Essa foto mostra “O” ponto positivo do filme

Remakes (Ou como o “Caçadores de Emoção” novo falha miseravelmente tentando dar profundidade à história)

Se você não assistiu e pretende ver, melhor nem ler… Não quero ser o responsável por desistências. Muito menos, esse post se trata de uma crítica 100% imparcial ao filme. Eu não me julgo qualificado pra isso, sem falar que é um remake de não apenas um dos primeiros filmes de ação que eu já assisti, mas um dos meus favoritos até hoje, um clássico atemporal, totalmente à prova da “Regra dos 15 anos”.

Não preciso dizer também que HAVERÃO MUITOS SPOILERS!

Antes, vamos recapitular sobre o que era o filme original. Tratava-se de um ex-quarterback universitário, que ingressou no FBI após uma lesão que impossibilitou sua carreira, que ao receber um caso de assaltos a banco sazonais (e conhecer a teoria de que a quadrilha responsável era formada por surfistas) resolve se infiltrar na comunidade de surfistas de Los Angeles para confirmar a teoria, identificar e capturar os responsáveis. Só que enquanto ele está disfarçado, ele se envolve cada vez mais com o bandido e isso o transforma. Roteiro simples, limpo e eficaz. As poucas vezes em que é preciso acionar a “Suspensão voluntária da descrença” acontecem em situações comuns a qualquer filme de ação. Em outras palavras, é um filme de ação despretensioso que usa elementos simples para construir sua história.

O remake, por outro lado, comete o maior pecado dos remakes: Tenta levar o “lore” do filme original a sério.


  • Os ex-presidentes

No original, era uma quadrilha especializada (apesar das aparências) em roubar bancos durante o verão (no hemisfério norte) para custear viagens e festas ao redor do mundo. Em 1991, não era realmente difícil de imaginar um grupo de pessoas aprendendo a rotina de um banco e tendo um domínio razoável de armas de fogo que poderiam ser compradas em qualquer loja especializada para assaltar um banco DA SUA CIDADE. No remake, a mesma quadrilha (cuja única referência como quadrilha é de um video de segurança onde eles usam capacetes com fotos e frases de presidentes) é capaz de realizar crimes extremamente diversos EM DIVERSOS LOCAIS DO MUNDO, com material extremamente restrito e com precisão cirúrgica — e tudo isso é justificado pelas suas habilidades como esportistas radicais. Sem falar que eles inequivocadamente o fazem por causa de um código de honra inexplicavelmente recente — e famoso — em relação ao meio-ambiente. O próprio Johnny comenta: “Existem 100 formas MELHORES de ajudar o planeta”. Aceitar ESSES ex-presidentes é, no mínimo, mais difícil.


  • Johnny Utah

O Johnny original é um agente do FBI que perdeu sua chance como jogador de futebol americano. Existem dicas sutis de que ele voltou-se para a lei porque seus pais são policiais. Sem falar de que todo o mundo do surfe tinha um apelo natural para ele, provavelmente pelo fato de ele ser de Ohio e nunca ter visto o mar, e também como ex-esportista. Parte do apelo do filme original está justamente em como ele aprende a ser um “caçador de emoção” pelo exemplo durante seu disfarce. O novo Johnny era um esportista, relativamente famoso, que fica desgostoso após um acidente com seu amigo e resolve em tempo recorde, tornar-se advogado e agente do FBI com a única explicação de que “Talvez eu precise de um pouco de ordem”. Talvez a única coisa que os dois tenham em comum seja o desejo de pegar o bandido por ser a coisa certa a fazer. Mas enquanto o original se infiltra, mistura e incorpora o mundo do seu disfarce, o novo Johnny não passa a mesma sensação de que está se transformando, apesar de ainda ter a ousadia que o original tinha. Ainda que o original não chega a ter hesitações sobre ter que pegar o bandido, mesmo quando ele descobre a identidade dele, existe a insinuação, a possibilidade de que isso aconteça, ainda que seja apenas um temor de Pappas. O novo Johnny vai na onda sem saber o que fazer ou dizer no tocante ao “objetivo dele enquanto disfarçado”(ele chega a admitir isso em certo ponto). Podemos assumir que a fama dele como esportista radical abriria as portas. Elas abrem, mas não no momento mais plausível de todos.

No final, o maior problema com o Johnny novo na verdade nem é culpa do personagem (ou do ator, aliás). Mas sim com as transformações que o roteiro sofreu, que provocou coisas estranhas como cenas semelhantes ou referenciando o filme original, mas com personagens que, por causa dessa releitura, possuiriam motivações completamente diferentes.

