Sobre o Tempo

Em um outro desses dias ordinários em que a escrita me parecia mais uma obrigação indefinida do que propriamente um fluir de ideias, eu tinha uma ideia engasgada entre meus dedos. Ela estava lá, se debatendo, agonizando melodicamente, ansiosa para se libertar e habitar a opaca tela brilhante diante de mim. Mas algo a impedia de alcançar tal êxito. O texto começava, até anunciava uma chance de um bom desempenho, mas ao fazer o chamado da pobre ideia para desenvolvê-la... A mesma continuava cativa entre minhas falanges e nós.

"Puta que pariu!"

Pensei em conclamar os outros seres habitantes do Baixo Calão, mas nem assim consegui ajuda... Encarava a tela, enquanto o parágrafo cínico iniciado com a frase "Nunca subestime o peso do tempo." me encarava de volta, me desafiando, tentando me seduzir. Por quê? Por que não conseguia desenvolver aquela ideia que tanto me revirava os pensamentos por estas semanas?
Até que hoje, ao acordar, a resposta caiu com a sutileza de uma bigorna em minha cabeça.
O texto em questão, era uma tentativa de divagar de forma mais poética e intimista sobre o poder devastador sobre o tempo em nossas vidas. Um bom clichê, que todo apreciador de reclamações e lamúrias gostaria de ler (modésita a parte). Com direito a uma abertura repleta de palavras atormentadas para montar frases de efeito como "nunca", e"peso" -depois que entendi que o público e a crítica costuma gostar mais de palavras de tormento, "peso" e "nunca" passaram a ser minhas prediletas. E, repentinamente, ao mastigar a questão, percebi que o texto era baseado numa grande falácia.
Como todo bom exemplar de Homo sapiens sapiens, eu me preparava para mais uma lamúria "vinda do fundo de meus fundos", e jogar a culpa em cima do pobre Tempo por minhas angústias. Oh, canalhice! Logo ele, que dá sentido a nossa miserável existência?
Mas não há só falsidades naquele protótipo de drama. Em certo momento, ousei acusar uma íntima, escrachada, e completamente desprovida de pudor relação entre tempo e peso (mais uma vez esta palavra!). Ora, quando estamos observando, o que mais seria o Tempo do que um espelho de nossas almas? Uma fidelíssima representação de todas as circustâncias que circundam em nossos porões do contentamento, cômodos do incômodo e sótãos do prazer? Oh! Quão pesado é o arrastar do tempo para as almas que se permitem à comiseração e o pesar! E quão doloroso o atrito deste arrastar para quem o sente! Espíritos rancorosos, ou até mesmo melancólicos tendem à mesma estagnação na qual o Tempo se apresenta para eles... O martelar dos sinos, o tique dos segundos, transmutando de entes naturais à torturas infernais de quem só sabe desejar que os quatros ventos carreguem os dias até o seu fim...
Já, quando não estamos olhando, o Tempo manifesta sua natureza quântica, mudando o seu comportamento, e tomando nossa displicente falta de atenção como uma permissão para que corra nos leitos dos rios, numa maratona cósmica em direção ao deságue dos eventos ao passado e à aceleração do futuro... E daí vem aquela célebre sensação de não termos aproveitado as oportunidades que a existência deixa à porta...
E qual seria, leitor, a saída de opostos tão aterradores (se não o são a você, receio sermos pessoas extremamente diferentes)?
A vivência de almas alegres. Preenchidas, e paradoxalmente leves, que extraem na totalidade o precioso néctar dos dias, seja este doce ou amargo. Seres que entendem a aleatoriedade da vida, e se libertam da necessidade patológica de entender e controlar cada aspecto de sua existência, e tem paciência para esperar... Como eu invejo estes putos utópicos, meus amigos. Acho que para estes, o tempo corre em sua forma mais honesta, obedecendo as placas de sinalização randômicas desta vida, num ritmo sincronizado com um punhado de sei-lá-o-quê. Já tive fases assim, mas, instável como sou, estou retornando ao lento atrito dos atormentados por insistir demais em saber quem sou e reprimir respostas com as quais não sei ainda lidar...

E você, como anda o seu Tempo?

Imagem: http://www.nesponline.com/images/imagensreticencias/foto11.jpg

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