Power Rangers: Uma análise sobre o que pode ter prejudicado o retorno dos heróis aos cinemas

Recomeço da franquia não atendeu às expectativa do estúdio e sequência corre o risco de não acontecer.

Quase 2 meses após a estreia, os números em torno do reboot de Power Rangers no Cinema, comandado por Dean Israelite, têm se mostrado um tanto desfavoráveis quanto a possibilidade de que este tenha sido o primeiro de uma série de novos filmes dos heróis criados por Haim Saban. Isso porque, segundo a Forbes, a Lionsgate não estaria satisfeita com seu desempenho nas bilheterias.

Com US$ 130 milhões conquistados ao redor do mundo até o momento — pouco mais de US$ 84 milhões dentro dos Estados Unidos -, a esperança do estúdio de uma reviravolta capaz de fazer o longa encerrar o circuito de exibição no azul está nos mercados japonês e chinês.

Na China, a estreia aconteceu no último dia 12 de maio e, segundo divulgado, a arrecadação inicial foi muito abaixo do valor previsto — apenas US$ 1,2 milhão na primeira noite de exibição. A concorrência direta com Guardiões da Galáxia 2, que chegou ao país também no dia 12, certamente foi determinante para um debute tão tímido. A esperança, agora, é uma reação do filme ao longo das próximas semanas. E, no dia 15 de julho, é a vez do Japão, última parada da superequipe antes do término de sua passagem pelas telas.

Quando se é fã, é compreensível a busca por argumentos favoráveis para a continuidade de projetos dos quais gostamos. Mas, tomando um pouco de distância e analisando a situação de Power Rangers principalmente pelos números, é inegável: as chances de vermos a sequência sair do papel deve ser mesmo pequena. E isso talvez se justifique por três motivos mais evidentes.

Primeiro: o orçamento

O último filme dos heróis foi lançado pela 20th Century Fox há exatos 20 anos. Logo, US$ 100 milhões é um montante muito alto para ser investido numa franquia que necessita ser restabelecida no Cinema. Ainda mais se considerarmos que a marca, no todo, já não é tão relevante junto ao grande público, apesar de a série continuar forte na TV. Hoje ela dialoga apenas com o público infantil.

Infelizmente, Power Rangers envelheceu mal, pois Saban Brands nunca se preocupou em criar um universo favorável à evolução da narrativa ao longo das temporadas. Apesar dos quase 25 anos de exibição, o seriado teve seu cânon encerrado em Power Rangers no Espaço, temporada de 1998 — a 5ª desde Mighty Morphin. Depois disso, cada fase teve liberdade para começar tudo do zero, eventualmente fazendo ligações pouco coerentes com momentos clássicos de anos anteriores.

Vários filmes já passaram problemas parecidos e, mesmo tendo satisfeito a mídia e o público, foram considerados fracassos porque não conseguiram alcançar o piso de arrecadação necessário para cobrir os altos valores aplicados e ainda gerar lucro.

Os homens que não amavam as mulheres (2011), dirigido por David Fincher, por exemplo, custou US$ 90 milhões para a Sony e arrecadou pouco cerca de US$ 232 milhões mundialmente. A expectativa desmedida de lucratividade para um filme indicado apenas para maiores de 16 anos — e o consequente investimento desmedido -, no entanto, acabaram com a ideia inicial, que previa outros dois longas.

O mesmo aconteceu com As Crônicas de Nárnia, na Disney. Depois de ter arrecadado US$ 745 com O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (2005), ao custo de um investimento de US$ 180 milhões, o estúdio decidiu que Príncipe Cáspian (2008) poderia ser ainda mais caro. O investimento de US$ 225 milhões rendeu apenas US$ 419,5 milhões e deu-se por encerrada, então, a franquia sob a tutela da Disney. Posteriormente, a 20th Century Fox assumiu a adaptação dos livros da série, mas parou após a primeira investida. A viagem do Peregrino da Alvorada (2011) custou US$ 155 milhões e arrecadou US$ 418 milhões.

Nárnia possui histórias mais simples que essas escolhidas para virar filmes. Se, ao invés de optar pela cronologia de lançamento dos livros, a Disney tivesse decidido pela cronologia temporal da narrativa, a franquia talvez tivesse seguido um outro caminho, já que a grandiosidade das tramas criadas por C. S. Lewis é gradual, começando por algo pequeno e expandindo o universo aos poucos. O mesmo poderia acontecer com o orçamento destinado a cada novo longa-metragem.

Esses dois exemplos mostram como o montante de dinheiro aplicado na realização de alguns filmes pode ser responsável por tais fracassos financeiros. Talvez um orçamento de produção menor gerasse o mesmo resultado e, assim, não fosse necessário começar tudo de novo alguns anos depois.

