Vingança.2

Era uma planície marrom, estéril, invadida por formações alienígenas que um dia já tinham sido pequenas árvores do campo. Agora todas estavam retorcidas, secas e mortas. A fumaça era permanente naquele ar. Sua visão, seu cheiro e seu gosto dominavam a paisagem.

Esses eram os campos de Isvalem. Ou melhor, como eles ficaram depois da grande batalha que levou a vida de milhares de homens e da terra daquele lugar. Antes Isvalem era cercada por pradarias e bosques que se estendiam até o sudeste, onde encontravam manguezais e o Mar do Leste.

Um cemitério colossal, uma ode a guerra e a morte, bem ali em uma das regiões mais ricas de Tarth.

Annabele caminhou por horas naquela imensidão apocalíptica, desnorteada pelo tamanho da destruição. Ela esperava que uma hora aquele deserto forjado com sangue iria acabar, só não sabia que demoraria tanto. A capacidade de destruição dos homens de Tarth nunca parava de surpreendê-la.

Seu pai tinha morrido ali, mais um entre milhares de guerreiros que deixaram seus lares e famílias para lutar por uma causa tão distante deles quanto as estrelas. Sua raiva pelos poucos poderosos, que controlavam a vida de muitos como simples peças em um tabuleiro mórbido, aumentou ainda mais.

Ela ajoelhou-se naquela mistura estranha entre cinzas, grama e lama. Seus olhos tomaram o formato de duas luas cheias, as veias de seu pescoço tão inchadas que pareciam pequenos seres tentando fugir do seu corpo, o canto da boca feito um redemoinho. Finalmente as lágrimas vieram. Um grito de raiva. Um uivo violento, longo e solitário, a única descarga emocional que ela precisava. Os moradores de Askoth, uma vila próxima aos Campos da Morte, acharam que uma nova e perigosa besta estava residindo nos bosques. De certa forma eles não estavam errados.

Annabele, completamente desprovida de energia, adormeceu naquele lugar tétrico. Pela manhã sentia-se renovada, a raiva pode ser um combustível muito eficiente para o ser humano.

Seu próxima passo era coletar informações sobre a Batalha de Isvalem e a Guerra da Torre Laranja. Ela conhecia os principais senhores envolvidos no conflito, porém queria mais. Queria o nome de seus generais, principais aliados e braços direitos. E, principalmente, queria descobrir quem era o homem cinza que cuidava do recrutamento de homens para o Barão Zodus, aquele homem que tinha negado o pedido de seu pai para ficar com a família em Licam. O homem que tinha ameaçado toda a família da Von Drustfuss caso ele não ergue-se seu machado pelo Barão.

Esse era o homem que ela iria matar primeiro.

Feito uma fera artrosiana de guerra, pronta para causar dor e pânico, Annabele seguiu para Askoth empunhando sua espada descomunal, a mão segurando o cabo com fúria, como se compartilhando toda a raiva e energia destrutiva que elas estavam prestes a descarregar naquele mundo.

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