A ostentação da pobreza

Ostentação, consumismo, poluição, uma vida voltada cegamente para o mercado de trabalho. Ah, cruel mundo este em que vivemos…

…Mas calma!

Antes de mais nada, ser um defensor da liberdade em tempos de majoritária esquerda é sempre complicado. Agora, ser um defensor do capitalismo e ainda assim proteger a sobriedade do consumo básico, da vida simples, do gasto necessário, até parece loucura, e muitas vezes é.

Por esse motivo, não me são poupadas críticas de ambos os lados, mas isso não me exime da obrigação que sinto em compartilhar desta opinião, tendo em vista que alguns poucos malucos ainda concordam comigo.

Caminhamos sobre gelo fino quando tratamos dos vícios a que nos expõe o capitalismo, e sim, a liberdade nos expõe a vícios. Esse é o grande dilema da liberdade, da vida, do universo e tudo mais.

Quando saímos de casa sozinhos, pela primeira vez, com o aval de nossos pais, temos opção de fazer todas aquelas coisas deliciosas que eles jamais aprovariam. Optar por fazer ou não, é uma questão interna, mas a saída é inquestionável. A liberdade é inquestionável.

Ok, trazendo o papo para o capitalismo malvadão, selvagem, monstro da lagoa, o que me difere de um comunista qualquer, neste ponto, é o simples fato de eu acreditar que você cair ou não em um destes vícios capitais, não é culpa de ninguém senão sua. Hoje, temos mercado para tudo e informação suficiente para que você deixe de estar, o quanto antes, sob a tutela de alguém, seja de seus pais ou, principalmente, do Estado.

Você (e seus problemas com liberdade) não é culpa de ninguém não, só sua!

Deste modo, se você cair em tentação (mais livrai-nos do crediário, amém) e se tornar um consumista inveterado, não caia também na tentação de entender que o mundo precisa de leis anticonsumo, aliás, o que o mundo menos precisa nesse momento, são leis. Já existem leis obrigando que as leis que criam leis sejam cumpridas quando tornarem-se leis. E por aí vai. É como um filho que não faz tarefa e pede para que o pai o castigue de alguma maneira, afinal, papai, “pode ser que assim eu resolva fazer certinho na próxima vez!”

O José Mujica, ex-presidente uruguaio, defensor da esquerda, infelizmente, mas sem dúvida um humano de grande valor mesmo para a Direita (e portanto peço que não me critiquem apenas por citá-lo, pois seria infantilóide demais), ensina, em outras palavras, o que os defensores do capitalismo ficam temerosos em revelar, mas que precisa ser escancarado neste novo capitalismo que no momento apenas começamos a viver:

O consumo é necessário, o consumismo, NÃO.

A ostentação, a gourmetização desenfreada, a pulseirinha de camarotchxy… Isso tudo vai bem, até a página três. A paleta de cores do capitalismo atual já não é mais rosa choque. É bem mais pastel. O humano caminha para ser menos Vera Loyola de Mercedes na Daslu, e mais qualquer mochileiro que, pelo Airbnb, está em um café em Amsterdam, que ele não se lembra qual, mas é onde comeu o melhor bolinho de “chocolate” da vida dele. Caminhamos para o capitalismo de todos SIM. Ser contra isso é cair de braços abertos nas teorias da esquerda. É dar, de mão beijada, o terreno certo para o plantio de um bolivarianismo qualquer, é pedir para que o pai intervenha.

Claro, este texto não é uma obrigação. Não é uma lei, imposição de nada. Nem cagador de regra ele é. Ele é apenas uma visão, um ponto de vista. Você pode até optar pelo Loyolismo se quiser, o mundo é livre para isso ainda! Mas abrir os olhos para novas opiniões nunca é demais. Ainda que elas não lhe sirvam para nada.

Para finalizar, é preciso deixar claro que tudo isso serve apenas para mais uma reflexão que somente a liberdade nos permite possuir:

Existem várias definições do que é ser pobre. A maioria delas envolve a obrigatoriedade de se viver com muito pouco, e embora as pessoas desconheçam que a maior de todas consiste na obrigação de se viver com muito, a única riqueza existe na liberdade de se ter muito, e ainda assim optar por viver com pouco.

Somente o necessário, menino Mogli, somente o necessário.

Como dizia Mujica, “não se trata de uma apologia à pobreza, mas de uma apologia a sobriedade”. Afinal, não há nada mais pobre que a ostentação.