As empreendedoras e a luta por representatividade

Há 110 anos, mulheres norte-americanas se reuniram em prol da igualdade política e econômica no país. Nos Estados Unidos e Europa, nesse longínquo Dia da Mulher de 1908, a luta era — entre outras demandas — contra jornadas de trabalho de 15 horas diárias e discriminação de gênero. Mais de cem anos depois é estranho pensar que muitas das nossas lutas permanecem as mesmas. Embora seja impossível não pensar no quanto avançamos e no tanto de conquistas podemos celebrar, uma questão se mantém presente: a luta por representatividade.

Vale lembrar que representatividade é tão relevante na construção do empoderamento feminino quanto oferecer oportunidades iguais para as garotas. As mulheres de todo o mundo têm reivindicado o direito a contar a história real da contribuição feminina na Matemática, Ciência, Física Nuclear, Engenharia Aeroespacial, Programação,Finanças e tantos outros territórios supostamente masculinos. É importante termos modelos que inspirem as novas gerações. A cientista Rosalind Franklin, por exemplo, teve um papel preponderante na descoberta do DNA. Ada Lovelace, matemática e programadora britânica, criou o primeiro algoritmo e produziu estudos que influenciaram os trabalhos de Alan Turing na construção dos primeiros computadores. Na Segunda Guerra Mundial, 80% de todos os criptoanalistas eram mulheres.

Não sabia? E tem mais… Artemisia Gentileschi, pintora do Barroco italiano no século XVII — inspiração para nomear a organização pioneira no Brasil no fomento de negócios de impacto social — foi a primeira mulher a ser aceita pela Academia de Belas Artes de Florença (Itália), a mesma na qual Michelangelo estudou. O talento, ativismo, vanguardismo e coragem para enfrentar o status quo inspiraram a cofundadora Kelly Michel, que conheceu o trabalho da artista ao cursar Artes na Universidade.

A nossa Artemisia surgiu da inquietação e da profunda crença de que a força e a escala de negócios poderiam ser eficientes para solucionar problemas sociais estruturantes e complexos; da visão de que o mercado pode endereçar questões sociais. E, nesse contexto, as empreendedoras têm um papel preponderante. As mulheres possuem uma excelente visão de longo prazo, têm capacidade de resolução de conflitos, talento para comandar equipes multiprofissionais e empatia com problemas e desafios alheios. Estas características são extremamente relevantes para empreendedoras que investem em negócios de impacto social — empresas que oferecem, de forma intencional, soluções escaláveis para problemas sociais da população de baixa renda.

A Artemisia está conectada com a causa da representatividade de gênero e a geração de oportunidades para que as empreendedoras possam se desenvolver em um ambiente mais igualitário. Em todos os nossos processos — da contratação de profissionais à seleção de negócios para programas de aceleração — buscamos contemplar a questão de gênero. Além disso, queremos contar, cada vez mais, a história de mulheres brasileiras que estão desafiando os padrões e empreendendo em prol da melhoria da sociedade. Elas têm trajetórias inspiradoras que merecem ser compartilhadas para influenciar mais e mais meninas.

Convido todos a conhecerem, na fanpage da Artemisia, histórias inspiradoras de brasileiras que criaram negócios de impacto social em setores como Tecnologia e Finanças, por exemplo. São empreendedoras que estão liderando negócios que vão de cartão de crédito para a população do bairro de Paraisópolis (Julia Drezza, MaisFácil); estações meteorológicas que gera alertas antecipados em tempo real para população sobre eventos climáticos extremos como enchentes e deslizamentos (Mariana Marcílio, Pluvi.On); marketplace para compra e venda de produtos (Nanda Carvalho, Youtrendz); à plataforma de comércio justo e lucrativo para pequenos produtores rurais (Daiana Censi Lerípio, Sumá).

Indico, também, a leitura de Wonder Women — de Sam Gaggs — que traz a história de 25 mulheres inovadoras, inventoras e pioneiras que fizeram a diferença. Na obra há um guia muito útil de organizações que apoiam mulheres de todas idades interessadas em expandir os próprios horizontes em ciência e tecnologia.

Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.