Aos mestres, com carinho.

Da geração pós-digital.

"Another Brick In The Wall"

Semana passada chegou um material para eu escrever sobre o Dia da Mulher. Acredito que eu demorei o triplo do tempo para liberar, simplesmente porque não queria cair no clichê que o cliente pediu. Isso não. Era uma peça bem simples mas que fazia toda a diferença para mim, por isso insisti em fazer algo novo e defender a minha ideia, apesar dos constantes conselhos de “o cliente não vai aprovar”. O cliente aprovou. Minha vitória não durou muito, pouco depois chegou outro material com todos os clichês que ele havia pedido anteriormente (uma triste comparação das mulheres com as flores e blá blá blá). Se eu me arrependi? Claro que não! Dedicaria toda a minha atenção novamente se for em algo que acredito. É justamente isso que me diferencia de você: AINDA acredito que posso mudar o mercado. E o mundo. Vocês lembram como era esse sentimento?

A minha geração está entrando agora no mercado de trabalho, estamos engatinhando em um campo minado cheio de placas de “não entre”, “fuja enquanto é tempo”, “arranje outra área”. Todas as frustrações que vocês já adquiriram em anos de experiência são cuspidas para nós, como regras a serem seguidas, leis inquebráveis e fórmulas prontas. Não são. Nós não somos vocês. Nós não procuramos um trabalho estável, nós não pensamos em aposentadoria, nós queremos aproveitar a vida enquanto somos jovens e o mais importante é fazer o que gostamos. E fazer agora. Já li e ouvi por aí que isso é um defeito nosso, taxada de “a geração sem foco”, “a geração que tudo idealiza e nada realiza”, “a geração que quer se divertir no trabalho” (e não pode?). Não cortem nossas asas, manter a crença que se pode mudar o mundo é uma capacidade extraordinária.

A possibilidade de crescermos com internet nos tirou do padrão e hoje temos conhecimento das infinitas possibilidades que nos aguardam, somos sedentos por nos manter sempre atualizados, conectados e imaginativos. O modelo de mercado de vocês não cabe à nós, por isso estamos inventando o nosso próprio. Viramos produtores e consumidores das nossas próprias ideias. Chega de horários fixos, escritórios e relatórios, podemos fazer nosso dinheiro de onde quisermos, quando quisermos e com o que gostamos. Toda essa flexibilidade nos dá segurança para sonhar cada vez mais alto, por isso temos tantos jovens inovando e empreendendo por aí. Aos 20 e poucos anos, Nathalia criou sua própria marca de biquínis, Fernando montou sua produtora de vídeo, Miguel tem mais de 50 mil pessoas acompanhando o que ele indica na internet. E você, com o que sonhava aos 20 anos?

Diante a enorme experiência de vocês em um mercado defasado, nós temos a indispensável capacidade de adaptação para o futuro. O mundo está em outro ritmo, com nova comunicação e novas formas de se relacionar — são novos tempos. Se é preciso otimizar o horário de trabalho, a gente inventa um aplicativo. Se é preciso impactar o outro lado do mundo, a gente cria uma ideia. Se a cafeteira quebrar, com certeza a gente vai assistir a um tutorial no Youtube e aprender a consertar. Preparem-se para dividir o mercado de trabalho com uma geração camaleoa, que transborda ideias que parecem impossíveis, é viciada em tecnologias que vocês nunca ouviram falar, produz uma quantidade absurda de conteúdo que vocês não conseguem acompanhar e faz tudo isso após madrugadas acordadas assistindo séries. Obrigada pelos conselhos, mas não cortem nossas asas.

"Manter a crença que se pode mudar o mundo é uma capacidade extraordinária"