O QUE A INTERSECCIONALIDADE TEM ME ENSINADO? POR ÀTALO SILVA

Tomando por base a leitura do texto “PORQUE É QUE A INTERSECCIONALIDADE NÃO PODE ESPERAR” da Kimberlé Censhaw, autora negra que cria o termo interseccionalidade, trago citações, comentários e reflexões sobre o que a interseccionalidade tem me ensinado?

Kimberlé Crenshaw é a diretora executiva do African American Policy Forum e professora de Direito na Universidade Columbia e na Universidade da Califórnia, Los Angeles.

O texto é datado de setembro de 2015, onde a autora inicia colocando que “A interseccionalidade já era uma realidade antes de se tornar um termo” e que hoje em dia 30 anos depois dela ter dado nome ao conceito, no artigo “Mapeamento das margens: interseccionalidade, identidade política e violência contra a mulher de cor”, o debate da interseccionalidade parece estar por todo lado, mas, se as mulheres de cor continuam a ser postas de lado, algo para o entendimento desse conceito se perdeu.

Ela traz um exemplo acontecido em 1976 quando Emma DeGraffenreid e outras mulheres negras processaram a General Motors por descriminação. Onde os trabalhos de negros, eram pra homens negros e os trabalhos para as mulheres, eram pra mulheres brancas, nesse sentido, uma pessoa mulher e negra não tinha condições nem de concorrer por carregar o marcador de raça e gênero. Ela conclui o exemplo chegando ao desfecho onde o tribunal indeferiu as reivindicações da Emma DeGraffenreid e das mulheres negras alegando que mulheres negras não deveriam ter permissão para juntar raça e gênero numa só reivindicação. Ela conclui refletindo o como essas situações acabaram levando a reivindicação daquelas mulheres, para o vazio, foi então pensando nesta lacuna dentro da complexa estrutura da legislação anti-discriminação que o termo interseccionalidade nasceu.

A interseccionalidade é uma sensibilidade analítica, uma forma de pensar sobre identidade e a sua relação com o poder. Originalmente criada em nome das mulheres negras, o termo trouxe à luz do dia a invisibilidade de vários elementos dentro de grupos, que apesar de reclamarem essas pessoas como seus membros, regularmente falham na sua representação.

Percebemos então, que o termo “interseccionalidade” não é algo que surge de hoje, nas cabeças pensantes da teoria revolucionaria que se debruçam em torno de debates centrais que circulam as organizações que discutem gênero, raça, classe, sexualidade, e entre outros marcadores. Algo que fica nítido, é que a interseccionalidade é um conceito que se constrói na pratica, como a própria autora aborda, mas, que, algo se perdeu na compreensão dessas questões na práxis das organizações sociais da contemporaneidade.

O texto se coloca muito a partir da experiência do ocorrido com as mulheres negras que buscavam trabalhar na General Motors, mas, coloca que as supressões dentro da interseccionalidade, não são exclusivas das mulheres negras, ainda hoje, diversos setores sofrem fragilidades que refletem intersecções de racismo, sexismo, opressão de classes, transfobia, capacitismo (Capacitismo é a discriminação direcionada às pessoas com algum tipo de deficiência, dada sua condição.).

Como tudo que é “novo”, o debate da interseccionalidade (sem grandes surpresas, como a autora coloca) tem gerado a sua quota de debates e controvérsias:

Os conservadores têm pintado o quadro de que quem põe em prática a interseccionalidade são pessoas obcecadas por “politicas de identidade”. Sem dúvida que, como o caso de DeGraffenreid mostra, a interseccionalidade não é sobre identidades, mas sim sobre instituições que usam a identidade como exclusão e privilégio.

Ela ainda coloca:

Outras pessoas acusam a interseccionalidade como sendo demasiado teórica, do tipo: “muita conversa e pouca ação”. A isso eu respondo que nós temos vindo a “falar” sobre igualdade racial desde a escravatura e ainda assim não estamos nem perto de a concretizar.

Irei concluir esta breve postagem, sobre o texto da Kimberlé, pois a leitura completa é imprescindível para quem busca se aprofundar nesse debate e construir de fato uma nova cultura política em suas organizações sociais e setoriais. Leituras como essas são imprescindíveis para o avanço da esquerda e das organizações sociais no Brasil!

Texto completo:

Artigo sobre “Mapeamento das margens: interseccionalidade, identidade política e violência contra a mulher de cor”