Não se explica Flow e Recompensa sem Take 5.

:) ou como entender o flow, abraçar lifehacking e ter mais tempo pro que importa.

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Tempo. Cada cultura tem um conceito sobre o que é e como se relacionar com ele. Para muitos Orientais, o tempo é circular. Você pode planejar, correr, fazer diferente, mas no fim, as coisas sempre vão se suceder, muitas vezes até mesmo se repetir e nada muda isso. Já para uma cultura ocidental norte-americana, por exemplo, uma sociedade que visa resultado, o tempo é linear, rápido e deve ser dominado… Já para parte dos europeus, principalmente do sul da Europa, o tempo é multi-ativo e não simplesmente linear. Sendo assim, quanto mais coisa for possível fazer ao mesmo tempo, mais felizes se sentem. Priorizam tudo que for significativo e fazem tudo caber no mesmo tempo, ou pelo menos acham que fazem.

Me identifico com os três exemplos. Acredito no ciclo, respeito o tempo. Priorizo o que tem significado e está conectado a felicidade e propósito. Tento fazer várias coisas caberem no mesmo espaço ou tempo. Estou sempre analisando o que precisa ser feito, como tudo e todos se relacionam de alguma forma, e busco brechas que permitam tudo ser mais ágil,trazendo resultados, com significado. Acredito que diversas pessoas se identifiquem com minha descrição. E, caso se identifiquem, que formula pode existir que nos ajude a solucionar essa equação?

ciclo + significado + resultado

Para engrossar o caldo, um artigo de Daniel Levitin, de 2014 no The New York Times — Hit the Reset button in your brain — citava que, de acordo com um estudo de 2011, para cada hora de vídeo do YouTube que você assistir, existem 5.999 horas de novo vídeo postado. Em outro artigo mais recente, aqui no Medium, ele, também autor do livro The Organized Mind: Thinking Straight in the Age of Information Overload, nos provoca identificando que todos os dias recebemos uma avalanche de informações que correspondem a 175 jornais, cinco vezes mais do que costumávamos absorver há trinta anos. Na minha mente vem logo o fato de que vivemos em um mundo exponencial, ou seja, isso cresce e crescerá exponencialmente. Fato.

Em sua pesquisa, ele divulga que nossos cérebros possuem um sistema voltado para a atenção que é formado por duas redes que se alternam e um filtro.

A rede task positive que atua quando estamos efetivamente fazendo algo, executando de forma engajada. Focados. Esse é aquele modo que nos permite concretizar coisas, realizar, alcançar muitas vezes o inalcançável graças a foco, persistência e execução.
A rede task-negative que atua quando estamos analisando, conjecturando, “viajando”, também chamado de modo daydreaming. O mais interessante é que ele é considerado o modo default. O estado natural do seu cérebro, que também é aquele responsável pelas grandes criações e insights, que nos torna capazes de solucionar problemas, inventar, enxergar futuros desejáveis e possíveis. É o modo que faz as conexões do que antes não percebíamos como conectados.
Já o filtro que opera com essas redes é chamado de filtro atencional e ajuda a orientar nosso modo de atenção indicando ao que devemos prestar atenção e o que podemos ignorar com segurança.

Mas, para deixar tudo mais complexo para mim e para você que temos aquele jeito descrito lá no início do artigo, o excesso de informação e atividades com os quais lidamos hoje em dia funciona como inimigo do sistema atencional. Ele não funciona bem se estiver trocando de atenção o tempo inteiro.

Sim meus amigos: nosso cérebro funciona muito melhor se a gente parar e resolver uma tarefa por vez.

Então preciso quebrar e dividir as coisas para executar com qualidade cognitiva? Para conseguir terminar? Como faço para ir do task-positive ao task-negative na hora certa? Reservo momentos do dia para o task-positive e outros task-negative? Ou isso sempre vai acontecer independente da minha vontade????

Pausa para falar de Estado de Fluxo

Existe um estado mental chamado de Estado de Fluxo (ou Flow State) no qual estamos totalmente envolvidos com algo, esquecendo tempo e espaço, numa imersão total, e habilmente executando algo. Mihaly Csikszentmihalyi é considerado o “pai” do Estado de Fluxo e uma das principais descobertas dele em relação ao fluxo é que sempre que entramos nele, nos sentimos felizes pela própria atividade em si, ela é a própria recompensa e não somente um resultado que venha dela. É um estado incrível e voltamos a buscá-lo incessantemente pois quando estamos nele, nos tornamos parte dele. Nossa consciência “esquece” da gente e de tudo mais e mergulha totalmente na ação.

