Só para deixar claro

Eu tenho estado bem feliz, sabe?

Apesar dessa minha resistência em sorrir e da minha habilidade de sabotar toda e qualquer possibilidade das coisas darem certo porque, simplesmente, não acredito na possibilidade real de coisas tão boas coma a gente darem certo.

Você, com esse jeito doce e com essa fé toda que não cabe nos limites de você e transborda em quem tem a sorte de estar em volta, tem conseguido me vencer.

Como não poderia deixar de ser, eu mostrei para você meu pior lado, a parte mais negra, escrota e maluca que eu consegui, na tentativa de fazer você correr de medo, de nojo ou de raiva.

Não deu certo.

Você riu de cada uma das minha caretas. Perdoou meus crimes. Desconsiderou cada bizarrice que eu fiz ou disse.

Você aceitou me amar sem nem me conhecer direito. Aceitou me amar sem nem saber se eu te amava. Aceitou me amar sem nem saber direito se era mesmo amor essa coisa toda que existia entre a agente.

E eu me sinto envolto numa cafonallha sem fim. Personagem de uma daquelas histórias que eu sempre condenei. Uma daquelas histórias das quais eu sempre ri.

E eu nem ligo. Porque estar ao seu lado é a coisa mais fácil que existe em todo o universo. É natural pensar em nós dois juntos, como se você estivesse por aqui mesmo antes de aqui existir.

Claro que dá medo. Porque, afinal, existem as histórias do passado. Existem as derrotas e as cicatrizes e ninguém quer ser jogado no fundo do poço outra vez.

Ainda assim dá vontade, dá saudade, dá sede e fome que só você sacia.

Porque eu luto diariamente contra a verdade inexorável de que, daqui uns dez anos, você vai conhecer um cara bacana, cheio de vida e vazio de neuroses. Alguém que vai te lembrar vagamente o sujeito simpático e interessante que eu fui antes da rotina, das contas e da falta de tempo esmagaram tudo e me transformarem em uma daquelas donas-de-casa de subúrbio. E você vai se apaixonar por ele como se apaixonou por mim, porque ele representa todas as promessas que eu nunca fui capaz de cumprir.

Então dá vontade de deixar tudo para depois. Para daqui dez anos. Para quando eu for o cara bacana cheio de vida e vazio (?) de neuroses que vai te lembrar vagamente um amor do passado. Aí a gente pode ser feliz, porque eu vou ser melhor e mais esperto, bem mais bem resolvido e bem menos maluco. O que talvez me impeça de cuspir na sua cara quando minha vontade é te encher de beijos, só para você não saber o quanto seus beijos fazem falta e começar a usar isso contra mim. E ainda que você jamais use, porque, afinal, você é um cara bacana e cheio de boas intenções, a possibilidade de usar será o suficiente para que eu me arme e me proteja. E negue o beijo. E repita a cusparada bem no meio da sua cara que só quer sorrir por me ter ao seu lado.

Aí eu me lembro de como é acordar com você sorrindo ao meu lado. Me lembro da paz que dá quando você me abraça. Me lembro da felicidade que é ter você na minha vida ainda que só um pouco, de vez em quando, aos golinhos. E todo o nosso futuro sombrio desaparece. Somem as contas, a rotina e a falta de tempo que esmagam tudo. Somem todos os caras bacanas e sem neuroses que vão sentir inveja da gente e querer ter o que a gente conquistou. Some o cuspe no meio da cara que esperava o beijo.

Fica só a vontade besta de ter você aqui e de estar aí.

Morro de saudades. Você nem imagina o quanto.