A Amamentação ao longo do tempo

São poucas as evidências históricas acerca da amamentação entre os humanos de épocas remotas como da Idade da Pedra. Apenas alguns estudos comparativos com os primatas ou recentes investigações antropológicas, em algumas tribos primitivas contemporâneas, como as tribos brasileiras ou na Papua-Nova Guiné, é que torna possível uma imagem da importância da amamentação nos primórdios da humanidade.

Se observarmos a arte paleolítica, como as estatuetas de Vénus de Willendorf ou a Vénus de Laussel, verificamos a idealização da figura feminina correspondendo ao valor da fertilidade, da concepção e amamentação.
Nas antigas civilizações o ato de amamentar era considera sagrado, porque era essencial para a sobrevivência das crianças. Na Mesopotâmia, através de mitos, a amamentação era glorificada, como os relacionados com a deusa Astarte, a mãe dos deuses, rainha do paraíso e da fertilidade dos peitos. Nesta civilização, as crianças deviam ser amamentadas até os 2 a 3 anos. Se, por alguma razão, a mãe não conseguisse providenciar o leite, o Código de Hammurabi (1800 AC) regulamentava a relação entre as amas-de-leite e o empregador.
No Antigo Egipto, a importância da amamentação materna foi reflectida na figura de Ísis, que garantiu através do seu leite a imortalidade do seu filho Hórus e chegaram até nós as primeiras prescrições médicas para as mães garantirem aos seus filhos quantidades suficientes de leite. No mundo clássico estava consubstanciada a importância e o sagrado ato da amamentação, através dos mitos dos deuses, essencialmente da deusa Artemis. Vários filósofos debruçaram-se sobre o tema, surgindo várias opiniões, como Platão a defender que todas as crianças deviam ser amamentadas em infantários públicos por amas-de-leite ou Aristóteles a postular a obrigação da mãe em fornecer o leite para o seu filho, por este ser o melhor alimento que se podia fornecer às crianças e melhor contraceptivo para as mulheres.

A lenda da fundação de Roma tem por base a amamentação de Rómulo e Remo, pela Lupa Capitolina, a loba que encontrou os irmãos gémeos. Os romanos deixaram muitos tratados de obstetrícia e ginecologia, dedicados a amamentação de crianças, como Galeno, Soreno ou Oribásio. Por outro lado, Cícero criticava a utilização das amas-de-leite, porque acreditava que estimulava os laços familiares e que se transformaria em amor pela Pátria ou Terra Mãe.
Durante a Idade Média, as classes privilegiadas recorriam às amas-de-leite, por várias razões, como se considerar o período de uma grande instabilidade e vulnerabilidade ou por causa da fertilidade das mulheres. A partir do século XVII, surgiram os primeiros métodos de amamentação artificial das crianças, sem ser através do leite materno, como as papas de água quente ou leite animal, misturadas com farinha ou pão e ovo — podia também ser um suplemento ao leite materno.
Com a Revolução Industrial e uma maior concentração populacional nas áreas urbanas, no século XIX, massificou-se a amamentação artificial, muito devido à impossibilidade das mães de estarem a tempo inteiro com os seus filhos, como os biberões. Mais tarde, elaboraram-se outros suplementos para auxiliar a amamentação, como o leite em pó. Apesar de, durante este período, surgirem as primeiras investigações científicas, que consideravam o leite materno como o melhor alimento para as crianças.

No Século XX, com o avanço tecnológico na medicina, na farmacêutica e de uma valorização da criança, avançou-se muito no combate à mortalidade infantil. Desenvolveram-se substitutos ao leite materno, com maior valor nutricional. Consequentemente, com uma válida alternativa ao leite materno, a opção pelo substituto atingiu proporções enormes — durante anos 70, nos Estados Unidos apenas 25% das crianças com um ano eram alimentadas com leite materno.
Já neste século, apesar de todas as controvérsias em relação à amamentação em locais públicos, esta vem cada vez mais a ganhar adeptos, por todas as vantagens que o leite materno tem em relação aos substitutos.
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