Para todo discurso, encenação, ação e acontecimento há um espectador, há uma plateia que, por vezes, parece não existir, mas está ali e é extremamente observadora. — Vitor Lima
O filósofo Foucault descreveu o sistema panótico, uma “máquina” onde pessoas de diferentes grupos — trabalhadores, presos, loucos, estudantes — são separados em células em um pátio circular, em cujo centro se ergue uma torre. Nessa torre, alguém vigia sem ser visto, dela é possível ver tudo o que acontece. A sensação de ser observado faz com que o indivíduo adote normas e condutas que não ultrapassem o “aceitável. “Um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder”.
Para Foucault, é mais barato vigiar do que punir. O conceito panóptico se espalha pela sociedade. No trabalho, todos são vigiados, sem saber mas sempre com essa sensação, portanto mantém a conduta ideal que se espera de um trabalhador. Se trata de um processo de adestramento.
O panoptismo se torna um “mecanismo ideal de poder”, criador de uma sociedade disciplinar e auto-regulamentadora. Essa ideia foi muito aproveitada em filmes e séries. Um exemplo é a série Persons Unknown, em que pessoas foram levadas à uma cidade-prisão, onde são alojadas em quartos separados e observados sem saber por quem, sendo forçados a seguir as regras do jogo. Jigsaw, da série Jogos Mortais também faz uso do panoptismo, mas em uma mistura entre punição e vigilância.

No contexto social, o panoptismo se dá através dos discursos, que também foi um tema abordado por Foucault. Esses discursos são controlados pela sociedade, através de agentes de poder, tais como livros, instituições de educação, religiões, política e (acrescento, embora o panoptismo levou Foucault a negar a sociedade do espetáculo) o mundo do entretenimento — os ídolos.
Os discursos possuem normas, concepções, regras de conduta que “moldam” o sujeito, afim de instaurar uma verdade. Dessa forma, os locais da sociedade, como escolas, hospitais, templos, etc, se parecem com prisões em que as grades são as normas, os dogmas (crença indiscutível e inquestionável), levando as pessoas a agirem e se enquadrarem de acordo com tais regras. Porém, devido ao adestramento da máquina panacóptica da sociedade, o sujeito está tão acostumado com os costumes que não se dá conta que está sendo controlado.
E o que isso tem a ver com o panoptismo? Nesse contexto, a vigilância ocorre por todos os lados e de lado algum. Todos policiam todos. Desde o vizinho ao colega de trabalho; os professores e líderes religiosos; os vendedores do mercado e os que se assentam à toa nas calçadas; estão o tempo todo observando, policiando, vigiando. O menor deslize de conduta que fuja dos padrões do discurso, uma “denúncia” é feita. Aqueles que não se enquadram nesse discurso limitador, que dita o que se pode ou não fazer e dizer, são excluídos, marginalizados, demitidos, expulsos de seus contextos sociais e grupos dos quais fazem parte.
Daí enfrentamos a problemática da reputação, que em nossa sociedade é uma moeda valiosa, uma riqueza que leva-se anos para acumular. Tal riqueza é frágil a ponto de ser destruída facilmente, e a chantagem emocional vigente na sociedade é que aqueles que não seguem o discurso, perderão sua reputação, sendo expostos publicamente a injúrias, infâmias, calúnias e fofocas.
Devemos observar que todo discurso é construído através de legislações, sejam de ordem política, social ou religiosa, e não podem ser separados de seus respectivos contextos. Os discursos mudam com o tempo, de acordo com os interesses de quem os controlam, e de acordo com a mentalidade e comportamento das pessoas que se deseja controlar. Ou seja, não há discurso, lei, regra, moral ou dogma como verdades absolutas. Todos esses conceitos são construídos, manipulados, alterados e reconstruídos ao passar do tempo.
No mundo 3D do Baixo Cidade, devido a ausência da lei e governo tal qual conhecemos na sociedade, nos dá uma ideia de algo de anarquia. Governo e o poder legislativo muitas vezes pode ser o portador de discursos mais poderosos e maior poder de vigilância. Em outra camada, o poder religioso controla boa parte dos discursos relativos à moral, porém no Baixo Cidade essas instituições tem baixa aceitação e pouca representatividade.
Ainda assim, a ausência destes no Baixo Cidade não impede que outras instituições imponham seus discursos aos “habitantes” do mundo 3D, pois surgem outros agentes regulamentadores para ocupar o lugar na torre da máquina panóptica. Estes são as famílias, os indivíduos que detém o poder da devoção dos jogadores (DJs, decoradores, designers, formadores de opinião), pessoas articuladas e com vasta rede de contatos, guias e o suporte (este último com o maior dos poderes, o poder de banir pessoas do mundo 3D, uma espécie de limbo, o isolamento total que muitos gostariam que existisse no mundo real).
Atualmente no mundo 3D os detentores do discurso tem uma forte influência das morais da sociedade brasileira, com valores e princípios cristãos (mesmo que muitos sejam ateus), forte moral principalmente relativa ao comportamento sexual. Aqui também a mulher é vítima do discurso machista — mulheres devem ser fieis, submissas e manter relações com apenas uma pessoa para que não seja considerada puta.
A vigilância ocorre da mesma forma que no mundo físico, com a diferencia de que no mundo 3D, podemos ver através da lista de amigos o nome dos locais onde os amigos estão. No Baixo Cidade, os locais costumam ter nomes descritivos para atrair os interessados. Portanto, para ir a um local de nome vulgar ou que sugira a violação dos “bons costumes morais”, é necessário ligar o modo “off line”, para não ter seu nome visualizado na lista dos seus amigos.
O papel de vigilantes também é usado como moeda de troca. Um indivíduo pode vigiar o namorado de sua amiga, como prova de amizade e lealdade. Isso tem se tornado tão comum que o panoptismo não necessita mais de uma torre de vigia no centro da prisão, pois todos os prisioneiros acabam por vigiar um ao outro, instaurando uma paranóia coletiva de medo e insegurança nos relacionamentos.
Há um outro discurso no Baixo Cidade favorável à liberdade, permissivo, anárquico e desprovido da moral herdada da sociedade brasileira. Porém, , este vem perdendo força nos últimos anos, ironicamente, em um jogo cuja proposta é a realização de toda as fantasias dos jogadores. Afinal, muitos procuram no mundo 3D uma fuga da grande máquina panóptica que é nossa sociedade no mundo físico, e, como disse uma amiga, procuram no virtual uma forma não de expiação dos pecados, mas sim para cometê-los.
Seria hipocrisia dizer que aqueles que vigiam, não cometem deslizes dentro de seus dogmas e moralismos. É sintomático que os vigilantes tenham tanto medo de serem expostos nos mesmos “erros” que costumam denunciar a respeito dos outros. E para quem eles expõe? A única verdade é aquela que ninguém quer assumir: a torre de vigia está vazia e quem ergue as grades das prisões somos nós mesmos.
Nós somos os jovens que estão gritando Cheios de fúria, cheios de dúvidas E estamos violando todas as regras Nunca escolhendo sermos tolos — Peter Frampton
Referências: Vigiar e Punir — Foucault A Ordem do Discurso — Foucault
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