Mas para acontecer, existem regras…Uma das regras mais relevantes é que precisa haver um equilíbrio entre o desafio que enfrentamos e a habilidade/conhecimento que temos para resolver aquilo — a atividade nunca é muito simples ou muito complicada. Se muito complicada, te despertará ansiedade, que bloqueia o flow. Se fácil demais, te deixará entediado, anti-flow.

Normalmente, quando se tenta descrever ou exemplificar a dinâmica do fluxo, um dos cenários mais usados são as performances musicais com sessões de improviso, como Jazz ou Rap, ou até mesmo o Repente. Para conseguir executar a música assim é necessário ter muita referência e isso torna viável o improviso, nesse caso, num mergulho total no momento e na ação, de forma inspirada e co-criativa, lidando tão bem com todos os contrastes de um encontro musical, maximizando cada acorde, hora com leveza, hora com firmeza. Do jeitinho que o flow faz.

Não sei se você já tinha percebido momentos assim em sua vida. Eu sou uma designer de aprendizagem, de experiências, sou uma problem-solver, e pelo fato de ter de trabalhar tão consciente de momentos em que dependo tanto de criatividade, acabo tendo a vantagem de estar também consciente do estado de fluxo e de como me sinto e do que conquisto com ele.

Steven Kotler é outro famoso pesquisador do Fluxo e seus trabalhos analisam profundamente como isso acontece. Autor do livro The Rise of Superman e vários outros que namoram o tema, ele descreve o estado como:

"Assim, nosso senso de nós mesmos, nossa autoconsciência, eles desaparecem. O tempo dilata-se, o que significa que, por vezes, desacelera. Você obtém esse efeito de congelamento de cena, familiar para qualquer um de vocês que viu Matrix ou esteve em um acidente de carro. Às vezes acelera e cinco horas passarão como se fossem cinco minutos. E todos os aspectos relacionados a desempenho, mental e físicos, sobem pro teto."

Na prática, diversos sistemas no cérebro desligam quando entramos em flow. Nesse momento, nos sentimos livres de tudo que nos bloqueia ou rouba atenção. O córtex pré-frontal é um dos principais envolvidos nesse processo de desligamento. Ele é responsável por várias funções cognitivas como auto-consciência, senso moral e também cálculo de tempo. Por isso que, quando estamos vivendo a experiência, perdemos a capacidade de acessar passado, presente e futuro. Mergulhamos no que os pesquisadores chamam de Deep Now.

Voltando ao jazz, neurologicamente já comprovaram as mudanças que acontecem no córtex pré-frontal em músicos durante uma performance. O que faz total sentido pois quando o sistema desliga, os músicos ficam completamente livres para a conexão e o improviso. Aliás, nas performances coletivas onde há improviso, a tendência é que Chick Corea e Al Jarreau transformem seus solos já incríveis em algo maior, num cenário que potencializa para um estado de fluxo coletivo e colaborativo, o que meus amigos, não é nada, nada fácil.

International Jazz Day, "Take 5", com Al Jarreau, Chick Corea, Sadao Watanabe, Lionel Loueke e Brian Blade.

Lifehacking

Mais perguntas: Como faço para entrar em flow? Dá pra usar em tudo ou só em determinadas atividades mais em conexão com o que gosto? Qual a conexão de flow com o sistema pesquisado por Levitin?

E você pode estar daí se perguntando também, mas você tem que descobrir isso? Precisa tanto usar isso a seu favor? Sim, não me aguento. O mindset de lifehacking não cresceu no mundo à toa.

Lifehacking: recursos e técnicas de produtividade que podem ser aplicados para superar a sobrecarga de informação, pendências e tarefas do dia-a-dia. (Wikipedia)

Essas análises e tentativas de atalhos que melhorem nossas vidas e produtividade começam pequenos, imperceptíveis, mas a primeira vez que o resultado aparece, você consegue mais de algo, ou até simplesmente consegue se livrar de algo chato… foi-se, está viciado!

Não me leve a mal se você é daqueles que gosta de fazer as coisas do jeito que sempre foram feitas, do jeito que te ensinaram, ou se não está nem aí se gosta ou não, só repete e faz. Se você está feliz, então está tudo ótimo. Se você está feliz, mas quem convive e depende de você não está — por exemplo um grupo de improviso descasado — putz, Houston, we may have a huge problem.

