Famílias Virtuais

Por que criamos tantas delas?


(Artigo originalmente publicado na Conexão BC, uma revista eletrônica produzida pela comunidade do Baixo Cidade.)

Parece ser uma questão cultural no Brasil, de se criar famílias em praticamente toda rede de relacionamentos, onde o objetivo principal é a diversão e interação humana. Lugar este em que nos deparamos com as possibilidades de criação de fakes.

Desde a época do ICQ ou mesmo IRC já haviam famílias em grupos de chat que reuniam pessoas com algo em comum. Por exemplo, se uma sala de chat de fãs de animação japonesa ou de música de algum estilo específico, ultrapassava o número de 15 participantes frequentes, já se denominavam família, batizando-se com algum nome genérico que caracterizasse o elemento de afinidade daquele grupo.

Hoje, famílias se formam em qualquer comunidade virtual: redes sociais, jogos, salas de chat… Mas por que tanto desejo de se criar famílias virtuais?

Não é fácil encontrar uma filosofia sobre a família. Aparentemente, os filósofos ao longo da história se preocuparam com o cosmos, o microcosmo (alma humana), ética, sociedade, governo… Mas não houveram muitas questões sobre a família no pensamento crítico, salvo algumas exceções que procurei investigar.

A família pode parecer uma instituição muito normal para nós, algo que sempre existiu e sempre existirá. Mas não é bem assim. Na aurora da humanidade, éramos uma horda promíscua e incestuosa, na qual o macho dominante sobrepujava a mulher pela força. Não havia moral, lei ou ordem. Aos poucos, a organização trouxe normas e éticas — proibição do incesto e a criação dos laços consanguíneos baseados no respeito, laços afetivos. Com o tempo e a organização da sociedade, a família passou a desempenhar o papel de preparar o indivíduo para a vida social.

Ao mesmo tempo em que é na família que temos a percepção do Eu como indivíduo, também é na família que temos nossas primeiras experiências sociais, coletivas. É nesse ambiente que criamos laços afetivos, aprendemos a dividir, dialogar e compreendemos que o coletivo é mais importante que o indivíduo.

Também é na família que temos nosso primeiro contato com a autoridade. Entendemos que existem limites e não somos donos de nosso próprio destino.

Apesar disso, vivemos tempos de crise da instituição familiar. Como disse Tólstoi, “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. E é aqui que eu defendo uma filosofia da família: Por que e como essa crise iniciou-se? A Família ainda é necessária? Que modelo poderia substituí-la, caso ela não seja mais tão eficiente para os tempos contemporâneos?

Mas aqui vamos nos ater a outra questão bem específica: por que imitamos no mundo virtual, mais precisamente no Baixo Cidade, a ideia da Família?

Fernando Pessoa disse que “uma família não é um grupo de parentes; é mais do que a afinidade do sangue, deve ser também uma afinidade de temperamento. Um homem de gênio muitas vezes não tem família. Tem parentes.” Assim entendemos o conflito adolescente Família x Amigos. Quem nunca teve amigos, namorado(a) ou pertenceu a grupos sem ter a aprovação dos pais, ou que pelo menos fosse muito diferente do modo familiar de pensar? Isso ocorre porque, a certa idade, queremos escolher com quem estaremos. E escolhemos através de afinidades, gostos, personalidade. Em muitos casos, os adolescentes apenas permanecem em suas famílias porque simplesmente não podem deixá-las. Mas houve tempos em que era comum aos treze anos construir sua própria família.

E o que seria construir uma família senão uma forma de querer fazer tudo do seu próprio jeito, com quem gosta, ao invés de pertencer a um grupo que não podemos escolher? Afinal, família não se escolhe. Mas escolhemos alguém para nos casar e construir uma família do jeito que queremos.

Isso explica porque gostamos de criar e fazer parte de famílias virtuais. Podem reparar: todas as famílias no Baixo Cidade, assim como as famílias de animação japonesa e música, mencionadas no início desta matéria, são unidas por um tema ou uma ideologia, com o qual os membros se identificam. É a afinidade de gostos pessoais que constrói os laços afetivos, ao invés da afinidade do sangue que nos impõe um convívio muitas vezes sacrificial.

Também no Baixo Cidade, ao frequentar uma família, nos deparamos com novas experiências sociais, contato com uma nova ética, moral e formas de autoridade que representam determinadas regras, adaptadas para o mundo virtual. Como a família biológica tem o papel de nos preparar para a vida social, as famílias no Baixo Cidade visam um exercício de interação, promovendo formas de fazer amizades e se divertir. Muitas famílias ensinam os membros a serem decoradores, designes e Dj’s (profissões possíveis no Baixo Cidade), assim como as famílias biológica são responsáveis pela educação e futura vida profissional dos seus filhos.

As famílias muitas vezes são criadas por pessoas mais experientes, e desempenharão o mesmo papel de ensinar-nos algo sobre interação social, moral e disciplina.

Por esses motivos, encare as famílias do Baixo Cidade com certa seriedade, porém não excessiva. Como o jogo propõe a simulação de uma vida que sonhamos, porque não simularmos também a família que sempre quisemos ter? Podemos escolher a família ideal de acordo com nossas afinidades e gostos pessoais ou ideologias. Mas não se engane, nenhuma família será perfeita, afinal são seres humanos controlando avatares. Portanto, conheça bem a família em questão, seus membros, líderes, regras, filosofias, objetivos, forma de pensar, como se portam no mundo 3D.

Conhecer os líderes e o fundador é muito importante, pois quem cria uma família, nela reflete sua própria personalidade e modo de pensar, tal como os pais biológicos fazem em suas casas. Talvez seja por isso que criamos famílias: queremos projetar nelas nosso Eu.

“Amigos são a família que nos permitiram escolher.” ―William Shakespeare

Email me when Azumi publishes or recommends stories