A cena de Johnny atirando para cima ao ver Bodhi escapar existe no remake, mas eu não senti que ele estivesse tão dividido ao ponto de não atirar, nem mesmo um tiro para imobilizá-lo. No original, as cenas entre os dois é o bastante para que a platéia se convença de que Johnny poderia hesitar na hora de atirar. No caso do remake, enquanto temos muitas cenas onde Bodhi tenta ensinar sua filosofia pra Johnny, não há sinal de Utah está de fato levando todo aquele papo de “oito de Ozaki” a sério.


  • Bodhi

O Bodhi original é ligeiramente mais profundo do que os outros ex-presidentes e DEVERIA ser mais superficial do que o novo. Infelizmente, o tamanho da profundidade do personagem faz o tiro sair pela culatra. Ele é tão profundo que chega a ser irreal. O original, enquanto financiava seus verões intermináveis pelo barato do desafio, ainda era alguém que simplesmente tinha arrumado uma forma prática de se divertir o ano inteiro. O novo Bodhi quer: 1) Honrar a natureza ao realizar desafios extremos 2) Prestar seus respeitos ao seu mentor ao cumprir tais desafios 3) Devolver ao planeta o que tiramos dele. Parece demais, não acha?

O Bodhi original não levava muita coisa a sério, e era possível traçar um perfil psicológico onde ele não apenas buscava aventuras como também uma forma de evitar responsabilidades. O diálogo na praia no filme original é a melhor prova disso. Apesar de sabermos disso o tempo todo, ele é carismático e sedutor o bastante para que a gente GOSTE dele. Quando eu tinha meus 10, 11 anos, eu realmente torcia por ele. O novo Bodhi não poderia ser mais sério. Está sempre de cara amarrada, sempre falando em dever e definitivamente, NÃO ESTÁ SE DIVERTINDO. Mas outra vez, culpar Edgar Ramirez é bastante injusto. É impossível criar um retrato perfeito se você precisa lidar com tantas discrepâncias de roteiro.


  • Tyler Ann/Sansara

Eu nem devia começar a fazer essa comparação. Tyler Ann é muito mais relevante, com uma personalidade mais marcante, e seu relacionamento com Johnny é muito mais fácil de simpatizar do que o entre Johnny e Sansara, que é basicamente uma groupie hippie que por acaso é enteada do mentor de Bodhi, uma desculpa esfarrapada pra explicar uma mulher sexy “especial” entre as várias figurantes. Mas, de novo, a relevância dela foi cortada pelo roteiro.


  • O verdadeiro culpado

Eu já falei umas três vezes, então é melhor eu elaborar. O roteiro é confuso sobre querer manter elementos do filme original, aprofundá-los ou modificá-los. O filme original não é perfeito, e definitivamente não passaria por uma análise detalhada sobre o que acontece nele no tocante das cenas serem reais ou não. Mas a diferença é que o original é despretensioso e simples o bastante para você aceitar as “mentiras” no filme. O remake se preocupa muito em justificar o desempenho de Utah ao longo dos desafios, a presença dos ex-presidentes em diversas partes do mundo, a entrada de Utah na Venezuela, entre outras coisas, mas não liga pra como as muitas pessoas entram e saem de festas em locais como um iate em alto-mar ou uma casa no meio dos Alpes. Ou ainda deixam de explicar os furos mencionados acima ou como Ozaki Ohno e sua filosofia podiam ser tão seletivamente famosos. De novo, uma desculpa feia para fazer mais crimes acontecerem antes que Johnny pudesse alcançar Bodhi de vez. Mas NADA insulta mais o filme do que a cena final, onde a indecisão de fazer algo novo ou se manter fiel ao original resultou em algo sem graça e anti-climático.

  • Mas o filme é 100% ruim?

Com tudo o que eu falei, dizer que é um filme ruim também é injusto. A fotografia compensa os muitos furos em relação a localidades, equipamentos e habilidades dos personagens. As cenas de ação, sejam elas de esportes radicais ou tiroteios são muito interessantes também. Infelizmente, só colírios temporários para um filme que, ao tentar conciliar inovação e fidelidade, ficou em cima do muro demais e acaba valendo muito mais a pena pra quem nunca assistiu o VERDADEIRO “Caçadores de Emoção”.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Alexandre Amorim’s story.