Um rascunho de uma história de caminhoneiro.

Não estava tão frio, mesmo assim abaixou as mangas da camisa, para variar xadrez, fazia o estereotipo do caminhoneiro, e fazia porque não queria chamar atenção. Vestia um boné do time de futebol local o Paulista de Jundiaí, esperava no encostamento de uma avenida dentro de seu caminhão, um Volvo 540, de três eixos, herdou o carro de um tio, que a muito andava de um lado ao outro do país carregando soja.

Esperava quase dormindo no acostamento quando recebeu o chamado no nextel, uma voz com sono chamava:

_ Hei Robh pode vir estamos com a carga pronta pra você.

A voz que veio do celular entregava um homem de quase uns 40 anos que acabou de perceber que já no meio da vida ainda tinha que trabalhar de domingo, e se precisasse todos os dias da semana seguidos, ainda não tinha formado família, e estava triste consigo mesmo, e percebia que ali era seu futuro e seu limite. Roberto apenas ajeitou o boné, olhou ao horizonte, 6 hrs da manhã de um domingo o sol nascia aos pouquinhos atras das colinas manchando o céu de um laranja forte, era um dia lindo.

Ajustou uma fotografia colada ao lado do acelerador, ligou seu velho amigo e engatou a primeira, ele respondeu lhe dando um rugido, encaminhou para o portão da grande fábrica na mesma avenida, entrou de ré para pegar a carga, engatou ela com toda calma que aquele trabalho pedia, deu um meio sorriso ao homem que havia lhe chamado pelo celular.

_ Eu sei que é complicado Robh mas você disse que se aparecesse um trabalho do nada e que ninguém aceitasse eu poderia recorrer a você.

_ Marcos não precisa se desculpar, eu lhe pedi o serviço, eu sei disso e levarei esta carga em segurança não esquenta. — deu um aceno com o boné em direção daquele homem de pouco mais que um metro e meio, cabelos faltando na frente óculos e camisa de bolinhas pretas, a capa para revista empregado do mês.

_ Não sei porque não aceita trabalhar para nós, com você nunca tivemos problemas.

Roberto abaixou apenas seu boné na altura dos olhos e olhou em direção ao portão a sua frente. Não dando mais ouvidos ao homem de meia idade.

_ Tudo bem Robh entendi, até mais e boa sorte.

Roberto saiu buzinando com seu volvo carregando um tanque de soja com três.

Estava seguindo na estrada a alguns minutos, resolveu parar no primeiro posto de gasolina, para comprar cigarros e alguma coisa para comer, já eram 10 da manhã.

Parou em um posto ipiranga seu caminhão rangeu um pouco. Ao estacionar pagou um dinheiro para um garoto checar os pneus para ele e limpar o para-brisa, enquanto ia na loja de conveniência. Roberto era um homem alto, tinha um e noventa, a maioria das pessoas o viam olhando para cima, e quando levantavam o rosto viam uma barba por fazer meio grisalha, cabelos curtos pretos, e olhos serenos escuros, a imagem do queridinho das sociais. O garoto ouviu o que tinha que fazer e saiu em disparada em busca de um balde com suas canelas finas. Roberto caminhou para a loja de conveniência, aparentemente vazia a não ser por um senhor meio fora de seu peso ideal, de cabelos brancos e camisa xadrez, delatando sua profissão, Roberto entrou na loja se perguntando porque eram todos iguais. Pelo menos não era da mesma cor do que a do Roberto que era a clássica vermelho-escuro, enquanto a do velho era algo mais para sua idade, um beje envelhecido.

Andou até a sessão de congelados e sacou um engradado de cerveja. Foi até o estande de salgadinhos e puxou alguns de la com sua mãozorra, sua mão se deteve ao trazer os salgadinhos, percebeu que alguém estava lhe olhando dês de que entrara. Colocou as coisas dentro de um cestinho e olhou para o lado que sentia o olhar. Uma garotinha, em torno de dez anos, cabelos pretos amarrados em um rabo de cavalo, vestia um vestido azul, e chinelos de dedo, tinha em seu braço esquerdo uma marca roxa que cobria com uma das mãos, ela não parava de olhar diretamente para Robh. Ele notou como ela estava próxima do velho gordo que conversava alguma coisa com o caixa do estabelecimento gesticulando com uma das mãos e a outra segurando o ombro da menina.

