Dias de Março

Guto Gushek
Aug 23, 2017 · 4 min read

Me lembro dos Dias de Março…
Me lembro da Cidade Capital…
Me lembro da Rua do Desconsolo,
do caminho que fazia
até a destinação final,
um campo florido de Almas-Mortas.
Um caminho feito duas vezes ao dia,
cuja sensação era, em ambas, idêntica.
Me lembro daquela rua,
rua larga e alongada
— mais parecia uma avenida! —
Me lembro da Rua do Desconsolo;
rua apática, rua áspera,
rua triste, fria e enegrecida.
Zelosa e tétrica em seus dotes artísticos,
a Rua do Desconsolo era profícua
na composição de lúridos idílios:
na marquise dum prédio executivo,
uma jovem e bela mendiga com um bebê no colo
— do verde azulado de seus olhos,
rutilava um brilho lívido,
qual um Sol feito de gelo;
tristes feixes de luz
de louca beleza desprovida de esperança! — ;
deste lado, o boteco
e, doutro, uma igreja.
Assim, cada elemento se complementava.
A Rua do Desconsolo,
tão distante e contígua, expelia,
qual um duto rompido,
um fluxo contínuo
de rostos pálidos,
corpos esquálidos,
almas enfaradas.
O curto caminho até a destinação final
parecia-me os quarenta anos no ermo;
as poças d’água e urina estalavam-me sob as solas das botas,
e a fumaça negra,
exalada pelas motocicletas,
carros, ônibus, pessoas,
fazia-me arder os olhos,
queimar as narinas,
corroer a garganta.
Chegava, enfim, à destinação final,
o campo das Almas-Mortas;
era lá que, forçoso e a contragosto,
via-me compelido a tornar-me parte da flora:
as máquinas drenavam-me as energias vitais,
enrouqueciam-me o elã da voz,
exauriam-me o fôlego dos pulmões.
Riscavam-me, enfim,
dias e mais dias do cômputo da vida.
Tais eram os Dias de Março…

Me lembro dos Dias de Março…
Me lembro da Cidade Capital…
Me lembro da Rua do Desconsolo,
do caminho que fazia
até a destinação final,
o campo florido de Almas-Mortas…
Me lembro dum súbito brilho
— brilho rubro de Raios de Sol! —
que irrompeu por dentre as nuvens de Março;
era um brilho de olhos verdes,
cândidos e límpidos, quase solares,
encimados por caracóis castanho-claros!
Um feixe de sol supremo,
que tanto aqueceu-me os Dias de Março,
trouxe-me, também, chuva doce,
— Água Sagrada! —
na qual banhei-me fecundamente,
enxaguando
de meu corpo e alma
um simulacro de sentimentos que,
conservados em formol,
já não a mim pertenciam.
Me lembro dos olhos…
Fixei-me neles,
e eles, em mim.
Perfuraram-me,
qual duas lanças de ferro;
contemplei-os
e, em reciprocidade,
os perfurei também.
Perfuramo-nos.
Perfuramo-nos tão profundamente,
de forma tal,
que nossos espíritos foram tocados
por essas lanças de ferro,
que chocaram-se,
contorceram-se
e, entre si,
entrelaçaram-se,
qual dedos emaranhados
de mãos dadas uma à outra.
Ela esperava-me, ao pôr-do-sol,
na entrada do campo das Almas-Mortas,
todos os Dias de Março.
A moça
— o Raio de Sol —
veio até mim.
Beijei-lhe as mãos.
Me falou coisas de amor.
Temeroso, disse a ela que não.
Disse a ela que este coração,
consumido e enfastiado
não tinha, ainda,
tempo ou forças
para as coisas do amor.
Foi assim,
ouvindo minha asinina razão,
que me quedei friolento e ressequido.
Vi-a partir.
Assim, foi-se meu Raio de Sol,
por dentre as nuvens de Março;
secou-se minha Água Sagrada,
dispersa aos ventos do tempo…
… Perdurou-se, isso,
por doze estações.
Tais são os Dias de Março…

Me lembro dos Dias de Março…
Me lembro da Cidade Capital…
Me lembro da Rua do Desconsolo,
do caminho que fazia
até a destinação final,
o campo florido de Almas-Mortas.
Tornei, novamente, a procurar
pelos Raios de Sol, que me iluminavam
os Dias de Março,
trazendo-me cor e luz,
que já não via,
há tempos, em minha clausura,
porém, em vãos esforços
— olhei através vitral da sombria abadia
abetumada, lúgubre, escura,
não mais encontrei aquele sol brilhante,
que, através dos vitrais,
refletia várias cores,
qual sagrado caleidoscópio alegre,
mas uma meia-treva,
sujo e árido brilho insípido,
morrediço,
encardido,
amarelado,
faminto,
nublado,
alvacento,
feio.
tornou-se, o Raio de Sol,
propositadamente,
em Lume Mortiço.
Descaído, gris e lastimoso,
qual uma lua em quarto minguante,
um brilho sem luz própria,
indolente e autossatisfeito
— burlesco em sua vaidade;
turvo em sua pouca luz. —
E, mais uma vez,
tornei a buscar a Água Sagrada
porém, em árido labor
—aquela Água Sagrada,
que, outrora, removia-me
da pele, carne e alma,
aquele velho ranço
acumulado em tempos de clausura
numa escura e mofada cela sem grades,
evaporou-se
deixando, atrás de si
não mais do que lodo,
asqueroso e peçonhento,
que não vale escarro! — .
Já não mais eram Águas,
tampouco Sagradas,
tinham, agora,
sabor e aroma de absinto
e, com semelhante substância
e semelhante peçonha,
mais ressecavam do que banhavam,
mais maculavam do que ungiam,
e semelhante náusea causavam.
Como que num Sonho de Outono,
tudo floresceu e definhou em Dias de Março!
Me lembro, então,
dos Dias de Março…
Me lembro da Cidade Capital…
Me lembro da Rua do Desconsolo,
do caminho que fazia
até a destinação final,
o campo florido de Almas-Mortas
— e sei que, lá,
não tenho mais a colher. —
Assim, se foram os Dias de Março.

(Originalmente escrito em 8 de Março de 2017)

)

Guto Gushek

Written by

Uma cálida alma vermelha nesses dias frios dum inverno sem fim. Uma luz que nunca se apaga.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade