Eu não sei o que eu quero fazer da minha vida

Eu não sei o quero fazer da minha vida profissional… e está tudo bem. Na verdade, o mundo está mudando tanto que se você tem a mesma certeza de 5 anos atrás deve ter alguma coisa errada. Ou não. Mas ter certeza profissional hoje é difícil de encontrar. Já conversei sobre isso com tantos amigos e a reação é sempre a mesma: “Não aguento mais minha rotina”, “não gosto mais do meu trabalho”, “quero mudar de área”, “não aguento mais a faculdade”, “quero sair do país”. Acredito que vários fatores contribuem com essa sensação. Tem aquele efeito das redes sociais, onde a vida dos outros parece sempre mais interessante que a nossa e aí bate a crise. Tem também o fato que eu e meus amigos estamos perto dos 30 anos e dizem que bate a crise de qualquer jeito. Mas não é só isso. A principal questão pra mim é que atravessamos uma era, estamos no exato momento de mudança de uma era para outra e agora estamos BEM perdidos, precisando reaprender tudo que nos foi ensinado.

Mudamos da era industrial para a era digital, mas ainda continuamos a agir de modo industrial. Nossas escolas têm fardas, horários, departamentos, hierarquia, tudo exatamente como uma fábrica, no antigo modelo. Um estudo (da OCDE — Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, 2016) diz que 65% das crianças que hoje entram nas escolas, provavelmente irão trabalhar em funções que atualmente não existem. Isso significa que a escola que o seu filho está estudando agora não está preparando ele pro mercado de trabalho, porque a profissão dele talvez nem exista ainda! Então qual o papel da escola agora? Ensinar a aprender. A se reinventar. Já que não dá para prever o futuro, vamos apostar na nossa capacidade de adaptação. Pra que você vai decorar uma fórmula se ela tá na internet? As tarefas mecânicas vão desaparecer e temos que pensar no diferencial: o que posso oferecer de inovação e criatividade que outra pessoa não consiga fazer igual?

Cena de “Tempos Modernos” (1936), crítica ao modelo industrial

Agora, na era digital, o que temos é uma conexão de todas as pessoas, uma lógica não-linear, multidisciplinar, onde o conhecimento está acessível, temos grandes empresas em espaços pequenos e poucos funcionários. O sucesso de um negócio é medido por outros fatores além do seu lucro, como o impacto que a empresa causa no mundo, por exemplo. Estamos nos questionando se apenas o dinheiro é suficiente para nos satisfazer profissionalmente, e quase sempre a respostas é não. Nós fomos criados por pais da antiga era, que por sua vez foram criados por pais de uma geração ainda mais antiga. O conceito de profissão que foi nos passado é que faríamos faculdade, acharíamos uma profissão para o resto da vida, que nos daria segurança financeira para montar uma família e então nos aposentaríamos nessa profissão. Depois de ter trabalhado até uns 60 anos, de segunda a sexta, das 8h às 18h e tirado as merecidas feriazinhas. Pra mim, isso não soa satisfatório. Soa pra você? O conceito de família mudou, o conceito de “resto da vida” mudou, e não preciso nem citar o antigo conceito de aposentadoria (que agora mais parece um sonho distante).

Outro ponto: escritório. Qual a necessidade de ter um espaço enorme para a empresa, pagar energia, água, cafezinho e com 200 funcionários, um para cada função? No novo modelo temos empresas pequenas trabalhando em um mesmo projeto, com áreas de trabalhos interligadas, sem separação de setores. Apostem em muita conferência virtual, trabalhos remotos e espaços de coworking! Com isso temos economia de tempo e dinheiro. Serão contratados freelancers para cada serviço específico.

No novo modelo de trabalho, você não vai ter salário fixo ou aposentadoria, vai poder trabalhar de onde e quando quiser, seu chefe terá menos de 30 anos e provavelmente será uma mulher. Sim! Segundo as estatísticas, essa história de “The Future is Female” é verdade. Quanto aos horários, pra mim já é muito óbvio que ninguém consegue manter o ritmo de produção durante as 8h de trabalho diárias. Com certeza esse cálculo de horário foi feito lá na era industrial. Isso não significa que devemos reduzir a carga horária, mas dá pra manter o mesmo nível de produção adaptando o horário para cada pessoa. Alguns dias quero trabalhar 10h, no outro dia eu quero folgar, no outro mais 12h e por aí vai. Temos que questionar por qual motivo temos pessoas se adaptando a ambientes de trabalho e não ambientes de trabalhos se adaptando a pessoas.

Segundo pesquisa, as pessoas mudam de trabalho cerca de 12 vezes ao longo da vida. Os jovens mudam em média uma vez a cada 2 anos. A gente é muito plural pra dizer “eu sou engenheira” e isso nos definir, como acontecia anos atrás. Hoje está mais pra “eu gosto de ser engenheira, mas aos finais de semana eu treino pra correr em maratona, fiz um curso de fotografia porque sempre me interessei pelo assunto e posto umas dicas de culinária no meu Instagram porque cozinho muito bem”. Ou seja, a pessoa é um pouco engenheira, maratonista, fotógrafa, influencer e o que mais quiser. E tá tudo bem ser plural. Assim como acontece nas relações, não existe uma só pessoa para a nossa vida, podemos nos encaixar com diferentes pessoas e sermos felizes em determinados momentos e fases. Assim é a profissão. Não significa que você tenha que casar com aquela profissão até o final da vida para ser feliz.

Vamos debater. Quanto mais converso sobre o assunto, mais pessoas perdidas como eu aparecem se identificando com a situação. Não estamos sozinhos. O mundo mudou e nós somos a primeira geração a enfrentar essas mudanças, a “geração teste”, então naturalmente ainda vamos tomar muitas atitudes erradas e continuar com essa sensação de vazio até aceitarmos que os antigos conceitos não nos vestem mais. Eu cheguei nesse momento da vida que me dei conta que eu sou jovem, tenho tempo, dinheiro, saúde e muita vontade. Essas possibilidades me dão a liberdade de pensar no que eu realmente quero fazer daqui pra frente, mas essa questão ainda é muito difícil. Por isso pensei em algumas pautas que me guiam agora:

  1. Como eu posso contribuir para a minha comunidade?
    E eu não me refiro à Viena, a cidade que eu moro agora, mas à Natal, a minha cidade. Como todas as combinações do que eu vivi, podem ajudar a evoluir a minha cidade?
  2. Eu tenho qualidade de vida fazendo isso?
    Estou respeitando meus horários de sono? Meu limites físicos? Minha saúde mental?
  3. O que estou fazendo está de acordo com meus valores?
     Eu concordo com o que estou fazendo e me orgulho disso?
Já diria Belchior

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