Anotações sobre o fenômeno Bolsonaro.

Faz algum tempo que leio artigos sobre os fenômenos como o “Bolsonaro”. Por que? Este é considerado uma dos símbolos do pessoal que se autodefine como “de direita” e muitos dos meus amigos simpatizam com as ideias expressas pelo Deputado Jair Bolsonaro. Apesar de considerar que as minhas opiniões políticas tendem à direita, eu nunca consegui compartilhar com os meus amigos o sentimento de admiração pelo Bolsonaro, em partes, porque eu não consigo observar no projeto político dele (se é que ele tem um) as ideias dos chamados “liberal-conservatives” que existem na “direita” em democracias liberais de países desenvolvidos.

Que parada é liberal-conservatives? É uma vertente político-ideológica que combina teoria liberal econômica e social com aspectos conservadores no que diz respeito a política. Eu acho um termo de difícil tradução para o português, porém o filosófo Luiz Felipe Pondé ofereceu “direita-liberal” e o fundador do MBL ofereceu “direita transante” como opções de tradução. Em geral, eles defendem o império da lei, a propriedade privada, economia de mercado, individualismo, responsabilidade individual, mudanças através das instituições e não apesar das instituições, uma certa suspeita em relação ao populismo e à tirania da maioria. Leia Edmund Burke e Alexis de Tocqueville para saber mais sobre o assunto.

Voltando ao deputado Bolsonaro. O Instituto Liberal (IL) se descreve como “uma instituição voltada para a pesquisa, produção e divulgação de idéias, teorias e conceitos que revelam as vantagens de uma sociedade organizada com base em uma ordem liberal”. Muitos o consideram como uma organização à direita do espectro político. O estudante Juan Sperandio Teixeira publicou um texto muito interessante, no IL, sobre o “fenômeno Jair Bolsonaro”, no qual ele tenta responder à seguinte pergunta “Por que os liberais não deveriam apoiar Jair Bolsonaro?”

Como o próprio texto do estudante deixa claro, o deputado é uma contradição política ambulante, por exemplo: ele afirma ser defensor da sociedade de mercado, mas ao mesmo tempo vota contra as privatizações de estatais. Além disso, ele é contrário a adoção de crianças por casais gays, o que entra em choque com essa “direita transante”, que apoia a defesa de liberdade individual e de uma menor intervenção do Estado na vida privada do indivíduo.

Tipos como Bolsonaro parecem ser sintomas de um descontentamento por parte da população com uma oposição que não expressa críticas contundentes e com os líderes políticos tradicionais, bem como um sintoma de um país cuja história política recente tornou “ser direita” algo negativo e que não tem uma bibliografia sólida sobre o pensamento político-ideológico do que é se conservador. Além disso, o Brasil é um país subdesenvolvido, estes tem uma tendência a curtir líderes políticos fortes, populistas, que “colocam ordem nas coisas” e centralizam o poder neles. Acredito que com o amadurecimento da democracia e com a prática dos livre debate de ideias, o Brasil vai conseguir desenvolver uma direita-liberal mais sólida. O princípio disso já ocorre hoje, veja, por exemplo, o sucesso do Movimento Brasil Livre entre o público jovem.

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Links sobre o assunto:

Luiz Felipe Pondé — Sobre conservadorismo
Luiz Felipe Pondé — O conservadorismo é a melhor forma de levar a vida?
Luiz Felipe Pondé — A nova direita
Juan Sperandio Teixeira — Por que os liberais não deveraim apoiar Jair Bolsonaro?