Enquanto isso na Virada da Paulista

Era noite.
A praça já se enchia.
Gente gritando pra gente, esbarrando na gente, oferecendo pra gente.
Querendo vender a mercadoria.

Quantos rostos já passaram
Sem que eu pudesse perceber…
Quantas vezes já gritaram mesmo sem nada conseguir vender?

A vida se faz vazia
E às vezes engana a gente.
Nos faz pensar que por ‘falta de força de vontade’
Não merecemos uma vida decente.

O inadmissível retrato do real
Nos faz levar o peso da vida pro colchão.
E a voz que no quarto se cala aflita, já decorou.
“Olha a gelada e eu passo cartão”

Hoje deu pra comprar arroz.
Amanhã não sei não.
O importante é acordar cedo e vender bastante
Logo, antes de ser visto pela fiscalização.

Talvez essa seja a explicação
De que o futuro dos que esperam
Seja morrer com esperança;
Mas apenas para ‘não morrer em vão’.