_ … Vamos só um cigarro garoto. — dizia o velho, Robh percebeu ao se aproximar que o velho pelo tom de voz tentava ludibriar o garoto de pouco mais de 17 anos que estava ali atendendo naquela parada de caminhoneiros. Com certeza a troco de algum tipo de favor.

_ Eu não posso. — Respondia um adolescente com espinhas até onde a vista alcançava, camisa com o logo da loja de conveniência e um crachá escrito atendente sem foto.

Roberto se aproximou e se postou atrás do velho, seu tamanho em comparação ao senhor barrigudo era pelo menos o dobro, o senhor notou que a menina estava entretida com algo e seguiu o olhar dela, notando um homem de, pelo menos, o dobro de seu tamanho em altura e largura. O velho desistiu do cigarro fez um aceno ao garoto balançando a mão e saiu da loja puxando a garotinha e resmungando algo sobre como hoje tudo era na base da intimidação e como era absurdo a falta de respeito dos mais jovens. Robh deu um meio sorriso ao garoto para deixa lo a vontade, o mesmo pareceu relaxar. Pegou a cestinha da mão de Roberto, e foi passando no leitor de código de barras.

_ Sabe não é a primeira vez que ele me enche. — Robh levantou os olhos para o garoto que falava e tinha uma voz esganiçada, ele pensou que realmente deveria ser difícil impor respeito com aquela voz — este velho vem aqui, traz estas garotinhas consigo e quer dar lição de moral, infelizmente não posso fazer nada a respeito.

Robh já havia colocado metade de suas coisas em sacolas, e percebeu o silêncio que ficou no local, o garoto queria que ele disse se algo, que falasse algo reconfortante, mas ele, Robh, não queria isso. Ele só queria ir embora, só pensava em pegar seu salgadinho pular em seu caminhão e pegar a estrada rumo a Porto Alegre. Sabia que o caminho até o sul era árduo e não queria distrações. Para finalizar a conversa balançou os ombros para o garoto, pagou suas coisas e saiu sem dizer nada.

Caminhou da loja de conveniência até a porta de seu caminhão, e viu o garoto parado a porta com sorriso de orelha a orelha, o caminhão estava limpo e brilhando, deu um sorriso de volta em agradecimento, o garoto saiu correndo satisfeito.

Roberto estava com uma das mãos na porta quando ouviu um choro. Pelo tom, era da garotinha.

Ele não queria se envolver, lembrou de tudo que já havia passado, tentou lembrar de coisas para ver se aprendia com seus erros anteriores, abriu a porta do caminhão subiu os dois degraus que davam para a cabine, colocou suas comprar no banco do carona, e passou a mão na cara, olhou para a foto no painel.

Ali perto atrás da loja de conveniência, e um banheiro químico, o velho tentava atacar de todas as maneiras a garota, que retorcia, e agachava tentando fugir das mãos do velho que tentava lhe fazer algo que sua mente não entendia, porém seu corpo não gostava. O velho com um sorriso maldoso forçava os braços da garota a ficarem longe do corpo magrinho, e tentava a todo custo levantar seu pequeno vestido azul. Quando sentia que estava tentando um avanço, sentiu uma mão, pesada demais, grande pousar em seu ombro direito, tentou pular para trás para ver quem estava la, porém não conseguiu, a mão lhe forçava a permanecer no lugar, e apesar de ser uma única mão, não conseguia lutar contra, sentiu medo. A mão que estava apoiada em seu ombro direito apertou do nada, fazendo ele soltar a garota e dar um gemido de dor, em um piscar de olhos sentiu seus pés levitarem e já não tocava mais o chão, em alguns segundos bateu com o ombro direito no chão e sentiu o sangue escorrer pela camisa rasgada.

_ Quem é você seu maldito? — perguntou o velho caído no chão segurando o braço recém-machucado.

_ Não te interessa. — respondeu uma voz grave e sem sentimentos. O velho abaixou a cabeça e decidiu não olhar por alguns segundos com medo do que estivesse por vir. Ouviu alguns resmungos da garota ao longe, a mesma voz de antes disse algo para ela baixinho, ela chorou, e depois de um silêncio de alguns segundos que pareceram uma eternidade com seu braço doendo e o medo pelo corpo. Ouviu os passos da garotinha indo embora, a presença grande e assustadora se aproximou dele novamente.

Só quando sentiu que não havia mais nada ali, ele se deixou abrir os olhos, olhou em volta e se viu só, seu ombro sangrava muito, e viu um caminhão volvo com uma grande carga ir embora do posto de parada.

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