Eu cresci em uma família que ama hackear a vida. Meu pai foi o primeiro Maker e Lifehacker que eu conheci e até hoje quer saber o porque de tudo e num piscar de olhos manipula, hackeia os códigos e reinventa. Minha mãe não fica atrás, sempre estrutura tudo para a vida ser mais produtiva — e sobrar mais tempo para aproveitá-la. Bingo! Isso é o que faz sentido!

O que me remete a foto lá no topo do artigo: lifehacking de verdade, que valha a pena mesmo, é o que te permite ter mais tempo aproveitado para o que você quiser, para o que deveria realmente importar.

E dá pra hackear o que disso tudo?

Para começar, existem diversas técnicas que reduzem o esforço que precisamos fazer para iniciar o estado de flow. Uma delas é organizar previamente o que você precisa para ele: cenário, recursos, pessoas. Tipo, se precisa escrever algo, reúna todos os materiais de escrita e todas as fontes de pesquisa antecipadamente. Daí saia, vá fazer outra coisa. Quando realmente sentar e focar na atividade, a parte mais chata ou que costuma roubar sua atenção já estará feita. A energia vai pro que interessa.

Outra técnica muito utilizada é Meditação. O controle da consciência traz equilíbrio, entendimento e foco. Técnicas de meditação, ou mindfulness, termo da moda, se tornaram queridinhas dos que buscam o flow, inclusive com plataformas e apps diversos para ajudar, como por exemplo o Headspace.

Mihaly indica que existem aspectos a serem considerados para aumentarem a probabilidade de entrarmos em flow.

· Ter objetivos claros.
· Ter habilidades na medida certa que atendam às necessidades da tarefa.
· Manter o foco, apreciando o momento presente.
· Mergulhar completamente na atividade que precisa ser realizada.

Quanto a pesquisas detalhadas sobre o fluxo, Kotler dissemina que o estado de fluxo não é só um estado que liga e desliga, é , na verdade, um ciclo formado por 4 estágios. Se entendermos esses estágios, aumentamos a probabilidade de entrar em flow.

1. Combate: essa é uma fase em que se carrega, e sobrecarrega o cérebro com informação. É quando precisamos receber informações, entender fatos e processos, interpreter e a gente tem que se dedicar, se esforçar para isso. Não é uma etapa prazerosa.
2. Desprendimento: na fase seguinte, é necessário tirar a sua mente do foco no problema. É fundamental parar de pensar no problema usando o seu Consciente. A dica aqui é caminhada, jardinagem, cozinhar etc, a menos que um deles seja exatamente a tarefa a se empenhar! Isso abre espaço para neuroquímicos como serotonina, endorfina e outros, que nos ajudam a entrar no fluxo. A única coisa que Kotler defende que não pode ser feito de jeito nenhum é assistir TV. Assistir TV muda as ondas cerebrais de forma a bloquear o flow.
3. Fluxo: já falamos bastante dele mas aqui você está focado, mergulhado na ação e na execução/criação, sem tempo e espaço, e sentindo-se recompensado pela própria experiência.
4. Restabelecimento: fase muito crítica que funciona como um contraponto ao flow. Você se esgota após o flow e todos aqueles neuroquímicos são drenados do sistema. Aqui é ideal tomar vitaminas, minerais, pegar sol. E uma das coisas mais importantes defendidas aqui é que se tenha controle sobre as emoções, equilíbrio para se reestruturar e não se estressar com o fato de, como Kotler diz, não se sentir mais como Superman.
E ele resume que, para hackear o fluxo, precisamos nos dedicar a aprender a lutar melhor e a recuperar melhor.

Voltando ao artigo de Daniel Levitin, para sermos mais produtivos e criativos, é indicado que o nosso dia seja particionado em projetos específicos. Nossa vida em redes sociais ou até mesmo nossa interação com emails deveria ser vivida em um tempo específico do dia e não em constantes interrupções durante ele. Tire os alertas/notificações. A cada chegada de Whatsapp ou email, nosso cérebro se distrai do que estamos pensando ou executando e volta sua atenção para “quem mandou?”, “será que é algo importante?”.

Uma das dicas mais importantes e praticamente unânime é a necessidade de pausas. É fundamental tirar folgas, de verdade, sem tarefa nenhuma, e dormir, dormir bem, tirar muitas sonecas. Isso nos recupera, biologicamente falando. Pesquisadores consideram que uma soneca de 10 minutos recupera funções cognitivas, recupera a energia, reduzindo sono e cansaço.

Continuo tentando aprender e implementar isso na minha vida, continuo não dando conta de tudo ao mesmo tempo, óbvio, continuo não lendo todos os livros que compro… mas continuo tentando e me divertindo.

E, de tempos em tempos, entrando em flow.

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