“Só posso te mostrar a porta, você tem que atravessá-la”
O grande ícone da cultura pop Matrix tem vários diálogos interessantes, mas o que me chamou a atenção foi o momento da escolha. O personagem é confrontado com duas possibilidades: tomar a pílula azul e acreditar que foi tudo um sonho ou a vermelha e ser inundado pela realidade.
A construção do pensamento crítico se assemelha a essa escolha. Todos os dias você pode tomar a pílula azul e reforçar a ilusão de que foi tudo um sonho ou tomar a pílula vermelha e manter a consciência e lutar.
A manutenção da consciência feminista, pra mim, se dá lendo diversas autoras, uma delas é Bel Hooks. Ela é uma grande autora feminista com uma linguagem muito acessível e fala sobre diversos aspectos do feminismo, dentre eles a autocrítica.
Quando tomamos a pílula vermelha do feminismo, acabou. As explicações deixam de ser: eu realmente não era a pessoa certa para a vaga e se tornam: por que o entrevistador me perguntou de filhos?
Mas isso não é suficiente, ter consciência do machismo ao seu redor não é capaz, por si só, de tirar o machismo das suas práticas automaticamente. Sim, você mulher reproduz práticas machistas.
Quantas vezes você ouviu a mesma ideia de um homem e de uma mulher e deu encaminhamento se referenciando ao homem? Quantas vezes você duvidou de histórias de violência ‘’por que mulher aumenta as coisas’’?Quantas vezes você adotou um machista de estimação pra validar suas posições?
A autocrítica não é natural ou automática, ela é uma reafirmação do nosso compromisso com a luta feminista. E a autocrítica dói, provoca um misto de sensanções como vergonha, medo e nunca acaba.
A minha primeira chefe da vida foi uma mulher e ela me chamou de analfabeta. Uma outra chefe que tive me disse que se um homem coloca a mão em mim é porque eu deixei, deveria ter gritado com ele, afinal, como ele saberia que eu não queria?
Ser mulher não te faz feminista e ser feminista não te faz imune a reprodução do sistema patriarcal. Longe de mim dizer que trabalhar para homens foi mais fácil, já vivi o desconforto de ter meu chefe encarando as minhas pernas e meu decote todos os dias. São outros processos, mas todos violentos.
