Olímpico do Cine

Cacá Diegues

Quando tinha somente 13 anos fiz essa entrevista com o renomado cineasta Cacá Diegues, e hoje o admiro cada vez mais pelo maravilhoso trabalho.

Ele nasceu em Alagoas, Maceió, em 19 de maio de 1940, porém aos 6 anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mais precisamente para Botafogo.

Na época não existia faculdade de cinema no Brasil, por isso teve que fazer direito na PUC, mas sua paixão sempre foi o cinema: fundou um cineclube, já que era presidente do Diretório Estudantil. Logo veio a Ditadura na década de 60.

Não é fácil ser artista no Brasil, muito menos na época da Ditadura, mesmo assim Cacá conseguiu ‘permanecer fiel a minhas ideias, mesmo que não as pudesse expor com a clareza que desejava.’

Filmes como Bye Bye Brasil e Quilombo foram feitos em plena Ditadura, mas mesmo assim apresentam não somente beleza, mas também criticidade.

O cinema-assim como qualquer arte- só traz o belo quando vence a barreira da visão para se perpetuar no âmago da questão, ou seja, a emoção. Acredito que o senhor Cacá Diegues conseguiu fazer isso muito bem.

Poucos são os artistas que conseguem lançar uma arte crítica em época de repressão e ainda por cima fazer sucesso, porém Cacá é uma exceção.

A luta dele pelos seus filmes também é uma luta pelo Brasil, afinal ele representou, nas suas obras, as maiores misérias e conflitos de nosso país, como também as maiores alegrias.

Ainda como estudante da PUC, na década de 50, em conjunto com Glauber Rocha, Leon Hirszman e outros, fundou o movimento intitulado Cinema Novo, que hoje em dia é considerado um outro gênero dentro do cinema, um gênero que enfatiza a igualdade social. Foi uma das rosas que nasceu no meio das pedras da Ditadura, pois surgiu nos anos 60 e 70.

Ele é um senhor ativo na sociedade brasileira, até hoje participa dos movimentos sociais, por isso mesmo questionei: de onde surgiu a ideia de fazer 5X Favela-Agora por nós mesmos?
De minha atividade ligada às ONGs de favelas cariocas, dando aulas, fazendo palestras, promovendo projeções e usando os alunos em meus filmes.’
Já com relação a boa repercussão dos seus filmes no exterior. relatou que 
é difícil explicar o sucesso, tanto quanto o fracasso. Não existem “fórmulas mágicas” para isso. Mas talvez eu possa dizer que grande parte da repercussão de meus filmes seja devida à fidelidade deles ao Brasil, à curiosidade deles por esse país misterioso e difícil de entender.’

O filme ‘5X Favela-Agora por nós mesmos’ vale a pena assistir para repensar a respeito da atualidade, do que podemos e do que devemos fazer, não por nós, mas pelas pessoas que vivem a beira da sociedade, os excluídos e ignorados.

Em 1969 teve que sair do Brasil com sua esposa, a cantora Nara Leão, indo viver na Itália e depois na França.

Da mesma maneira com que trabalhar em ONGs e participação política dão frutos tardios, além da paciência ser extremamente necessária, descobri que fazer cinema não é muito diferente, ele disse que é preciso paciência e obsessão, especialmente porque ‘o cinema, em qualquer lugar do mundo, é uma das mais difíceis profissões que existe. Tudo é lento, incerto e sofrido, mesmo para os grandes cineastas consagrados em Hollywood. Agora imagine para nós, brasileiros, vivendo numa economia de cinema tão frágil como a nossa.’

Ele sobreviveu a uma Ditadura produzindo obras de valor inestimável a cultura brasileira, voltou ao Brasil com mais ideias e criou muito mais. Sobreviveu a diversas crises econômicas e sempre saiu mais fortes destas.

Ele é um cineasta Olímpico, afinal não é fácil lutar pelo Brasil, e muito menos utilizando uma ferramenta como a arte, que tanto ajuda- como o povo oprimido- quanto fere- aos ditadores e elites.-

Laís Vitória Cunha de Aguiar.

O filme Quilombo, dirigido por Cacá Diegues, está disponível no Youtube.