Ganhei uma formiga

Era madrugada

Voltando pra casa

Sozinha e cansada

Sentada esperando

no terminal

Escutando uma música

pro tempo passar logo

Quando de repente

Eis que surge

um moço(nem tão moço assim)

Senta próximo a mim

Desconfiei

Já veio falando,

cumprimentou

Perguntou do ônibus

Não sabia

Ele tava cansado

com uma bolsa grande

Onde carregava seu trabalho

Começou a contar

Tinha muito apreço

Mexia com arame

e com o que casasse junto

sementes, por exemplo

Mas mexia lindamente

Lembro de um homem de arame

Que coisa bonita!

Me arrependo de não ter falado

O homenzinho passava uma magia

daquela arte toda

Era o companheiro dele até

Tinha muito apreço

Falou da vida

De como era difícil

E de como ele amava

Fazia o que amava

E aguentava as consequências disso

Era andante

não lembro se tinha um lugar

Mas tinha um brilho no olho

De gente sincera

Mas eu, eu demorei a entender isso

Fiquei desconfiada a falança quase toda

Perdi muitos detalhes com certeza

Mas mesmo assim ficou a figura daquele homem

Já muito maltratado pela vida, mas de um amor

por ela, e por tudo

Foi então que,

quando estava mostrando seu trabalho

pegou uma formiga que tinha feito

arame e semente

e perguntou:

— Você já ganhou uma formiga?

Eu, desconfiada, de sorriso sem graça, disse, não…

— Pois agora você vai lembrar de mim pra sempre

Eu vou ser a única pessoa que vai ter te dado

uma formiga, e você vai poder falar isso.

Eu aceitei, sorri bonito agora(mas ainda desconfiada)

Falou muito ainda da vida

Se não fosse tanta desconfiança…lembrava mais…

E o nome dele?

Ícaro! igual aquele sonhador que fez sapatos com asas…

Achei uma bela ironia.

Quando meu ônibus chegou, ele ainda ao meu lado

falando e comendo

Me despedi falando bem o seu nome,

queria que ele soubesse que iria me lembrar…

(já não estava tão desconfiada)

E vim embora, com aquela sensação —

— o universo me deu uma formiga!

não é toda madrugada que isso acontece.

Até hoje não sei muito bem o que fazer com isso;

aí escrevo.

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