O Baixo Cidade, a Vida Perfeita e o Masoquismo existencial


“Realize suas fantasias”

Esse parece o slogan perfeito para oferecer uma vida perfeita a alguém.

Claro que tudo depende de contexto. Se esse slogan for acompanhado de uma cena de sexo, interpretaremos que a oferta se trata de realizar as fantasias sexuais. Mas se extraímos do contexto, podemos pensar nas fantasias mais genérica que temos. Riqueza, sexo, diversão, uma vida sem preocupações, muitos amigos, família feliz, casamento sem brigas, um mundo sem violência, sem morte, sem fome, sem miséria, sem políticos, sem guerras e injustiças.

Consideremos também o Second Life, que surgiu como proeminente jogo do mesmo gênero de simulador de realidade, impulsionado pela mídia com a premissa de que nele poderemos ser quem quisermos. Ser quem queremos é uma promessa que nos tenta a imaginar algum conceito de perfeição, realização de todos os sonhos e fantasias. O paraíso hedonista.

Um simples slogan parece prometer tudo isso. A vida perfeita. “Vida perfeita” é um pacote no qual cabe todas as maravilhas que imaginamos, mas sugere ainda coisas que não conseguimos pensar muito bem.

Como seria uma vida perfeita? E como seria viver esta vida?

Perfeição no pensamento grego

Bem, vamos começar com o pensamento grego, pois dele herdamos muita coisa. Platão construiu o mito da caverna para ilustrar a existencia de um plano superior, o mundo das ideias. Nessa teoria, o mundo material em que vivemos não passa de uma sombra, uma imitação tosca do que é perfeito, belo, e verdadeiro, o mundo das formas, o qual desconhecemos. No mito da caverna, estamos todos aprisionados em uma caverna escura e vendo sombras na parede. As sombras são aquilo que entendemos como nossa realidade. O conhecimento (filosofia) nos faz sair da caverna e encontrar a verdade, as verdadeiras formas. A perfeição utópica.

No século passado, os artistas utilizaram essa teoria para criar a arte abstrata, uma tentativa de acessar esse plano das ideias e perfeição através da arte. Esse movimento foi chamado de modernismo, e ainda hoje é usado em conceitos na comunicação e na Internet.

Tudo isso soa meio abstrato, e é assim mesmo. Podemos até comparar com o livro A Última Batalha, das Crônicas de Nárnia (C.S. Lewis), onde uma outra Nárnia se revela como o país perfeito, e a Nárnia que conhecemos não passa de seu reflexo em um vidro embaçado.

Seria o mundo virtual que conhecemos hoje uma tentativa de alcançar o mundo das ideias? Estaríamos caminhando para a criação de uma tecnologia que nos permita alcançar um suposto e desconhecido Verdadeiro Mundo Virtual (confira meu artigo sobre o que é o virtual e o real)?

Guardem esses pensamentos para adiante.

Perfeição no pensamento contemporâneo

Até aqui falamos sobre perfeição platônica (não é a toa que usamos o termo amor platônico para certas ocasiões). Mas o que é a perfeição nos dias de hoje? Vivemos em um mundo de pensamento capitalista, consumista, do culto à ostentação, fama, vaidade e luxuria. Digno da nossa sociedade do espetáculo. Hoje, a perfeição está muito mais atrelada a valores materiais e terrenos do que ao mundo das ideias. Queremos tudo o que nos dá prazer e conforto, e queremos agora! Não uma promessa no paraíso, mas aqui, hoje. É a vida que invejamos de famosos, milionários, reis e rainhas, vidas e ídolos que parecem tão perfeitos que ficamos indignados quando são pegos em algum escândalo, como se não fossem ações normais de qualquer ser humano. Até mesmo as religiões evangélicas atualmente tem prometido a prosperidade terrena.

Essa perfeição está também ligada à projeção que os pais fazem nos filhos, de acordo com psicanalistas como Freud, Jung e Lacan. Essas projeções ficam em nosso inconsciente durante toda nossa vida. Independente do sucesso ou fracasso de vida dos pais, eles projetarão seus próprios ideais em seus filhos. “Eu quero que meu filho seja famoso, bonito, atraente, feliz, tenha um bom emprego, uma boa esposa, uma família feliz”.

Ora, qual é o conceito de fama, beleza, atação, felicidade, bom emprego, boa esposa e de família feliz que será ensinado a essa criança? Obviamente os conceitos que os pais tem sobre esses assuntos. E esses conceitos são diretamente bombardeados pelos conceitos da mídia mercantilista controlada pela elite burguesa. Ou seja, a ideia de perfeição atualmente nos é vendida por propaganda. Sabem a família perfeita em uma manhã perfeita das propagandas de margarina?

Percebem um fio condutor no percurso da sua vida e na busca de seus objetivos?

