urma de empreendedores acelerados pela Anip. Foto: Marco Torelli

Negócios como Gatronomia Periférica e Boutique de Krioula são exemplos de iniciativas impulsionadas pela empatia que vêm mudando o seu entorno na periferia de São Paulo.

Artemisia
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Apr 24 · 4 min read

O historiador da cultura e filósofo Roman Krznaric, apontado pelo “The Observer” como um dos mais importantes pensadores britânicos dedicados ao estudo dos estilos de vida, defende que devemos esquecer a ideia darwiniana tradicional de que somos basicamente motivados por interesse pessoal e por uma pulsão agressiva de autopreservação. No livro “O Poder da Empatia”, ele afirma que a imagem da natureza humana que está surgindo é a de que somos, exatamente na mesma medida, Homo empathicus — um ser humano com a capacidade natural para unir as mentes com outras.

O que Krznaric sustenta é que, ao contrário do que pensamos, não somos eminentemente autocentrados, visto que o nosso cérebro é equipado para a conexão social. Analisando os argumentos do autor e pensando na empatia como um dos grandes talentos ocultos que a humanidade tem, acredito na tese dele — e vou além. Nos últimos 15 anos estou vendo esse Homo empathicus se tornar empreendedores e empreendedoras — pessoas por trás de negócios — que usam a criatividade para derrubar preconceitos e gerar mudança social.

Estou falando sobre o empreendedorismo de impacto social e periférico que tem mostrado o poder da empatia para gerar conexões transformadoras e pragmáticas. Hoje, muito se discute sobre empreendedorismo, inovação social, empatia e teorias relacionadas à temática. Mas, como diz Marcelo Rocha — conhecido como DJ Bola — na quebrada, a prática desses conceitos modernos se estabelece desde sempre; a teoria chega depois.

O fato é que há uma força transformadora que vêm de pessoas que vivem as dores reais produzidas pela falta de oportunidade e acesso: a inovação, na periferia, nasce de uma experiência concreta que, ao transformar a realidade de escassez em abundância criativa e de resistência, fortalece o empreendedorismo social baseado na empatia; na arte de se colocar no lugar do outro para mudar a realidade.

Embora as ausências de políticas públicas estejam presentes no cotidiano da quebrada, a força-motriz dos negócios de impacto social das periferias nascem da abundância; do enorme potencial do empreendedor que precisa ser ouvido e respeitado. Adélia Rodrigues, empreendedora da Gastronomia Periférica, aponta que a escassez faz a periferia ser criativa. As boas ideias são abundantes, mas faltam investimentos e autoestima — que fazem o empreendedor estar sempre começando do zero. Diante disso, o suporte é essencial para desenvolver o planejamento de longo prazo. E o apoio deve vir de toda a sociedade.

A empresa, fundada por Adélia e pelo chef Edson Leitte, promove a transformação por meio de uma escola de educação gastronômica para jovens da periferia, apoiando-os para vencer os desafios de empregabilidade. Ou seja, iniciativa impulsionada pela empatia genuína que deveria mobilizar mais atores da sociedade. Leitte chama a atenção, inclusive, para o fato de que todas as cozinhas dos grandes restaurantes no Brasil têm trabalhadores que moram nas quebradas.

A empatia também está no negócio de Michelle Fernandes, empreendedora da Boutique de Krioula — empresa surgida da ideia de resgatar a autoestima da mulher negra brasileira, que raramente se vê representada pelas marcas. Michelle aponta que o empoderamento vem de cada dia; do acreditar no que está se fazendo; do se sentir capaz e potente.

A empatia é um ideal que tem poder tanto de transformar a própria vida quanto de promover profundas mudanças sociais

Aliás, essa força empática também norteia o fazer de Fabiana Ivo, uma das lideranças da produtora A Banca e da Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia (Anip). Ela defende que avançamos mais à medida que nos abrimos, desapegamos e nos aproximamos por meio do diálogo. Esse é o sonho e a missão da Anip: juntar pessoas e criar pontes.

Uma mensagem muito forte que está sendo disseminada pela Anip é que o engajamento da sociedade tem que ser ativo. Temos que nos perguntar o que cada um de nós — como ser social empático, um Homo empathicus — pode fazer, hoje, por um negócio de impacto social da periferia. Posso contratar, conectar e apoiar esses empreendedores? Sou capaz de desenvolver uma escuta ativa e empática que desemboca em um projeto conjunto?

Tenho convicção de que a resposta afirmativa para essas questões pode nos levar a um outro patamar social. A empatia é um ideal que tem poder tanto de transformar a própria vida quanto de promover profundas mudanças sociais. Pode gerar uma revolução das relações humanas.

* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor — Estadão PME.

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Trabalhamos para identificar e potencializar negócios de impacto social. www.artemisia.org.br/

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