Pequena crônica duma estrela movente.

Sopra um vento na porta num domingo sem missa. Assim cai uma tarde numa vida sem estrela. Faço um poema ridículo, faço a vida ridícula. Afinal, não vou ter tempo para ser aquilo o que eu queria. Não tenho a força para tê-la. Ela é distinta. Existe uma certa alteridade em tudo, alteridade nas cidades em que convivemos e nas que nunca nos encontramos. Você tão nômade e eu, plantado, sugado pela minha terra, por um ventre que não é do mundo da fisiologia materna.

O mundo nunca foi uma mãe para mim, pelo contrário. Sinto que não existe doutor para cortar esse cordão umbilical imaterial e arrancar-me, sangrento, desse outro corpo que me nutre com essas tantas aflições suaves. Sou incapaz até de lancinar, pois que sinto só um desconforto, um estar deitado em cama em que se escapa os pés, nunca a dor dos cancerosos, dos decepados, etc.

Nesse mundo não há mesmo doutor. Não existe terapêutica. Só existem as curas milagrosas, as pílulas de Frei Galvão, as novenas para Santo Expedito e São Brás, a saliva do Cristo a devolver as vistas... Não sei porque ainda os procuro - os médicos: marco a hora e sempre acabo ou por desistir ou achar as receitas dignas mais de riso do que de obediência. Que seja. Não me receitem mais remédios, por favor. Me carreguem à força para uma romaria que eu ganho mais.

Mas você na ausência talvez ainda esteja lá, mulher, aparecendo nas horas mais inoportunas - seu perfume provocando a memória olfativa - mas é tudo maçada: você foi só uma estrela que passou, um cometa que pude ver e sair gritando ao Mundo que ele iria acabar, que dessa vez era pra valer, de hoje não passa e ele passou. Passou atropelando minha carcaça e você (sempre móvel) saiu carregada por aquele vento da tarde de domingo que vem soprar seu nome aos meus ouvidos moucos, sopro trazido, perene, en passant, batendo à porta.

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