Mulher no volante

Não, não é mais um daqueles textos que vão focar naquele ditado cafona que, ainda por cima, rima. De forma alguma. Logo eu que sou totalmente a favor do empoderamento feminino, jamais me sujeitaria a escrever tal coisa.

Uma das minhas primeiras lembranças de “mulher no volante” são da minha mãe tentando dirigir. Certa vez ela pegou o fusca azul que nós tínhamos e fomos até a casa de uma conhecida. Chovia. O acesso era por uma ladeira íngrime. A dona da casa alertou que, quando chegasse em frente ao portão, não deveria parar, mas entrar direto com o carro. A chuva e o asfalto escorregadio tiravam qualquer possibilidade de arrancar com o carro ali, caso ela parasse. Ela fez justamente o que não deveria fazer. Parou o carro, nunca mais conseguiu arrancar e depois de socar o fusca de um lado e do outro, ladeira abaixo nos muros das casas da rua inteira, desistimos. As quatro orelinhas do fusca, como eu chamava quando criança, ficaram completamente amassadas. Minha mãe chegou em casa, deu calmamente a chave na mão do meu pai e disse: acabei com o carro. Mas nunca deixei ela desistir. De vez em quando a gente ainda dá nossas voltas por aí.

Confesso que como morador do Rio, meu sonho foi sempre habitar uma das ladeiras em Santa Teresa. Tenho amigos queridos que moram por lá e volta e meia me pego pensando em trocar o apartamento em Laranjeiras por um pedacinho de céu só pra mim, ali no bairro. O fato é que esse ano matriculei meu filho no CEAT, e idas e voltas tem sido um acontecimento.

Eu optei por levar e buscar. Então todo dia tenho me aventurado nas tão cobiçadas-por-mim ladeiras. Quem já foi ao CEAT sabe que o principal problema ali é estacionar. Passando a escola, dá para chegar numa rua mais larga com boas vagas, mas o acesso é por um beco de nome nobre, Estrada Dom Joaquim Mamede, esse aí da foto. Se trata de uma faixa de asfalto com pouco mais de dois metros de largura, onde passa um carro apenas. Nem calçada tem. Só que é por ali que passam centenas de alunos, mães, carrinhos, cachorros e carros, em mão dupla, claro, naquele horário entre meio-dia e uma hora, onde o ‘couro-come’, já que a criança não come, chega atrasada e é um salve-se quem puder.

Hoje fiquei agarrado com uma mãe que tentava chegar na escola enquanto eu tentava sair. Via de regra, um volta de marcha ré por todo o beco até chegar a um dos poucos pontos onde, desafiando as leis da física e fechando retrovisores, passam dois carros. Vi que a mãe se desesperou. Tentei facilitar, mas ela estava segura que faria todo o movimento de espreme-espreme do jeito que queria. Puxou o freio de mão, foi pra trás e pra frente umas três vezes. Puxou mais ainda o freio de mão, e nessa hora o barulho do acelerador parecia avisar que ela estava prestes a helicopterizar, me deixando de queixo-caído. Mas não, o carro deu um pinote pra frente, atropelou um cone, raspou no muro e abriu caminho pra que eu passasse. Baixamos os vidros, rindo daquilo tudo. Ela pediu desculpas e disse que era o primeiro dia dela no temido beco. Tinha acabado de aprender a dirigir. “Você está ótima. É assim mesmo. E para-choque é para arranhar. Daí o nome. Não desista”.

Pouco antes disso estava numa reunião de negócios e o rapaz do cartório estava atrasado. Uma das mulheres na reunião disse que não se atrasou porque sai muito mais cedo. Ela dirige desde os 18 anos (hoje deve ter entre 40 e 50), nunca bateu, foi aprovada na primeira prova e só levou duas multas até hoje, por, acreditem, baixa velocidade. Todos rimos. Se o limite de velocidade é de 80km/h, o limite mínimo é de 40. Menos que isso dá multa. Então, dia desses, se você passar por uma moça simpática num carrão, a menos de 40 no Rebouças, buzine e diga que mandei beijos. Figura, não?

Uma das meninas da minha turma de volei chegou comemorando a carteira de motorista. Enquanto os meninos que já sabem dirigir reprovaram pela terceira vez, ela foi lá e garantiu logo a carteira. Da praia do Leblon fomos todos comer uma pizza e eu disse que então ela iria dirigindo. Foi um Deus nos acuda? Foi. Não precisamos mentir. Ela nunca havia dirigido um carro automático, e me perguntou, prestes a entrar num cruzamento, onde ficava o freio. Gelei. Não que ela não soubesse, mas é aquela primeira vez do carro na rua, num carro de outra pessoa e tal, com as pernas tremendo mais que vara verde. Acontece. Todos precisamos passar por isso.

Uma outra conhecida postou no Facebook que frequenta uma clínica que está a ajudando a tirar o medo de dirigir. 70 a 80% das mulheres, segundo pesquisas de várias instituições, têm medo do volante. Tem até nome: Amaxofobia. Não pode! Pode ter medo, claro, mas não se o medo, em parte, surgiu por conta do que a mulher sabe que muitos homens pensam sobre ela na direção. O mundo é de vocês, mulheres. Essa amiga, aos 36 anos, feliz, postou foto do carro e disse que “estão se conhecendo melhor”. É um bom começo.

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