Intolerância (Ou meu hábito de desconfiar das religiões)

Em mais uma conversa com Harry sobre um video feito por Testemunhas de Jeová, ele me acusa de ser uma pessoa intolerante em relação a religiões e religiosos “atirando antes de perguntar”. Ele não está errado.

Esse post não é uma tentativa de me desculpar por ser como eu sou. Meu pensamento é errado e eu sei disso. Esse post conta como eu me tornei esse monstro intolerante que generaliza a quem tem um deus.

Assim como a maioria das crianças de classe média-alta pernambucanas, eu pertencia a uma família católica. Digo pertencia porque a religião dos meus parentes mudaram por N motivos ao longo dos anos. Apesar desse fato, meu primeiro contato real com deus foi quando uma prima minha apareceu em casa quando eu tinha uns 6, 7 anos. Eu não lembro mais como era a conversa, mas lembro que ela me descreveu um ser que era invisível, que estava em todos os lugares e que todo mundo devia obedecê-lo.

Eu não lembro se a essa altura da vida, eu já conhecia a história da “Roupa nova do rei”, mas ela definitivamente me veio à mente na ocasião. E eu respondi a ela: Um cara que eu não consigo ver e você diz que manda em todo mundo? Eu preciso obedecer ele por que?

Entretanto, se eu disser que eu já era ateu naquele ponto, eu estaria mentindo. Eu tentei muito, ser feliz seguindo uma religião. Aos 10 anos, Mainha me levava ao Vale do Amanhecer e ao mesmo tempo me fazia frequentar um curso preparatório para a primeira comunhão. Eu não odiava deus de fato. Mas já entendia como a instituição tentava dobrar as pessoas para fazer com que elas se conformassem a uma série de regras. Eu ainda não sabia o por que disso, mas o simples fato de que eu descobria que não era livre para escolher (ou não) já era algo que me tirava do sério.

Ainda assim, eu fiz a primeira comunhão, passei anos no Vale e aprendi a gostar dos rituais. Mas em nenhuma das situações, eu fiz por amor a deus. A primeira comunhão, eu sabia que eventualmente iria passar e eu seria deixado em paz de novo. No vale, eu poderia ter o que eu quisesse, se Mainha achasse necessário me dar para manter um certo nível de controle sobre mim. E em uma temporada em que eu decidi voltar à igreja, eu não o fiz por causa de deus. Eu fiz porque eu queria a aprovação do meu pai. Minha rotina e meu tempo estavam dobrados, mas não o meu espírito. Ainda assim, eu ainda não me considerava ateu. E assim eu vivi dos 10 aos 17 anos.

Eliseu certa vez me descreveu o que era um ateu-toddyinho. Gente que alega ser ateu da boca para fora, se dizem ateus por causa de algum trauma que os fez ficar revoltado exatamente contra esse conceito cristão de Deus que tentam tanto negar, agarrando-se aos fatos e às evidências. Confesso que eu me peguei pensando várias vezes se eu não me encaixo nesse grupo. Eu não lembro exatamente quando eu me convenci de que era ateu, ou dos fatores que me levaram a tal. Mas posso dizer que as aulas de história ajudaram bastante. Não vou mentir, conhecer a baixaria do clero durante a idade média não é um bom argumento de venda pra religião. Menos ainda, é lidar com o fato de que a humanidade progrediu no momento em que parou de rezar para começar a trabalhar. Mas mesmo isso é vago demais. Houveram progressos na idade média e o antopocentrismo não matou deus no coração do cidadão comum. O golpe de misericórdia em deus no meu coração veio de outro lugar.

Antes de começar a falar sobre o que me fez virar ateu, é preciso deixar algo bem claro: Eu SOU uma pessoa egoísta. E além disso, alguém que nunca soube se defender de nada. Meus primeiros 17 anos de vida foram uma sucessão de momentos onde eu era espancado, enganado, manipulado ou simplesmente me negaram coisas melhores. Provavelmente era culpa minha. Acreditei demais quando me disseram que eu era especial e descobri que eu era um zero à esquerda às duras penas. Mas ao longo desse tempo, uma lição ficou marcada a ferro: Sempre vai haver alguém pra tirar algo, concreto ou abstrato, de você, quando você menos esperar, e sempre será quem você menos espera. Eu não conhecia o Paradoxo de Epícuro, mas já pensava nele, enquanto esperava por um milagre que me tornasse forte ou corajoso pra lidar com os bullies do colégio, ou com meus primos.

