O café que era dois

E mesmo após todo aquele turbilhão, Rafael se permitiu se assentar na poltrona dos resquícios de suas certezas para saborear um café. Enquanto esperava que o mesmo ficasse pronto, tentava escapar dos redemoinhos de pensamentos que o levavam a girar em suas reminiscências. Ao primeiro contato do líquido em sua língua, estranhou: Faltava muita coisa! E pôs-se a pensar no que poderia estar tão errado. Explorava avidamente a bebida em sua boca, empurrando-a com a língua de um lado para o outro, procurando desesperadamente em sua doçura sóbria, os afagos particulares de cada dia, e se entristecendo profundamente ao não os encontrar. Em sua quentura morna, buscava o calor suave do contato pele a pele, para o seu pesar, em vão. Bebia mais alguns goles, demorou-se mais a engolir. 

Não era possível!


Percebeu, para o seu desespero, que a energia da cafeína em nada se assemelhava com a antiga energia daquelas gostosas e aconchegantes transas matinais, que sustentavam o mais bruto dos homens naquelas eternas 24 horas de batalhas em campos de concreto, na guerra diária urbana. O ballet do vapor que subia, não possuía o charme e o romantismo da primeira valsa, as espirais que a colher causou ao misturar o açúcar nervosamente não se assemelhavam mais em nada com o enroscar das pernas durante o sono. Procurou no aroma que a caneca exalava o tão conhecido odor que anunciava tão singela presença, sem sucesso. Até a cor do café em nada mais lembrava aos fossos negros daquelas pupilas tão familiares, que podiam engolir o mundo e regurgitá-lo de forma ainda mais bela. Tantas ausências... A textura suave não era mais a daquela língua, capaz de tecer os mais belos e os mais terríveis comentários, quando não estava ocupada lhe gerando prazer. A aparente profundidade do líquido negro não era mais capaz de reproduzir a assombrosa complexidade daquela alma, as maravilhas e os dissabores da convivência, suas mentiras, suas verdades. Tantas ausências... Onde agora estavam todas estas sensações, tão espetacularmente corriqueiras, extraordinariamente comuns, mas ainda assim imprescindíveis, indispensáveis, e inexprimivelmente maravilhosas? O que havia acontecido? O que havia mudado tanta coisa em tão pouco tempo? E então, num sobressalto, Rafael voltou a si. Olhou em volta para a vastidão daquela sala vazia, e se lembrou da terrível verdade. Aquele café nunca iria lhe passar o calor, a energia, a doçura, o aconchego e o prazer como era costume. Aquele café, que eram dois, agora se tornou em um. O que se acomodava em duas xícaras, agora só precisava de uma. Beber aquele café jamais seria como estar com Carla. Ele não havia sido manuseado por aquelas finas mãos de fada, mas sim saído das entranhas metálicas de uma tristonha e ruidosa máquina não disputada na divisão de bens, que ainda não tinha aprendido a reproduzir o cantarolar ligeiramente acima do tom que tornava o ato de ferver, coar e adoçar tão gostoso de se assistir. À luz da solidão, tudo ficava mais claro. Aquele café não estava gostoso porque nunca mais seria o(s) café(s) de Carla.


A imagem que ilustra este conto faz parte de um belo estudo fotográfico sobre fumaça e iluminação, feito pelo excelente fotógrafo belga emergente Steven Carlier, a quem sou muito grato por tão gentilmente me ceder o uso. Você pode conferir este e outros trabalhos dele aqui. E esta é a sua página no facebook.

The image illustrating this tale is part of a beautiful photographic study of smoke and lighting, made ​​by great belgian emerging photographer Steven Carlier, to whom I am very grateful for so kindly let me use. You can check this and other of his works here. And this is his facebook page.

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