, que não seja ela a limpar por dentro das casotas. Mesmo assim, de vez em quando ainda apanha sustos. Como hoje, por exemplo. Ao despejar um balde com água suja na pia improvisada no meio do pátio, oiço-a dar um grito ao ver um ratinho morto caído ao pé do ralo. Imediatamente os homens “de serviço” apressam-se em desfazer-se da criatura, levando-a para um buraco da areia a que chamei “o cemitério dos ratos”. Interrogando porque não são dados aos cães, Pedro explica-me que só deixa os vivos ser comidos, “os mortos podem ter doenças”.

Pouco tempo passado das 11 e estávamos a uma casota distância de acabar. “Este grupo trabalha bem e rápido” explica-me a Natacha, “nos últimos dois domingos estive com um grupo que a esta hora ainda nem metade tinha pronto, saía sempre perto das 13 h”.

Tinha reparado nele logo à entrada. Porte grande, castanho dourado, olhos meigos gigantes, uma comprida língua sempre de fora. Dartacão é, pela posição solene e lindíssimo mas intimidante aspeto, o rei. Nunca tinha visto animal tão belo, imponente, digno na sua maneira de andar. Partilha com os outros cães uma história triste, de abandono. “Morava com os donos numa casa, quando eles divorciaram, nenhum quis ficar com ele, então trouxeram-no para cá. Já tem 7 ou 8 anos … dificilmente encontrará alguém.” Informa-me Patricia, observando a minha visível admiração.

O resto do tempo correu num instante, e pouco tempo depois estávamos de saída. Troquei contatos com a Helena, que tinha chegado há pouco, e andava dum lado para outro ocupada com a fila de pessoas que entretanto se formou a porta do gabinete improvisado. Entre deixarem animais, adotar outros, doar um pouco do que tem e oferecer os seus serviços para a causa nobre que a Associação desempenha, as pessoas requisitam-na permanentemente.

Com pouco tempo a disposição, Helena conta-me a boa notícia, a aquisição dum terreno, no valor de 200 mil euros, para finalmente mudarem as instalações. O canil de Aroeira, que alberga cerca de 250 cães, faz 32 anos e tem uma história de acaso feliz. Em 1982, nove amigos decidiram dedicar as suas vidas a dar abrigo a animais abandonados. O terreno atual é propriedade particular duma senhora, que também se ocupava com isso à título pessoal. Chegado ao ponto de ter demasiados animais para a condição que tinha, a senhora pediu a ajuda da Associação, oferecendo o espaço. Tendo ela falecido entretanto, a AOAAA viu-se numa situação infeliz de estar num território que não lhe pertencia, por isso sem possibilidades de construir ou melhorar o albergue. Sendo-lhe reconhecido a “utilidade pública” pela Assembleia Municipal de Almada, e sendo que a missão fundadora de “desenvolver um trabalho comunitário que defenda os animais e o meio ambiente onde estes estão inseridos” continua a ser a placa lapidar do funcionamento desta, a Helena conta com a ajuda de toda a comunidade, e da Câmara, para continuar a assegurar uma boa condição de vida aos amigos de “4 patas”.

Como se pode ler no Estatuto da Associação, disponível na íntegra no site, as fontes de rendimento deste Canil conta com quotas, vendas de produtos na loja própria e doações, tanto de empresas como de pessoas que simplesmente queiram ajudar. De quando em vez, a organização faz recolhas, em vários pontos do Conselho, incluindo escolas e hipermercados.

Helena reforça que se gastam em média “3000 euros por més” só em ração, fora os cuidados médicos que “não são poucos” nem baratos. Para quem adotar um dos animais, a Associação tem a disposição um leque de parcerias, que vão desde descontos em tosquias, a produtos comercializados em certas lojas de animais e até uma sessão fotográfica.

A mãe duma voluntária pergunta-me, a saída, o que achei das condições. Antes de lhe responder sobre a evidente falta de segurança oferecida por uma vedação muito superficial e da preocupação que me acompanhou o dia todo sobre o facto de deixarem os animais sozinhos durante a tarde toda, lembrei-me da Patricia que me disse que “se calhar, agora com o novo espaço, conseguíamos construir um murro”, sugestão que mencionei-lhe enquanto cuidávamos do Mateus.

Sorrimos, entusiasmadas pelo futuro destes 250 cães, que pelo que tudo aponta, será bem entregue. Saímos de lá assegurando que iríamos voltar, promessa essa que pretendo cumprir. Não há nada melhor que a paz de espírito sentido depois de passar umas horas a contribuir para a felicidade e acomodamento destas criaturas que não pedem nada, apenas que se goste deles e que lhes façamos festas.


https://vimeo.com/98877911