O Paradoxo de Epícuro, direto da Wikipedia

  • Enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente.
  • Enquanto onipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é onisciente.
  • Enquanto onisciente e onibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é omnipotente.

O clichê do deus incompetente e/ou mau que não acaba com a pobreza na África também funcionou comigo, não vou mentir. Mas eu me concentrei mais em como havia uma guerra santa dentro de casa, e como ela estava destruindo minha família. Me concentrei na ideia de que o tal “livre-arbítrio” para seguir as leis de deus ou não estava custando muito mais do que meu tempo e paz de espírito. Me concentrei mais no fato de que eu gostava do islamismo porque um livro de história me disse que os preceitos básicos deles ensinavam as pessoas a serem boas e solidárias (e consequentemente, no fato de que quem seguia essas regras, só o fazia por medo de uma punição eterna). E principalmente, me concentrei no fato de que eu nunca precisei de deus pra fazer coisa alguma. Eu nunca o senti, em primeiro lugar. Quanto mais rezar para que um desejo egoísta fosse realizado. E então, eu contei a Mainha que não acreditava em deus.

Mas enfim, o post não é sobre como eu me tornei ateu, mas sim como eu me tornei intolerante à religiões. Eu podia muito bem permanecer na minha e deixar os crentes em paz. E na maioria das vezes, eu até faço isso.

Durante minha caminhada rumo ao ateísmo, eu conheci pessoas com diferentes abordagens em relação às religiões. Eu gosto de pensar que eu tive o azar de presenciar a espiral descendente de muita gente em relação a tudo. Mas no caso do meu amigo Rodrigo e do meu tio Samuel, eu fiquei profundamente decepcionado. Pra resumir, o primeiro passou de um amigo de todas as horas pro cara que não queria conversar sobre mitologia grega porque “conhecia um deus que podia derrotar todos eles”. E o segundo simplesmente suprimiu toda a sua personalidade por causa de uma mulher evangélica. Ele ter esquecido do “bros before hos” não foi o problema. Todo homem faz isso ao menos uma vez. Mas foi ele abraçar a religião de tal forma que tudo aquilo que eu amava no meu tio simplesmente havia desaparecido. Pra um menino que podia contar nos dedos a quantidade de parentes que não o sacanearam, aquilo foi definitivamente um dos piores casos de pedestal quebrado da minha vida.

Eu nunca consegui por em prática a ideia de não por pessoas em pedestais. Como eu nunca tive muitos amigos, eu sempre fui extremamente fiel aos que eu tinha, e sempre sofri demais quando perdia a amizade de alguém. Diante de situações onde as pessoas se transformavam e se fanatizavam além de qualquer resquício de reconhecimento, eu passei a acreditar que a religião, se dado tempo e insistência, poderia mudar as pessoas para pior. As transformariam no que Rodrigo e Samuel se tornaram: Cascas vazias do que outrora foram, vomitando regras de conduta e abandonando qualquer pensamento crítico, incapazes de mudar de ideia e incorporar novos valores.

Infelizmente, qualquer ideologia pode gerar pessoas assim, mesmo a que permeia o ateísmo (tal qual Harry também me alertou). Aqui, vale voltar e relembrar a tal lição que eu aprendi durante o AA(1982–1999): “Sempre vai haver alguém pra tirar algo, concreto ou abstrato, de você, quando você menos esperar, e sempre será quem você menos espera”. Junte isso ao fato de que você é uma pessoa ansiosa e forçosamente (devido aos traumas de infância) pessimista. E voilá! Você VAI passar a acreditar que a religião eventualmente vai eliminar o intelecto das pessoas e transformá-las em seguidores cegos, assim como meu amigo e meu tio, por mais instruídas e politizadas que as pessoas sejam. É apenas questão de tempo e influência.

Em outras palavras. A humanidade queimou seu direito a uma segunda chance comigo — em qualquer coisa — há muito tempo. Estou errado em generalizar? Estou. Mas não estou mais convencido de que fazer o que é certo valha a pena.