Por outro lado, Poder sem limites (2012) foi feito com apenas US$ 12 milhões e rendeu US$ 126 milhões. Com US$ 30 milhões investidos, Distrito 9 (2009) lucrou US$ 210 milhões milhões. E Jogos Vorazes (2012), com US$ 78 milhões, gerou US$ 721 milhões de receita. Os três títulos têm proximidade com a nova proposta de Power Rangers nas telas, servindo como possível indicador de que os US$ 100 milhões destinados ao filme de Dean Israelite foram um risco exagerado.

Segundo: a data de estreia do filme

Era visível que Power Rangers não conseguiria bater de frente com Logan, Kong: A Ilha da Caveira e A Bela e a Fera, outras estreias de peso do mês de março. Ghost in the Shell também parecia um forte concorrente, mas os resultados o colocaram justamente no mesmo lugar em que os pupilos de Zordon se encontram agora.

A Lionsgate e a Saban queimaram seu produto ao colocá-lo para disputar a audiência com filmes cujo poder de atração era infinitamente maior. Afinal, estamos falando de uma marca desatualizada junto ao público com quem pretende conversar brigando com outras mais fortes, relevantes e presentes nas telas em ciclos muito menores, fator favorável para mantê-las sempre presentes no dia a dia do espectador.

A Bela e Fera faz parte de uma onda de refilmagens questionável, mas absurdamente lucrativa, que a Disney abraçou após o sucesso estrondoso de Alice no País das Maravilhas (2010). Logan é parte de um universo cinematográfico poderoso, com audiência fiel e que consegue lançar novos longas-metragens a cada 2 anos. Kong: A Ilha da Caveira atualiza um personagem clássico e o insere no lucrativo filão dos filmes de monstros, onde o Godzilla é rei. E, nessa disputa, Power Rangers teve a seu favor apenas o benefício da dúvida.

Terceiro: o roteiro e a montagem

Os problemas de roteiro e de montagem, embora pontuais, são gritantes.

Apesar de muito acertada a ideia de criar camadas para os personagens e de levar a fundo o relacionamento entre eles, a distribuição de tempo entre os atos é completamente equivocada. O resultado é uma introdução gigantesca, um desenvolvimento na medida e uma conclusão um tanto anticlimática.

O esperado I’ts Morphing Time! acontece de forma tímida, meio envergonhada. As lutas com os monstros de pedra criados por Rita Repulsa, apesar de empolgantes, são rápidas demais. A formação do Megazord, o ponto alto de todos os episódios da série de TV — e que deveria ser também o do filme — sequer é mostrada. A batalha final dura pouquíssimo tempo.

Ficou provado: Power Rangers pode ir além da ação. Mas, ainda assim, Power Rangers precisa de ação. O desequilíbrio da narrativa compromete momentos do filme onde o DNA da série está melhor colocado. E a empolgação estimulada por esses momentos inevitavelmente dá lugar à frustração, quando cortes desnecessários rompem fora da hora o elo criado com nossas lembranças de infância.

Go Go Power Rangers, o tema clássico do seriado, por exemplo, é executado numa cena incrível, mas que dura um fiapo de tempo. A principal crítica da mídia em relação ao filme é o receio que ele tem de referenciar suas origens. Não dá para acusá-la de injusta. É a pura verdade.

Cabe falar, ainda, sobre quase todas as cenas da jornada de Rita Repulsa. Apesar de muito bem personificada por Elizabeth Banks, a falta de algumas explicações e o excesso cortes fragmentaram demais sua trajetória, ao ponto de praticamente todos os seus atos carecem de sentido.

Por que ela acorda exatamente quando as Moedas do Poder são descobertas? O ouro serve como fonte de energia para ela? Como ela reviver o Goldar? É sério que um sopapo do Megazord a levaria ao espaço? A personagem poderia ter rendido muito mais.

Power Rangers tem um conjunto de falhas bobas — tanto criativas quanto estratégicas — responsáveis por transformar uma ideia com potencial enorme em um filme com crise de identidade. O fato de ele conseguir, ainda assim, ser um longa acima da média só demonstra como um cuidado maior poderia tê-lo colocado entre as grandes surpresas do ano.

Se haverá ou não uma sequência, é difícil saber. Estou na torcida. Mas é seguro afimar: US$ 130, 140, 150 milhões não cobrirão todos os gastos de produção e de marketing. E não dá para culpar o público por isso, muito menos a imprensa. A responsabilidade é exclusiva da Lionsgate e da Saban Brands, que não souberam dimensionar corretamente o poder em suas mãos.


Os números de bilheteria apresentados encontram-se disponíveis no IMDb e no Box Office Mojo.


Power Rangers

Estados Unidos, 2017. Ação, Aventura, Sci-Fi.

Roteiro: John Gatins

Direção: Dean Israelite