Véspera

É véspera do solstício.
O solo verde será arado,
Não mais por servo marcado;
Mas lavrado sem silício.

Quê quereis, não é d’agora?
— Ouves a chuva lá fora? —
Traz, enfim, pois, a véspera da primavera!
Banha-te à chuva, que veio em boa hora!
No inverno, quantas mil vãs esperanças tivera?

É a véspera do solstício!
Que a chuva rubra,
Toda terra cubra!
Cerra os céus desse confim,
Ó água sagrada!
Berra o fel cor de carmim,
Feroz, desgrenhada!
Ressoa teu trovão,
Com seu brilho robusto;
Alastra teu brandão,
Queima a carne do injusto!

É a véspera do solstício.
Ressoa grande e bravo brado
Nas favelas, no campo, no paiol,
Escutai àquela voz!
—Não mais existência mísera! —
Empunheis a escopeta e o terçado,
Feitos de aço e luz do sol,
Seja rasgada a carne do algoz,
Se lhes cortem gargantas e vísceras!

É a véspera do solstício.
É a alforria do silício.
É o termo do suplício.
É o galardão de sacrifícios.