Missão (Ou uma tentativa de relembrar ela, agora que talvez ela seja cumprida)

“E quando você conseguir cumprir essa tarefa, você será livre! E não precisará carregar o nome ‘Ashtray’ nunca mais”.

Eu sempre imaginei meu pai me dizendo essa frase, apesar de que é uma memória falsa. De uma forma ou de outra, ela me deu bastante conforto, no sentido de que havia algum lugar pra ir depois que eu cumprisse esse pequeno conjunto de metas que eu tracei pra mim mesmo.

Entretanto, eu percebi que eu falo em Missão (Sim, eu escrevo ela com letra maiúscula porque é algo bem importante) desde que meu pai morreu, e isso já faz um tempo, e meus objetivos mudaram ao longo desse tempo, incluindo a Raison d’etre da própria. Esse post é uma tentativa de dar mais forma àquela que é minha maior obsessão, meu maior desejo.

Quando eu falo na Missão, parece ser algo óbvio. Mas olhando bem, eu sempre usei a palavra no sentido de “objetivo”. Empresas tendem a definir as duas coisas de forma diferente, e eu honestamente nunca entendi que diferença é essa. O que eu sabia, é que o que eu queria da vida, apesar das pequenas mudanças ao longo do percurso, nunca havia mudado.

Quando era pequeno, eu tinha uma frustração que eu acredito que toda criança tem: A de não poder fazer nada sozinho. Sempre estar acompanhado, sempre pedir permissão, sempre precisar de autorização. Tinha muita agonia com como as pessoas olhavam pra mim como se estivessem esperando eu fazer algo errado (e de fato estavam, mas por outros motivos), e ver meus primos sendo independentes em pequenas coisas antes de mim, apesar de eu ser mais velho me ensinou uma certeza que eu carrego até hoje.

“Enquanto houver família por perto, sempre haverão pitacos, boas intenções e mãos pra atrapalhar seus sonhos. Especialmente os que exigem que você esteja sozinho.”

Não importa quantas vezes eu mude meu conceito de “realização pessoal”, ele sempre girou em torno do “não deixar minha família ditar os rumos da minha vida”. O problema é que isso sempre foi muito mais pela fuga do que pelo confronto. Mas ao invés de ver isso como desonra, eu prefiro me concentrar no lado bom, que é o fato de que eu estou pronto pra níveis de sobrevivência que os Galvão jamais estarão.

Eu na vida

Por muito tempo, eu disse a mim mesmo que o objetivo da Missão era “Provar aos Galvão de que eu sou não sou um fracasso e que meu pai não errou ao me criar” e ao mesmo tempo, “mostrar a painho de que o jeito dele não era o único que funcionava”. Isso nasceu do fato de que a família da minha mãe normalmente gastava seu tempo ao meu lado enfatizando o quanto eu não sabia fazer algo ou o quanto painho era um fracassado. Eu tinha que ser um “sucesso”, porque odeio a ideia de parentes de quem não gosto rindo da minha cara porque eu não compartilho dos valores que eles têm. Pra complicar ainda mais a situação, painho é provavelmente o rei do “tough love”, porque enquanto ele se sacrifica por você e te proporciona o que pode proporcionar, ele também não é nada afável e na maioria das vezes, aterrorizante (eu tive a audácia de dizer isso na cara dele UMA vez). Não preciso dizer que, enquanto eu idolatro ele hoje, a gente não se entendia direito quando ele estava vivo. De novo, o conflito de valores (e o constante problema de que eu não não tinha a força necessária pra enfrentá-lo — o que no final das contas, foi uma coisa boa, pois me ensinou a ser cauteloso e a ter sempre um bom caso pra poder sustentar algo que eu preciso) era um problema sério, mas a diferença é que enquanto ele era teimoso e inflexível, ele não insultava ninguém, nem me fazia acreditar que eu não tinha lugar nesse mundo.

Entretanto, à medida que você cresce, você percebe que não importa realmente o que a família de sua mãe pensa, já que não são eles quem pagam suas contas (e mesmo se eles pagassem, aliás). Mais ainda, que você admite que seu pai estava certo na maioria das vezes, e que nas poucas vezes que você insiste, você simplesmente não sabe agir de outra forma e quer um certo grau de conforto ao fazer o que quiser.

Crescer dessa forma te torna muito humilde, talvez até demais. Talvez por isso, já disseram na minha cara que “Eu não tenho ambição alguma” e que “Querer morar só e ganhar o bastante pra pagar as contas e não morrer de fome” não é exatamente um sonho. Tipo, por mais que o conceito me seja totalmente estranho (e continuará sendo enquanto eu não ganhar bem o bastante pra sair de casa), eu busquei a autossuficiência por tempo demais, pra saber exatamente o que espero dela. É uma folha em branco, esperando pela minha inspiração para fazer nela o que eu quiser. Talvez, esse seja meu sonho. Ter a folha em branco.

Enfim, estou perdendo o foco de novo. Elaborando melhor, a Missão consiste no processo da minha independência (e da minha alforria em relação à obrigação de cuidar das outras pessoas), aquele momento em que eu posso centralizar o comando da minha vida em mim mesmo, sem depender de fatores externos. Não precisar ter medo de ter filhos (e descobrir que Mainha está levando ele ao Vale nas minhas costas, ao invés de eles crescerem com a noção de que as religiões são uma forma preguiçosa de explicar como o mundo funciona, por exemplo), poder juntar grana pra uma grande compra ou viagem (sem precisar me preocupar em resgatar os outros do buraco financeiro), ou poder dormir de manhã e deixar os pratos se acumularem por uma semana sem precisar me preocupar com os namorados dos meus irmãos aparecendo de surpresa, esfregando na minha cara como eu sou um fracasso por não ser um ser humano convencional (que consegue manter uma conversa saudável e ficar com todas as menininhas na baladinha top) — senti muita inveja deles por isso, mas hoje em dia eu estou em paz, talvez pela proximidade desse momento de transformação.

Quando essa fase da minha vida acabar, eu poderei me concentrar em metas diferentes, como conseguir fazer um bom plano de previdência, descobrir se sou um aspie além de ter TDAH, consultar um psicólogo (porque afinal, fugir do vuco-vuco não é a solução, apesar de ser o que eu preciso agora), melhorar meu condicionamento físico, arrumar uma costureira pra não precisar torrar mais dinheiro que o necessário com marcas de roupas, me tatuar valendo, fazer um cruzeiro, construir uma “mancave”, aprender a nadar, aprender a atirar, ser um artista melhor, escrever e dirigir um curta-metragem, conhecer os Deftones, Chris Rock e Wes Anderson, terminar de aprender francês, e quem sabe… Casar e ter uma linda menina chamada Olívia ❤ (mas esse fica pra quando eu me julgar badass o bastante pra ser pai).

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