A perfeição do mundo virtual

A promessa da vida virtual é de um mundo arquitetado e controlado para oferecer a perfeição segundo a nossa sociedade. Chegamos ao Baixo Cidade curiosos com a proposta de teor sexual (falarei mais sobre a falácia do Baixo Cidade e a as interações humanas futuramente), mas logo nos deparamos com muito mais possibilidades: famílias, dinheiro, mansões, ilhas, boates, ostentação, beleza (não há avatares fora dos padrões de beleza, salvo fantasias de personagens de terror e afins), trabalhos legais (DJ, estilista, designer, arquiteto).

Todos tem a vida de seus sonhos, porém depois de se conseguir todas essas coisas (que não é muito difícil), logo nos perguntamos: e agora, o que fazer?

Não nos contentamos em atingir nossos objetivos. Viver a vida perfeita (seja qual for a sua interpretação de perfeição) seria o fim da razão de continuar vivendo. Algo que não teria um objetivo a ser alcançado encerra em si mesmo seu propósito, sendo assim nosso encontro com a Felicidade, segundo Aristóteles, pois encerram- se todas as buscas. Ora, se não houver mais objetivo , acaba- se o jogo, zera-se a vida, como diria um gamer. Fica aquele vazio de falta de sentido, falta de propósito. O que nos moverá, nos fará viver, se alcançamos a perfeição?

“Ah, mas se alcançarmos a perfeição, podemos passar o resto da vida só aproveitando”, você me diria. Mas o que seria do gozo, considerado uma das melhores sensações da vida, se ele não fosse um instante de poucos segundos? Se desfrutássemos do gozo durante muito tempo (obviamente ignorando os fatores fisiológicos e o fato de que sentiríamos dor), aguentaríamos por muito tempo? Teria o mesmo valor?

“Gente nasceu para querer” Raul Seixas

Então, chegamos a um paradoxo: se alcançar a perfeição nos deixa insatisfeitos, já não há mais perfeição.

Então o que é realmente a perfeição?

O filme Matrix aborda a questão filosófica da incompatibilidade da natureza humana com a Perfeição. A Matrix em que Neo vivia estava em sua sexta versão. A primeira versão da Matrix era um mundo perfeito, e por isso muitos humanos morreram porque a mente humana não admite um mundo sem defeitos.

Se descartarmos o ideal platônico e percebermos o engodo paradoxal da perfeição de propaganda de margarina, que perfeição podemos conceber? O próprio ser humano é imperfeito, logo, incapaz de conceber o ideal de perfeição.

Então por que engolimos essa história de que a vida perfeita é algo metafísico ou são esses sonhos materiais como fama, dinheiro e sexo?

A não-aceitação da Matrix perfeita por parte da humanidade me leva a refletir sobre A Primeira Regra do Mago (premissa do livro homônimo de Terry Goodkind) que diz: “As pessoas são tolas. Com a motivação adequada, qualquer pessoa acredita em quase tudo. Porque são tolas, acreditam numa mentira porque querem acreditar.”

Então, segundo a primeira regra do mago, as pessoas acreditariam na Matrix perfeita caso quisessem, mas não poderiam viver com essa hiper-realidade, da qual não se distingue mais o real e o virtual. Nós acreditamos normalmente que não existe perfeição pois não há uma referencia em nós mesmos para conceber a perfeição além dos padrões que são vendidos pela sociedade. Aceitar a existência da perfeição é ter que encarar com culpa nossa própria imperfeição. A única solução para este problema é projetar a perfeição em um deus, o qual não se vê; logo a perfeição continua sendo abstrata e inalcançável.

O masoquismo existencial do mundo virtual.

Então, voltando ao Baixo Cidade, um protótipo de Matrix, quando atingimos nosso ideal de vida “perfeita” (seja sexo todos os dias, dinheiro, festas, boates, coleções de ilhas), vem o vazio. Entramos no paradoxo, não nos é possível aceitar tal vazio como perfeição, logo rejeitamos a ideia de que a perfeição exista. A solução, para evitar a busca de algo que não existe, pois se existir confronta nossa imperfeição, é transportar a imperfeição humana para dentro do mundo virtual. Daí temos inveja, ciúmes, cobiça, traições, ódio, e tudo de imperfeito que podemos produzir, dentro do suposto mundo ideal, que foi projetado para que não existissem tais coisas imperfeitas. Como na primeira versão da Matrix Perfeita, “morremos” dentro do mundo virtual diversas vezes, a cada final de objetivo; nos reinventamos, buscamos novas metas, e cada vez mais, simulamos a imperfeição do mundo físico, transformando o mundo 3D cada vez mais como a sexta versão da Matrix, o mundo tal qual é o nosso mundo de hoje, com todos os sofrimentos e decepções que nele existe.

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