Ensaio das ondas
Uma vez no mar já é o suficiente para percebermos o quão longe de si estamos. Estar diante do nada é algo aterrorizante se não nos encontramos embaixo de todo azul. Obarco por si é barco, mas o marinheiro perdido não é marinheiro.
A terra é o que enxergamos, o marinheiro olha pro mar e acredita na terra. Acreditar na terra, carrega consigo um viés destrutivo sobre a mesma, se a gente acredita na terra isso se dá, pois ela não se prova ao fecharmos os olhos e não encontrá-la mais. Ou talvez, por não concebermos, de olhos fechados que a terra eu carrego comigo, e basta se manter de olhos fechados para que nos voltemos a se encontrar. Ou seja, acreditar é imaginar a ausência de nossa crença, que só se dá por existente em duas formas: na linguagem e em si. Porém, a gente não consegue à encontrá-la em si, pois nunca fomos separados, portanto a terra só nos aparece em forma de linguagem.
E qual a linguagem do marinheiro perdido? O grito, talvez. Com certeza o grito é a linguagem do devir. Eu grito, na esperança de que me ouça, pois acredito que o quão mais forte eu grito, maior essa força volta a mim, mas não volta.
A imagem da terra em forma de crença é o símbolo dessa desconexão. Eu não me acho mais, como vou achar a terra? Talvez, me achando. No entanto, como o nada pode se enxergar como estrutura imaginável? Resta ao sujeito à deriva abrir mão de seu passado, e vê-lo ondular junto a seus sonhos. O mar não para, e qualquer tentativa de o fazê-lo é perpetuar guerra com si mesmo.
O passado se esconde nessas ondulações pra esconder a fragilidade de sua concretude. E eu corro à ele pra esconder o que sou, uma pena, pois o corpo que insiste em ser peixe morre afogado. Não me é possível ser o que sou, na medida em que o passado é o que sou na forma de ter sido. E embora, passemos a vida correndo do que já fui, corremos sempre em direção ao que sou.
O mar não para.
A morte é a única responsável por decidir o que sou, e infelizmente o marinheiro morre cedo. Na sua tentativa desesperada de ser, ele entrega sua vida ao passado e a terra, e não a encontra mais.
O mar ganhou, e o ser não é mais livre.
