Números, último capítulo

Num cais sem cor eu aguardo, vivendo,
enquanto o sal do mar descolore a vida
e o telhado catalisa os calores da tarde
com a cinza calcária que chove do topo…

Me encontro no ermo, no deserto.
Onde tudo é mais exposto,
na nudez, na fome, no naufrágio,
na fuga do andarilho não achado…

(enquanto isso, vozes nas ruas 
anunciam o Império mais poderoso da semana)

Império! Um dia estes ossos carcomidos
pela ferrugem de um pranto estéril
repousarão sob a planície lapidar
desta seara infinita de fracassos.

E não haverá testemunha:
só, talvez, outros como eu,
garimpeiros infelizes do ocaso,
acendedores de lamparinas rotas

E meu olho, pequeno e vagabundo,
que farias o favor de arrancar.
Não, testemunha não haverá,
estaremos sozinhos até lá.

Haverá só talvez, essa Sarça que arde,
e a Lei feita homem,que caminha no deserto,
e perambula no ermo, entregue, 
completamente entregue e solitária.

Guiando os náufragos,
secando as lágrimas,
sendo manjedoura instalada
debaixo da Árvore da Vida.

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