(Talvez)Aquele: Apaixonado pelo mar

Lá estava eu, parado, sentado à beira de uma “laje” do segundo andar de uma casa que não era minha, olhando para um horizonte coberto de fumaça, esperando algo, algo que não sabia o que era ou se viria naquela madrugada, acendo um cigarro e vejo as horas passarem, cada segundo eu vejo correr lentamente diante de meus olhos cansados.

Era cinco horas da manhã, meus olhos estavam cada vez mais abertos, esperando, observando.
 “Tic tac, tic tac, tic tac” o relógio corre, faz suas voltas infinitas perto de acabar, o fim que não tem começo, por algum motivo eu ouço o mar, coisa que nunca vi, ao menos senti.

Esperando, quase no limite de meu cansaço, no limite de minhas forças, estou indo embora, então emergindo das escadas surgi um homem, sua feição é um tanto preocupada, suas roupas eram casuais, um tênis qualquer surrado e sujo, sua calça jeans era cortada, rasgada, espancada, com machas de tinta, quase que uma explosão de sangue colorido, vermelho, amarelo, laranja, preto, cores mirabolantes que faziam morada em cada gota, sua blusa tinha as mangas arrancadas, talvez por raiva, talvez por culpa de um briga de rua, isso explicaria alguns hematomas em sua pele morena ou só talvez seja por conta do calor incessante desta cidade, ele olha em minha direção assustado e me pergunta:

-Ei amigo, você tem um cigarro para me dar?

-talvez eu tenha, mas antes de tudo, quero saber o que está te incomodando.

Ele caminha em minha direção e senta-se ao meu lado, retiro de meu singelo bolso da minha camisa quadriculada, que como a que ele usava, estava já sem mangas.

Minha carteira de cigarros, não era Malboro, tão pouco Hollywood, era K9 Blue, o meu favorito, puxo duas unidades, faço o movimento para lhe dar um cigarro, depois de já descansar o meu em meus lábios, olho em seus olhos, castanhos, claros, quase verdes como a grama dos pastos que certa vi em um fazenda fora dos arredores da cidade, mais eram tão melancólicos que eu mesmo não consegui ter esperança olhando para eles, devaneio, depois reponho-me no meu lugar, dou a ele o cigarro, olho, observo e esse som de mar que não deixa minha cabeça, era muita coisa pra digerir e mesmo assim pergunto mais um vez para o homem:

-Então amigo, o que está te perturbando?

Quase uma eternidade de silêncio é feita, culpa de longas tragadas e uma mente confusa, ele deveria estar a pensar “mais que diabos eu estou fazendo aqui?” ou talvez esteja pensando “eu devo, ou não devo falar com este garoto?”, para lhe falar a verdade eu não sabia o que eu estava pensando, imagine no que ele estava tentando tanto digerir, liquefazer para que eu e minha mente jovem pudéssemos entender, ele dá um suspiro, cansado, como aqueles garotos, um suspiro de “bom, ai vai”.

-Bom, ai vai…
 
 Mais uma pausa, por que de tantas assim? vamos meu amigo coloque para fora, o que seu coração quer vomitar, regurgitar até soltar para fora todo esse veneno, que está mantando você.

-Eu acho que não tenho mais para onde ir, garoto…
 
 Ele olha para mim e depois para o chão, se perdeu, puta merda, esse homem está apaixonado, conheço esse olhar, o olhar de um amor não correspondido, um amor que nunca poderá se realizar, que homem sem sorte e pensar que estou no mesmo barco que este homem.

-Então é amor, não é?

Ele parece surpreso, mas ao mesmo tempo consciente que em uma hora ou outra eu desconfiaria de tal sentença de morte, nem olho mais para o cigarro que morreu, já faz algum tempo, “foda-se isso, não é?“, isso que eu gostaria de dizer a ele, porém ele já estava fudido demais.

Tento me colocar em meu lugar, estranho, não tenho lugar, puxo outro cigarro acendo, deixo queimar, deixo fazer suas cinzas, para que eu posso pensar em algo mais sábio para dizer para este homem.

-Sabe garoto, certa vez alguém me disse que o mar é azul, mais por algum motivo eu só vejo cinza.
 
 “Esse cara tá chapado ou bêbado?” Disse pra mim mesmo, enquanto tragava sentado, ainda olhando para a névoa de fumaça espeça que está cobrindo a cidade, vi mais de mil veredas erradas, mais de mil caminhos tomados, mais nunca vi um mar que não é azul, eu será que já vi? Oh merda, desgraça, isso só me faz pensa, encucar, viajar em devaneios sobre o mar, quase me queimo, “DROGA!” Era tudo que precisava, uma queimadura, outra dentre tantas, lembrei do homem, virei para ele e lhe disse:

-Dane-se, Dane-se o Cinza, a cor está nos olhos, foque no azul lá no profundo e vá!

Mas que merda eu estou falando? As vezes falo sem pensar, só que desta vez foi uma bosta sem tamanho.

-Azul não é? Obrigado pelo cigarro, eu vou indo

Eu nunca saberei ao certo quem era aquele cara, talvez seja um nôiado, talvez seja só um cara perdido, mas pra mim, talvez ele aquele seja era o apaixonado pelo mar.

Desço dali, vou para minha casa, ou qualquer merda que aquilo seja, nem ando tanto, abro a porta, ando cambaleando de um lado para o outro e chego no meu quarto, desleixadamente, olho pra minha cama mofada e suja, mas que se foda, me jogo nela, debruçando-me sobre uma macha vermelha olho para uma barata morta no canto da parede, já faz uma semana que ela está lá.

-Amanhã, eu vou ter uma, puta de uma ressaca…

Nem me lembrava, mas tinha secado duas garrafas de camelinho.

-Eu tenho que parar de beber antes de dormir.

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