Feliz Olímpica

Nos sentamos em uma mureta com a vista quase total de Copacabana e Ipanema, com o Cristo (apesar de não conseguirmos vê-lo) bem acima de nós.
O vento era incessante, mas nem isso nos impediu de conversar. O clima estava ameno, e eu tinha certeza de que aquela seria uma boa entrevista.
Viviana Delgado pode ser jovem em seus apenas 24 anos, porém tem o que contar.
Seu país é o Uruguai, e mora em Montevidéo desde os 18 anos. Nasceu em Ciudad de Minas, capital do estado de Lavalleja. Vive com seu companheiro Justin e seu cachorro Venito.
Apesar de ser a capital do estado, ela ainda se lembra de jogar bola na rua, de andar de bicicleta sem perigo.
As políticas públicas, todavia, explicam uma parte da paz uruguaia. Viviana trabalha como educadora e é estudante avançada de psicologia em um programa governamental, e estava no Rio para participar do encontro de política, cultura e ativismo promovido pelo governo federal, Emergência.
Ela trabalha com pessoas em situação de rua há cinco anos em diversos projetos, e hoje labora no programa Atenção a População de Rua (Atención a Populación de Calle), o refúgio em que trabalha se chama Charrua- Cooperativa Sumando Opciones.
Ela me explicou em detalhes o funcionamento das cooperativas, que colocarei na íntegra aqui:
‘ Em parte é uma cooperativa de trabalho conveniada com o Ministério de Desenvolvimento Social (Ministerio de Desarrollo Social-Mides) e outras instituições para realizar determinados projetos. Hoje a cooperativa tem três projetos de centros para homens em situação de rua e dois em convênio com o Centro de Atenção a Primeira Infância, que são duas escolas para pequenos.
Além disso temos uma rádio comunitária onde os participantes são os gestores da rádio, e uma horta comunitária no fundo do centro, a qual há uma pessoa especializada para auxiliar os participantes a cuidarem dela.
Nosso trabalho é acompanhar essas pessoas, impulsionando a participação em pequenos empreendimentos como forma fundamental para a inclusão na sociedade. O fundamental é acompanhar os processos, não somente ter um lugar para dormir e comer.
As pessoas em situação de rua são excluídas de todos os núcleos fundamentais em sociedade, os de trabalho, os familiares, culturais, sanitários e demais. No nosso refúgio o objetivo é restaurar estes núcleos.
O nível cultural é o mais difícil, por isso pontuamos fortemente neste âmbito: fomentamos a participação em todos os espaços democráticos, criando programas onde não apenas participam, mas autogestionam os projetos.
A rádio, por exemplo, funciona dois dias por semana e tem um para o planejamento do trabalho. O programa de rádio tem duas horas de duração.
O centro também oferece um local para dormir, a janta e o café da manhã. Funciona das 18 as 9 da manhã. O núcleo que trabalha com atividades psicológicas planeja atividades saudáveis para o dia, como por exemplo assistência aos centros culturais, atividades que ocorrem na cidade.’’
Há também um projeto diurno, para as pessoas realizarem cursos e atividades, além do almoço. Para as mulheres com crianças o atendimento é 24 horas, pois eles compreendem que crianças não podem ficar na rua de forma alguma.
As mães são auxiliadas enquanto as crianças ficam em uma creche que é dentro do próprio centro. As crianças são levadas a teatros, cinemas, atividades fora do centro, assim como suas mães.
As mães também tem aulas sobre gênero, sobre o que é ser mulher e o que significa ser mulher em situação de rua com filhos.
‘É um trabalho que vem sendo bem sucedido, nós tratamos de acabar com todos os padrões impostos sobre o que deve ser uma mulher em relação aos seus filhos.’ — Ela diz.
Em uma penitenciária em que trabalhou há projetos de fomentação a cultura, os quais, segundo Viviana, podem se espalhar para outras penitenciárias, afinal é um projeto piloto do governo uruguaio.
Viviana trabalha desde os 19 anos com pessoas em situação de rua, porém, como jovem, poderia estar fazendo muitas outras atividades que não envolvessem situações tão duras e delicadas, no entanto se dedica a essa luta com afinco e paixão.
Ela é um exemplo de dedicação, nos mostrando maneiras com que todos nós podemos lutar por um mundo melhor. Uma Olímpica que exerce os valores com alegria.
