Jogos educacionais são uma droga
No final de Junho, Lars Doucet, desenvolvedor de vários jogos mas acho que o que eu mais gosto é o Defender’s Quest, fez uma thread no Twitter aonde ele respondia uma pergunta muito interessante.
Ele disse que podia escrever um livro sobre o assunto e foi mais ou menos isso que fez. Sua resposta abrangeu cerca de 46 tweets (e você pode conferir eles aqui) e deu um parecer muito interessante sobre a questão do ponto de vista de alguém que já trabalhou bastante dentro dessa área.
Entrei em contato perguntando se ele se importaria se eu traduzisse e adaptasse os tweets para português pois achei que seria interessante que o assunto chegasse a outras pessoas o que ele concordou.
No final das contas, o texto acabou sendo muito mais difícil do que uma simples tradução e talvez por isso contenha alguns problemas aqui e ali mas fiquei satisfeito com o resultado mas, claro, qualquer sugestões e coisas do tipo é só vir falar comigo no Twitter ou qualquer outro lugar! :)
Jogos educativos são uma droga por tantos, tantos motivos. Eu poderia escrever um livro sobre esse assunto, mas tentarei resumir os principais problemas aqui:
Fazer jogos é difícil e ensinar também. Fazer os dois sem comprometer um ao outro é muito difícil, mas se fosse só esse o problema veríamos muitos jogos educacionais bons e interessantes porque isso é superável. No entanto, isso não acontece por alguns motivos.
O problema central é que o ambiente que mais se interessa na produção desses jogos é absolutamente tóxico. O jogo nem se quer é o produto final, mas sim o trabalho acadêmico que você escrevera sobre ele. É bem provável que o jogo jamais será lançado.
Pior ainda: muito raramente as pessoas envolvidas nestes projetos são letradas em jogos mesmo das menores formas. Algumas nunca jogaram um videogame e não apenas isso, algumas mal jogaram jogos de tabuleiro e nem jogos de cartas. Elas são simplesmente analfabetas sobre todas as formas de ludologia. Então elas dizem: “Vamos fazer um videogame”.
Se elas contratarem um designer de jogos (este era eu), esse idiota ficam bem baixo na cadeia de decisões. O design fica no segundo plano desde o começo do projeto pelos motivos mais fúteis e politicamente estúpidos (no sentido de política mesquinha de escritório, não no sentido de Política com letra maiúscula, embora haja potencial para isso também).
Você finalmente tem um projeto de “jogo” que foi totalmente comprometido por um comitê e então você enfrenta o fato de que ninguém possui experiência em desenvolvimento de software. Se você estivesse na minha situação exatamente uma pessoa tinha conhecimento sobre design de jogo e programação, eu, totalmente desacreditado a cada passo e por todo mundo. “Você me contratou por causa da minha especialidade então por que você está ignorando tudo o que tenho a dizer? Seu projeto está falhando exatamente nas formas que eu previ, por que… ah. Estou aqui só para dar legitimidade ao seu projeto para que você possa conseguir o subsídio.”
Mesmo quando o “jogo” é um completo fracasso ninguém vai se importar porque as pessoas que o avaliam são tão analfabetas em jogos e tecnologia quanto as pessoas que conceberam o projeto. No final das contas você vai produzir algum tipo de papel que faz algum estudo que mostra que alguns números aumentaram com alguma manipulação de dados e pronto.
Além de tudo disso, muitos destes são projetos de concessão/pesquisa e além de herdarem todos os problemas que esse tipo de projeto tem você também tem que lidar com todos os problemas de projetos acadêmicos.
Houveram algumas experiências que abriram meus olhos quando essas “experiências interativas” supostamente deveriam ajudar, digamos, crianças da periferia e você não pode fazer uma análise para saber se a nossa intervenção de araque significou alguma coisa porque metade das crianças trocou de escolas antes do fim do semestre porque elas são, hum, empobrecidas e tem problemas em casa e tudo é terrível e quem se importa com nosso jogo educacional falso e estúpido?
Eu preciso voltar atrás. Muitas crianças achavam empolgante tocar em um projeto de videogame, mesmo tão quebrado e idiota como o nosso. Nós as ensinamos a fazer morcegos voarem e a dizer “oi” no Scratch (linguagem de programação em blocos geralmente usada para ensinar programação) e isso foi realmente legal mas, tipo, o ponto do jogo era combater a obesidade infantil. Eu não acho que um videogame é a principal prioridade de pesquisa lá.
Além disso, devo dizer que para a minha vergonha que este projeto tenha sido financiado por dinheiro de incentivo do governo durante a recessão mas eu não me sinto super culpado porque o Pesquisador Chefe não me pagou direito.
A história que estou contando nessa thread não é apenas um projeto. São todos os projetos ruins misturados junto. Todos parecem deprimentemente semelhantes. Eu fiz só dois jogos educacionais que não foram uma droga de muitos projetos, a maioria dos quais nunca terminou por ficarem presos no “inferno de desenvolvimento”(development hell). Esses jogos são Super Energy Apocalypse e CellCraft
O Super Energy Apocalypse foi financiado pelo Houston Advanced Research Center (Centro de Pesquisa Avançada de Houston), ao qual eu serei eternamente grato, e tornou-se minha tese de mestrado. Eu tinha financiamento, apoio e confiança. Crucialmente — EU era o pesquisador chefe. Com, CellCraft eu não era o pesquisador chefe, Anthony Pecorella era, na época, ele já trabalhava para o Kongregate como seu trabalho principal e eles tem sorte de tê-lo pois ele é um brilhante designer de jogos e até hoje continua sendo meu parceiro comercial no Level Up Labs (estúdio dele).
Mesmo com tantos problemas há algumas luzes brilhantes no design do jogo retórico. Algumas pessoas estão fazendo um ótimo trabalho. Vou sempre respeitar o trabalho de Ian Bogost, por exemplo, embora eu não concorde com ele em algumas coisas e tenho certeza de que ele provavelmente pensa que sou um idiota, ele foi uma grande influência para mim.
No final das contas, se você quiser fazer jogos educacionais, simplesmente evite o meio acadêmico/educacional inteiramente e faça por conta própria. Sério. Se distancie bem, procure especialistas em conteúdo como consultores no máximo, mas o projeto deve ser controlado por desenvolvedores de jogos. Agora, você não deve cometer o erro de pensar porque você entende de desenvolvimentos de jogos que você também conhece entende de pedagogia. Seja humilde.
Além disso, seja realmente muito honesto sobre se você precisa fazer um maldito de videogame sobre qualquer assunto que este seja. Naquela época eu estava ouvindo muita gente falar sobre o poder mágico dos videogames e apesar de ser tão legal quanto eles, eles podem ser realmente idiotas. Tipo, eles não são apenas esta ferramenta educacional mágica com potencial infinito. Eles só são adequados para algumas situações específicas e limitadas. No entanto, nos casos
em que eles são adequados, eles se saem extremamente bem como para entender sistemas complexos (cidades, células, economias de energia), por exemplo.
Tenho algumas outras anedotas ótimas (horríveis), mas elas são um pouco pessoais e servem para pouca coisa, exceto desenterrar rancores antigos e, honestamente, eu deveria simplesmente deixar esses casos pra lá. Mas de qualquer maneira, onde estão todos os excelentes jogos educacionais? Não sendo feito em universidades, na maioria das vezes.
Duvidas? Sugestões? Xingamentos? Só entrar em contato comigo.
