Do vôlei a vida

Nathan Silva em um torneio de praia

O primeiro jogo no projeto Atleta Cidadão poderia ter sido um sucesso completo para o jovem Nathan Silva, na época com somente doze anos, mas não foi. 2006 foi um ano fatídico.

A questão não foi o jogo em si ou os colegas. Ele estava muito animado em sua primeira viagem com o time. A vida as vezes prega peças visíveis somente ao tempo.

Ele havia acabado de conquistar a vaga no time: ‘ 2006 foi o ano em que eu comecei a jogar vôlei, algo que fazia apenas na educação física. Graças a professora Camila eu fui fazer o teste, ela nos convidou, mas no final só fui eu e mais um amigo. Eu fui mais por ir, não sabia nem como se fazia um toque ou uma manchete direito.

“Chegando lá tinha muita gente, alguns garotos tinham uma noção, aí nos separaram em grupos, no meu já fui pensando que não iria passar. Aí ele escolheu 3 garotos para o time. O último nome a ser chamado foi o meu. Sabe aquela história de filme? Me senti mais ou menos assim. Depois perguntei ao técnico porque me escolheu: “Vi mais que um garoto alto com canela fina e cabelo black power, vi potencial” .’

Pouco tempo antes do jogo seu pai, ao sair do banho, sofreu um ataque cardíaco. A mãe dele, desesperada, levou o pai para o hospital, deixando os filhos em casa.

‘ (…) Nisso eu já estava decido em não ir mais jogar, porém minha mãe me ligou falando que era para eu pegar o ônibus e ir, eu perguntei sobre o pai e minha mãe respondeu que ele estava bem e havia dito para para eu ir. Eu fui com um aperto mais fui. Chegando lá a primeira coisa que fiz foi ligar para minha mãe para saber do pai, ela falou que ele ia fazer exames e seria transferido para um hospital particular.’ — Declarou o jovem.

A vida, porém, é fugaz, nem sempre mantém-se nos trilhos desejados. Por pura ironia seu time ganhou na segunda, mas mesmo assim conseguiu encontrar um tempo para conversar com a mãe.

Na terça eles também foram bem sucedidos no campeonato, mas o jovem não ligou para a mãe graças a uma festa no encerramento das atividades.

A quarta feira não seria tão boa e glamorosa. Aquele deveria ter sido um dia de treino, o que infelizmente não se sucedeu: o técnico dele aproximou-se e disse: “Nathan você não vai, parece que deu alguma complicação com seu pai e alguém da secretária do esporte está vindo te busca. Fiquei deitado esperando. Sabe quando você sente que algo aconteceu? No fundo já sabia que algo grave tinha acontecido.”

Ao chegar a São José recebeu uma triste notícia. Sua mãe lhe contou do falecimento de seu pai. Para a maioria de nós seria o fim da prática esportiva, ainda mais com toda a associação que poderia ser feita com a morte do pai.

Como todo Olímpico, ele não desistiu. Ao contrário, dedicou-se com mais afinco.

Minha reação foi apenas de chorar, não tinha muito o que fazer, tinha apenas 13 anos, mal sabia as coisas da vida ainda. No ano seguinte um primo, que era como um irmão, também faleceu, esse foi o período mais difícil da minha vida. Perder um pai depois um primo tão próximo é complicado. Nesse momento não tinha muito o que fazer, me dediquei 110% ao vôlei e estudo, não podia dar trabalho, minha mãe tinha minha irmã para cuidar, que já tinha seus problemas com aprendizagem, ela tem dislexia. Meu irmão, com a morte do meu primo, entrou em depressão.’

A beleza dos resultados é o reflexo dos esforços e lutas de cada um.

‘Com 15 anos passei no SENAI, fiz dois anos de curso de mecânico de manutenção de manhã, treinava vôlei a tarde, fazia o Ensino Médio a noite. Saia as 5 da manhã de casa e voltava depois da meia noite. Não reclamo, foi um período que joguei muito bem, fiz muitos amigos e vôlei se tornou minha segunda família. Me formei no SENAI mas não quis seguir profissão de mecânico, não é algo que eu me identifico, mas estudar nunca é demais.’

Ele começou a estudar Educação Física na UNIVAP com bolsa atleta, mas seu estágio no vôlei de São José não pagava nem metade da faculdade, por isso quem assumiu a conta foi a mãe. Ele percebeu, porém, que a conta estava alta, trancou a faculdade e voltou a treinar em Taubaté durante seis meses. Foi jogar em Mogi, mas o projeto não era sério como hoje, então parou.

Afinal conseguiu, graças ao seu esforço e ao estímulo de pessoas queridas, um trabalho em Caraguatatuba, no projeto Ataca Lorena, que tem o objetivo de levar o vôlei para escolas municipais, dar oportunidade ao sonho. Além disso treina vôlei de praia.

Ele afirma que, apesar dos títulos conquistados no time de São José, os maiores prêmios foram os exemplos, os técnicos que o ajudaram (principalmente Ricardo Alexandre Paiva), e em quem ele se espelha hoje.

‘Sou um homem feliz, realizado com tudo que fiz, mas com muita gana de buscar mais. Agradeço a Deus pelas pessoas na minha vida, como a professora Camila, ao meu primeiro técnico Ricardo, ao meu amigo Erick, a minha esposa Suellen, a minha mãe rosa Maria Faustino da Silva, por nunca desistir de mim, por sempre ser minha mãe e pai.

Tenho apenas 22 anos não vivi muita coisa. Mais eu posso dizer que o esporte e minha família me deram uma base do homem que sou hoje.’

Esporte, arte… A verdade é que o acesso ao criar transforma o ser humano de forma inegável e irrevogável. A história de Nathan Silva é um exemplo de como construir uma vida baseada no esporte, não importando as dificuldades ou traumas, e de como o esporte pode proteger vidas.

Laís Vitória Cunha de Aguiar.

Alunos do projeto Ataca Lorena