Mudança Olímpica

Lawrence Lessig

Apesar do que dizem, a vida não é rara, vidas honestas são. Pessoas que vivem de acordo com o que acreditam são raras. Esse foi o caso do jovem Aaron Swartz, morto brutalmente, segundo seu amigo (o pré-candidato a presidência da República dos EUA Lawrence Lessig), pelo sistema capitalista.

Foi o que ele me contou, com lágrimas nos olhos, na entrevista coletiva do evento Emergência. Nunca imaginaria uma resposta como aquela para a questão: qual o maior desafio de sua vida?

Ele olhou para o azulado céu carioca que nos cercava e, com uma tristeza incomum ao momento (mas inerente a sua resposta), riu magoado. Com o quê? Com o mundo, provavelmente. A dor era visível em seu olhar.

Aceitar a morte de um jovem como aquele era seu maior desafio. Eu não sabia quem era, me sentindo terrivelmente ignorante.

Aaron Swart teria 29 anos hoje. A questão que não quer calar é: como o sistema capitalista poderia ter matado um jovem de classe média universitário?

Se ele não fosse inteligente e crítico estaria vivo até a atualidade. A vida na ignorância é, de fato, uma sobrevida, então pelo menos podemos afirmar que ele viveu. Tem gente que nasce para não viver.

O jovem estava sendo processado por ter efetuado o download de muitos arquivos acadêmicos. 39 anos de prisão seria a pena dele, caso não tivesse se matado. O suicídio não é mais que um grito surdo de dor. É uma pena que ninguém foi capaz de auxiliá-lo.

Senhor Lawrence Lessig trabalhava, além de ser professor de Harvard, com a questão do sofware livre (é cofundador do Creative Commons, que revolucionou o conceito de propriedade intelectual na internet), até que Aaron o questionou sobre a forma como isso iria realmente afetar o sistema, sua corrupção implícita no jeito de se fazer a política.

Esta conversa realmente fez com que ele parasse e refletisse. É por esse motivo que propõe uma mudança radical na política americana, começando pelo financiamento de campanha: “vale-democracia” seria o ‘ticket’ para que cada cidadão pudesse decidir a quem enviaria dinheiro para campanha eleitoral.

Cada eleitor pagante de imposto de renda receberia do governo um vale de R$ 100, que seria descontado do seu IR. Você faria com o ‘vale-democracia’ o que faz com sua vida: escolhas. Poderia decidir quem teria mais dinheiro para campanha eleitoral. Todos os investimentos para campanhas eleitorais viriam do dinheiro público.

Essa seria a única forma de financiamento de campanha. Como ter certeza de que o dinheiro foi para a pessoa certa e de que o candidato (a) está usando bem a grana?

Simples. Assim como hoje existe o site da Transparência, em que é possível visualizar todos os salários dos trabalhadores governamentais, como está sendo usado o dinheiro na educação, saúde, existiria um site em que você poderia monitorar todos os usos do dinheiro dos políticos nas campanhas. E o melhor: pessoas jurídicas (empresas) não teriam voto. Pode até ser que não encerrasse com a corrupção, mas ao menos diminuiria consideravelmente os jeitos de roubar. Você teria que ser bem mais criativo para isso.

Ele quer se eleger e depois renunciar para conseguir fazer tudo a que se propõe, afinal só quer fazer uma lei, e para isso não pode estar realmente focado em ser um político. Loucura? Eu acho genial. Está bancando sua campanha por crowdfunding, já conseguiu um milhão de dólares.

Quando questionei de que forma ele faria a mudança na política americana, caso não fosse eleito, respondeu que ‘não serei eleito. Sei que não tenho chance. Meu objetivo é fazer a população acordar, uma hora eles vão fazer a mudança necessária.’

A lei se chamaria de Citizen Equality Act, e além do vale-democracia colocaria o sistema direto de eleições (lá o presidente é escolhido por um colégio eleitoral de 58 delegados, como foi no Brasil na época da Ditadura, mas nós lutamos arduamente contra isso. Alguém lembra das Diretas Já?)

Um senhor que quer mudar seu país inspirado nas ações e palavras de um jovem. Com certeza um Olímpico.