Empreendedorismo cívico: propiciando maior participação e engajamento de cidadãos nas decisões públicas

As tecnologias que ampliam a participação cidadã para auxiliar processos decisórios e políticas públicas mais efetivas deram início ao surgimento de negócios de impacto social focados no engajamento cívico.

Hoje, muitas das civic techs têm atuado com soluções inovadoras que aproximam e engajam o cidadão à esfera pública.

Alinhadas a um conceito relativamente novo no Brasil, essas startups já apresentam os primeiros resultados e constituem negócios que estão ganhando reconhecimento global. A Artemisia tem acompanhado de perto a evolução dos empreendedoras e empreendedores cívicos mais promissores do país; a organização é responsável pela aceleração da Muove, Colab e Pluvi.On, exemplos de negócios de impacto que valem conhecer mais a fundo.

Para falar sobre a Muove, tenho que começar esse diálogo pela escolha do curioso nome. O que inspirou os empreendedores Ricardo Ramos e Rodolfo Fiori foi a frase “Eppur si muove!”, atribuída a Galileu Galilei. Segundo relatos, diante do tribunal da inquisição, Galileu foi obrigado a abdicar do heliocentrismo; ao final do inquérito, sussurrou “ainda se move” — uma clara referência à Terra. Dita entre lábios, a frase demonstra a persistência em defender a descoberta. Assim como Galileu persistia nas evidências, mesmo diante de um entendimento diferente à época, a Muove acredita no potencial de qualidade e eficiência do setor público brasileiro. As soluções levam em conta os aspectos econômicos, sociais e institucionais que podem dar suporte ou limitar o desenvolvimento de municípios.

Na prática, identifica ineficiências nas finanças municipais e sugere ações de melhoria ao gestor público via plataforma fechada. A ferramenta possui ainda uma área aberta que funciona como um mecanismo de transparência, permitindo maior controle da sociedade civil. Além disso, qualifica a tomada de decisão em municípios brasileiros nas temáticas que vão do desenvolvimento econômico, finanças públicas, saúde e educação. As soluções auxiliam atores locais como gestores públicos, sociedade, empresas, investidores e organizações sociais a fazerem melhores escolhas em suas intervenções. Como a maioria dos municípios brasileiros sofre com a ineficiência dos serviços públicos, o impacto social está na melhoria da qualidade de vida das pessoas via soluções escaláveis, sustentáveis e com custo acessível. Para os empreendedores, a meta é impactar — com produtos e serviços — a qualidade de vida de 50 milhões de brasileiros nos próximos quatro anos.

Um outro exemplo de negócio dentro desse contexto é uma rede social dedicada a questões urbanas e manifestações de cidadania. O Colab é uma ferramenta administrativa conectada com governo. A solução aproxima o brasileiro do poder público em uma plataforma simples, transparente e aberta. Nela, o cidadão passa a ser ouvido por mais de 100 prefeituras do país; dessa forma, o poder público busca ouvir os mais interessados para uma tomada de decisão coletiva. Com a ferramenta, o governo adota uma gestão mais eficiente, diminuindo custos e com maior transparência. Do lado cidadão, a solução oferece a oportunidade de participação às pessoas de todos os municípios com mais de 13 anos.

A plataforma já conta com 200 mil usuários e quase 2 mil gestores públicos e a meta é triplicar de tamanho em 2018. Fundado em 2013 por Paulo Pandolfi e Gustavo Maia, a solução foi eleita o Melhor App Urbano do Mundo pela New Cities Foundation e um dos cinco Melhores Apps de Governo e Participação do Mundo pela Organização das Nações Unidas (ONU). O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) apontou o negócio como a inovação de maior impacto social de 2015.

A Pluvi.On, por sua vez, utiliza uma rede de estações meteorológicas proprietárias para gerar alertas antecipados e em tempo real para avisar a população — sobretudo a de menor renda — sobre riscos de enchentes e deslizamentos. Para empresas, cria redes de sensores que ajudam a aumentar a previsibilidade e resistência a fatores climáticos que afetam suas operações. Para a população, querem usar a tecnologia para dar mais autonomia às pessoas a partir da disponibilização de informações climáticas confiáveis. Com base em uma estação meteorológica de baixo custo e de código aberto — com tecnologia 100% nacional –, o negócio foi criado por Diogo Tolezano, Pedro Godoy, Mariana Marcilio, Murilo Souza e Hugo Santos. Para o futuro, os empreendedores esperam ampliar o serviço para salvar vidas, tornando o Brasil mais resiliente a desastres naturais.

Em 2018, a Pluvi.On foi convidada pela ONU para integrar o programa United Smart Cities. Esse programa funcionará como uma plataforma que une empresas e governos com foco em apoiar projetos de cidades inteligentes. Nesse contexto, a empresa foi selecionada pela abordagem de utilização de tecnologia para criar cidades mais resilientes, mais adaptáveis. O foco — monitoramento climático, especialmente para emitir alertas para a população em desastres naturais como enchentes e deslizamentos — foi o que chamou atenção da Organização das Nações Unidas.

Com convicção, defendo que o Brasil tem todas as credenciais para se tornar um polo mundial de negócios inovadores capazes de resolver os problemas sociais e ambientais — e as civic techs se inserem perfeitamente nesse contexto de inovação social com participação dos brasileiros e brasileiras, de todas as classes sociais, na tomada de decisão e na melhoria de nossa sociedade.

  • Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.
  • Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.