Um Onívoro Relutante

Sempre comi carne e tirá-la da minha dieta não passava pela minha cabeça. Do ponto de vista ético, o ato de comer carne não me causava constrangimentos ou preocupações. Acreditava que nossa condição de onívoros tenha sido importante no processo evolutivo da espécie, ou seja, viemos a ser o homo sapiens que somos graças, entre outras coisas, à nossa dieta. Minhas preocupações se restringiam à saúde e à estética, o que se refletia em consumo moderado de carnes vermelhas ou gordurosas. Isso mudou no dia 26/09/2015.

Nesse dia, um sábado, a seção de livros do jornal britânico The Guardian na internet remeteu-me a um artigo de Yuval Noah Harari sobre o tratamento dispensado aos animais nos processos industriais de criação e abate, que por sua vez fez referência a outro artigo de Peter Singer e a vídeos sobre abuso de animais em abatedouros britânicos. O impacto foi grande porque fui pego de surpresa, as informações vieram até mim sem que eu as buscasse — meu objetivo era buscar notícias e artigos sobre o mundo dos livros, como faço regularmente em diversos jornais — e não tinha me armado com as defesas que normalmente nos armamos diante de uma situação que sabemos de antemão pode causar estresse psicológico. O impacto foi grande também porque, embora os processos de engorda e abate estejam distantes de nosso entorno e do alcance de nossos olhos, tive certeza de que no fundo eu sabia de tudo isto e encobria sob camadas de hábito e de conveniência.

Percebi ainda durante a leitura dos artigos de Harari e de Singer e enquanto via as imagens, que meus hábitos alimentares deveriam mudar. Eu não poderia mais fazer parte deste processo e a partir de então a carne proveniente de processos industrializados não fez mais parte de minha dieta. É preciso destacar esse ponto: naquele momento não me voltei contra o habito de comer carne, mas contra o tratamento indigno sofrido pelos animais nos processos industrializados de criação e abate. Isto significa que se eu adquirisse um pintinho em uma loja especializada, cuidasse e alimentasse bem ele e esse pintinho crescesse e viesse a se tornar uma galinha, que eu também cuidaria e alimentaria com cuidado e lhe oferecesse um espaço adequado para fazer suas coisas de galinha, quando chegasse o momento propício, eu poderia abatê-la e me alimentar dela sem nenhum problema. Como ocorria em minha infância na casa de meus pais, onde criávamos rotineiramente galinhas e porcos, por um período tivemos uma vaca, e se minha memória não falha, fizemos uma experiência com a criação de coelhos. Isto era comum nas famílias que vinham do campo e se instalavam nas cidades e mesmo hoje vemos no entorno das regiões centrais a criação em pequena escala, doméstica, de animais para produção de ovos, leite e também para o abate. Os peixes e frutos do mar continuaram em mina dieta porque considerava que o processo natural de reprodução e crescimento era respeitado.

Este arranjo se manteve por três meses, e antecipo a quem possa ter ficado aflito: não criei e tampouco abati animais neste período. Na virada do ano de 2015 para 2016, li um livro chamado A Vida dos Animais, de J. M. Coetzee. Neste pequeno livro, editado a partir de uma metaficção em dois capítulos (Os filósofos e os animais e Os Poetas e os animais) apresentados pelo autor em 1997 no ciclo de palestras Tanner de valores humanos da universidade de Princeton, há uma reflexão desenvolvida pela protagonista Elizabeth Costello sobre a capacidade de imaginação simpatizante que nós humanos temos. Na página 43 (edição de 2002 da Companhia das Letras, grifo do autor), ela diz: “O coração é o sítio de uma faculdade, a simpatia, que, às vezes, nos permite partilhar o ser do outro.” Mais adiante na mesma página ela continua: “Não há limite para a imaginação simpatizante”. Elizabeth Costello nos mostra que simpatizamos até com pessoas que nunca existiram, como personagens da literatura. Sabemos que o Dom Quixote de Cervantes ou o Werther de Goethe nunca existiram, que são personagens criados pelo gênio de seus autores, e mesmo assim somos capazes de imaginar sua existência e simpatizar com ela. Eis o cerne da questão: se somos capazes de imaginar e simpatizar com seres que nunca existiram, por que não o somos com outras espécies animais, estes sim seres reais? Sem entrar no mérito de quantos de nós mantém seu coração aberto à simpatia pelo ser do outro, esta argumentação me levou à seguinte pergunta: por que temos uma grande capacidade de simpatia com alguns tipos de animais e não com outros? O exemplo dos cães é perfeito. Quem de nós não fica escandalizado com o uso de sua carne como alimento em outros locais do mundo? Por que o consumo que fazemos da carne de tantos outros animais não nos escandaliza da mesma forma? Não seria este nosso comportamento uma forma seletiva de empatia que condena inúmeras espécies animais aos maus tratos, ao sofrimento e à morte?

É lugar comum, bem sei, mas a mudança sempre começa dentro de cada um de nós e durante a leitura do livro de J. M. Coetzee senti a necessidade de aprofundar minha decisão. Daquele momento em diante a carne de qualquer tipo de animal não fez mais parte da minha dieta. Também sei que minha decisão carece de fundamentação filosófica, mas as diversas correntes de pensamento vão lhe fornecer argumentações éticas para defender qualquer decisão que tomar, de modo que uma decisão fundamentada na simpatia para com o ser do outro tem, a meu ver, tanta validade quanto uma fundamenta na ética.