Quem sou eu no mundo virtual? Como o eu é construido? A partir de que material imaginário eu começo a escolher os símbolos que determinarão a aparência do avatar, skin, cor de pele, cabelo, estilo de roupa, maquiagem, linguagem escrita, gírias, modo de escrever as risadas, locais que frequento, pessoas que escolho para conversar…?
Há o senso comum de que no mundo virtual simplesmente escolhemos ser aquilo que não podemos ser no mundo físico. Mas em poucas conversas pelo Baixo Cidade descubro que não é bem assim. Por isso decidi recorrer à filosofia e psicanálise para investigar essa questão, mesmo admitindo minha pouca bagagem na segunda área. Também não me incomodarei com a repetição excessiva de palavras como “eu” e “outro”.
Para entender como construímos nosso eu no mundo virtual, é preciso retornarmos à compreensão da construção do eu no físico. Afinal, o virtual não se trata de algo oposto ou desconexo do real, como já foi esclarecido no artigo Vida virtual… existe?, e sim uma força vital que faz parte e interage com aquilo que chamamos de real. Chamaremos este real de “mundo físico”.
Vamos recorrer a teoria do psicanalista Lacan para entender como formamos o eu. Não pretendo me aprofundar na teoria lacaniana (ai de mim se tentasse), mas procuro ser compreensível nos conceitos básicos.
“Eu é sempre eu sendo olhado por outro” — Lacan
O que isso quer dizer? O eu se constrói a partir do olhar do outro, principalmente da imagem que lhe é devolvida pelo semelhante. Ou seja, a partir do momento em que ouvirmos de nossos pais “você é isto” ou “não faça isso”, começamos a formação do eu. Essa imagem devolvida pelo outro vai parar no inconsciente, onde ruminará durante toda a nossa vida uma tentativa de atingir as expectativas daquilo que o outro (nesse caso, papai e mamãe) gostaria que fôssemos. Ou, em caso de uma imagem negativa dada pelo outro, tentaremos sempre superar essa imagem para que o outro nos veja como eles gostariam de nos ver, já que uma imagem negativa é formada no outro porque os desagradamos de alguma forma.
O outro é o eu ideal. Ou seja, nossa compreensão do outro é baseada na nossa percepção sobre o desejo do outro a nosso respeito. Passamos a vida toda tentando moldar nosso eu real à imagem e semelhança desse eu ideal que mamãe e papai querem que sejamos (bonito, bacana, inteligente) que são significantes que veiculam o desejo do outro.
O resultado é que o eu raramente se sentirá à altura do que o eu ideal lhe manda ser, daí a baixa autoestima.
Outro fator de influência na formação do eu, é o pequeno outro. Ele pode ocupar o lugar de eu ideal com que o eu se compara e rivaliza, ou seja, uma imagem idealizada do eu que encontramos em algum colega que admiramos e invejamos. Desconhecemos que o outro é a projeção de seu eu ideal e, para se livrar de sua baixa autoestima em relação a ele, entra numa luta de puro prestígio com ele.
Em suma, nossa vida é uma busca por moldar nosso eu àquilo que o outro espera que sejamos. Em um relacionamento amoroso, no trabalho, nas amizades, na família. Nossas escolhas são baseadas na tentativa de corresponder expectativas do outro a nosso respeito. Em segunda instância, estamos competindo, admirando e invejando o pequeno outro, que são pessoas em quem projetamos o eu idealizado. Ou seja, a pessoa que a nossos olhos são tudo o que papai e mamãe queriam que fôssemos.
Construção do eu virtual no Baixo Cidade
Agora retornamos à pergunta inicial: E no mundo virtual? No Baixo Cidade? Como se dá a construção do Eu Virtual? Seria ele uma projeção do eu ideal? Nesse pressuposto, nossos avatares são um símbolo que representa tudo o que gostaríamos de ter sido no mundo físico. Crescemos tentando ser, por exemplo, capazes, bonitos, bem-sucedidos, ricos, devido o desejo dos nossos pais. Então projetamos isso sobre o eu virtual, que terá essas características.
Mas também pode ser que o eu virtual é uma tentativa inconsciente de romper com todas essas percepções, um desejo de nos livrar do desejo dos outros a nosso respeito, e criar um novo eu ideal, independente de qualquer influência. Inovamos e tentamos ser algo que nunca imaginamos e ninguém nunca quis para nós. Ou algo que temos curiosidade. Por exemplo, uma mulher cria um avatar como prostituta, apenas como curiosidade, e acaba gostando (isso virá a ter relação com a teoria lacaniana sobre o corpo e o gozo, que pretendo abordar futuramente).
Porém, em ambos os casos, estamos fadados a fracassar, pois nos damos conta tardiamente que o mundo virtual é uma mini-sociedade composta por outros, inclusive com símbolos de autoridade, família e disputa por status social. Os outros que fazem parte dessa mini-sociedade também tem desejos a nosso respeito.
Quando nosso avatar no Baixo Cidade nasce, ele é básico, ou seja, sem as opções de vip para nos embelezarmos de acordo com os padrões dessa sociedade virtual. Nosso primeiro contato com o eu já se dá através do estádio do espelho, que é a fase da criança em que ela se depara com sua imagem e se relaciona com o eu imaginário. Nosso avatar básico é um símbolo. Olhamos os avatares vips, que são outros símbolos com significados diferentes — status e beleza, são desejados. Os avatares básicos (e ervilhas) são feios, as roupas são feias, as danças são feias (não seriam considerados feios caso não houvesse as opções vips). É aqui que também Lacan diria que desejamos aquilo que o outro deseja. E ninguém deseja os ervilhas com visual básico.
Nossa derrocada na liberdade da influência do outro na criação do eu virtual começa no primeiro contato com os avatares. Os vips, que tem o papel de pequeno outro, se encarregam de competir com o eu virtual. Já possuímos um eu virtual ideal, que será comparado com o outro virtual, resultando na baixa autoestima virtual. Se queremos ser alguém no mundo virtual, iremos projetar o eu no pequeno outro. E aí começam nossos objetivos no jogo. Competição, inveja, rusgas, fofocas, entre outras consequências surgirão.
À primeira vista, alguns simplesmente são o mesmo que são no mundo físico, outros criam uma personalidade “diferente” no jogo. Porém não é possível que nenhuma das duas coisas ocorram. No primeiro caso, não podemos escapar do olhar do outro virtual. Desejaremos o que o outro deseja, e o outro deseja aquilo que existe apenas no mundo 3D. Ou seja, teremos que nos adaptar para novos objetivos. Nisso, o eu virtual já começa a se diferir do eu real. No segundo caso, não é possível criar uma personalidade totalmente dissociada do olhar do outro no mundo real, pois já começamos o jogo com a expectativa de realizar fantasias já existentes em nosso imaginário e em nosso outro ideal que carregamos no mundo físico. Ou seja, se dizemos que criamos uma personalidade diferente da real, significa apenas que estamos manifestando uma personalidade ruminada no inconsciente e mascarada por personas.
Sintetizando, o eu virtual sofrerá influencias em duas fases: na decisão de jogar (expectativa) e no primeiro contato com a realidade virtual (confronto).
O corpo virtual é importante nesse processo, pois o corpo é o agente do gozo. E existem muitas maneiras de obter o gozo (satisfação) no Baixo Cidade, mas o gozo sexual é obviamente o chamariz que nos trouxe ao jogo.
Podemos concluir então que toda a construção do eu virtual tem como meta o gozo, sendo se tornando uma prostituta, seja cansando-se com um cônjuge fiel. No final, todas as escolhas que fazemos termina com o gozo. Tudo é pelo gozo.
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