O Silencioso Gênio Corretor De Isaac Newton

Em 08 maio de 1686, no final do prefácio da primeira edição do seu livro Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica (Princípios Matemáticos de Filosofia Natural) — o Principia —, Isaac Newton (1643–1727) pede com ênfase, que o que ele escreveu seja lido com complacência, condescendência, bondade, clemência, misericórdia, flexibilidade ou compreensão, e que não censurem o conjunto da obra, pelos seus erros (que certamente encontrariam — segundo ele); mas sim o critiquem considerando o desafio da obra e pelo apreço ao acerto, ao aprimoramento, para que, corrigindo os seus erros, vislumbrem uma contribuição ainda maior para todos.
“Peço enfaticamente que o que aqui realizei seja lido com indulgência e que os meus trabalhos em um assunto tão difícil sejam examinados não tanto com espírito de censura, mas com o de reparar seus defeitos”.
Isaac Newton
Deixe-me introduzir logo o meu personagem principal aqui. O jovem matemático e astrônomo, Roger Cotes (1682–1716) nasceu em Burbage, Leicestershire, Na Inglaterra. Na adolescência demonstrou um talento matemático reconhecido quando freqüentou a Escola de Leicester. Depois, estudou na Escola St. Paul, em Londres, até entrar na Universidade de Trinity (Trinity College), Cambridge, em 1699. Ele se formou em 1702 e obteve mestrado com louvor em 1706. Ali ele conheceu Isaac Newton.
Cotes começou sua carreira educacional como estudioso da Astronomia. Tornou-se membro da Universidade de Trinity em 1707 e, aos 26 anos, tornou-se o primeiro professor de Astronomia e Filosofia Experimental. Projetou um telescópio heliostático com um espelho girando por um relógio. Ele recalculou as tabelas solares e planetárias de John Flamsteed (1646–1719) e Giovanni Domenico Cassini (1625–1712), e pretendia criar tabelas.

Antes de tudo, é muito bom ler e aprender a Física, diretamente nos seus tratados iniciais; através de seus criadores e não por livros que se atentam na mera transcrição matemática e recortes dos postulados e da base filosófica que contém as deduções lógicas — que é algo muito maior e mais qualitativo que as fórmulas matemáticas — de toda uma Teoria e/ou Lei.
Mais interessante ainda, foi que na segunda edição da obra, em 1713, com diversas correções e alguns acréscimos, o jovem Roger Cotes — membro da Trinity College, professor catedrático de Astronomia e Filosofia Experimental em Cambridge —, fez um prefácio ao livro e antes de preparar a cópia da segunda edição, teve todo o cuidado em corrigir erros e imperfeições do Newton.
Em 02 de outubro de 1709, já em processo para a realização da 2ª Edição do “Principia”, o já senhor e catedrático Newton escreveu ao professor novato Cotes:
“Não desejaria que você se desse ao trabalho de examinar todas as demonstrações nos “Principia”. É impossível imprimir o livro sem alguns erros, e se imprimi-lo pela cópia que lhe enviei, corrigindo apenas os erros que aparecem na leitura das páginas à medida que estas são impressas, você terá mais trabalho do que lhe cabe dar”.
Isaac Newton
Claramente preocupado para que o Sr. Roger Cotes não tenha muito trabalho conferindo minuciosamente a obra e seu conteúdo, além do que já tem de revisar ao imprimir o livro. Cerca de quatro anos depois, em 1713, após a 2ª edição haver saído da impressão, Newton enviou a Cotes uma lista de erratas, na intenção que fosse impressa uma tabela de erratas anexa.
A este pedido ou intenção de Newton, Roger Cotes respondeu em 22 de dezembro de 1713:
“Observo que você (Newton) anotou cerca de 20 erratas além daquelas na minha tabela… acredito que não se surpreenderá se lhe disser que posso lhe enviar mais 20 tão importantes quanto aquelas, que casualmente observei e que parecem ter-lhe escapado; e longe de mim pensar que essas 40 são tudo que possa ser descoberto, muito embora pense que a Edição esteja muito correta. Estou certo de que o é bem mais (correta) do que a primeira, que foi impressa com cuidado suficiente; pois além de suas próprias correções e daquelas que lhe comuniquei durante a impressão do livro, arrisco dizer que fiz centenas, que nunca lhe comuniquei”.
Roger Cotes (grifos meus)
Esculacho do Roger Cotes, não? Arrisca dizer que fez “centenas” de correções, que sequer comunicou a nada menos que o Newton… Escrever uma obra com esta magnitude no Século XVII, é algo fabuloso de um gênio; mas corrigir a obra com esta propriedade, personalidade e segurança é algo memorável.

Roger Cotes morreu precocemente de febre violenta em Cambridge, em 05 de junho de 1716, aos tenros 33 anos de idade, interrompendo a sua brilhante carreira que, mesmo breve, legou contribuições significativas aos métodos computacionais modernos, à Astronomia e à Matemática. Isaac Newton lamentou seus morte: “Se ele tivesse vivido, saberíamos alguma coisa”.
Hoje, Isaac Newton é o famoso físico, ocultista e estudioso da Bíblia (isso desconhecido por muitos) e que descreveu e explicou vários princípios da Cinemática, Estática e Dinâmica, além de dar um entendimento significativo da astronomia, da gravidade e da matemática (fundamentalmente no Cálculo Diferencial junto com Gottfried W. Leibniz (1646–1716) — ou mesmo depois, ou antes dele). Mas Roger Cotes, passa despercebido pela História. E mesmo famoso, Newton demonstrava um respeito e carinho muito grande pelo, com idade para ser seu filho, quiçá neto, Cotes.
Outra coisa importante é ver a incrível capacidade intelectual associada à humildade, de homens como Newton e Cotes, em seus tempos; que mesmo diante de suas genialidades, sabem que são passíveis de erro; e que na humildade, honestidade e na competência, estas imperfeições são mais facilmente identificáveis e corrigíveis, só tendo todos a ganhar com esta postura. Um gênio quando reconhece um outro gênio, mais o respeita; o imbecil quanto mais ignora um gênio, mais o odeia com todas as suas forças.
Enquanto hoje em dia, cada vez mais temos menos de tudo: tanto na quantidade de gênios fabulosos, quanto na qualidade intelectual e, principalmente moral, dos que aparecem. Ninguém pode ter admiração ou apego ao erro, devemos sempre descobri-lo, reconhecê-lo e corrigi-lo; porém não podemos nos acovardar de realizarmos qualquer obra que potencialmente tende a deixar um bom legado, por medo de errar.
Newton e outros grandes pensadores não tiveram este medo nem a soberba dos tolos. E é por isso, que eu e quem pensa assim, que reconhece os gênios, que é grato aos seus ensinamentos e aberturas, e que tem a humildade até quando geralmente discorda dele, aprendemos quase tudo com estas raridades em nossa História, até nos dias de hoje, por todas as nossas vidas.
