Hay que endurecerse

As pessoas me veem de longe e acham que eu sei o que eu to fazendo. A realidade é que nessas andanças eu me perco, às vezes eu demoro pra voltar, às vezes eu volto rápido, e outras vezes eu fico em algum momento e volta outra pessoa no meu lugar. Faz parte da evolução. Hoje voltei nesse espaço e encontrei um monte de texto inacabado, outros prontos e nunca publicados, simplesmente por falta de tempo ou vergonha e desmotivação. Relendo todos eles, fiquei inspirada e me deu uma vontade de voltar a escrever — e ainda publicar e compartilhar — porque sou dessas que se expõem mesmo, caso a história ajude o próximo ou só me ajude a superar.

Um desses textos era sobre o eu de 2014. Fui emprestar meu celular antigo a uma amiga e liguei o aparelho depois desses anos. Todos os meus arquivos ainda estavam lá, as fotos, vídeos, mensagens e tudo mais de uma vida que parecia tão distante. Fiquei com aquela sensação sufocante de querer voltar a um momento que não existe, com o coração apertado por não ser mais quem eu era. O texto contava como eu era feliz, tinha 22 anos e um cabelo rosa, morava na Austrália, ia à praia todo final de semana, tinha uma força de vontade que me fazia trabalhar madrugadas como garçonete achando tudo bom, mil planos para viajar pelo mundo e uma certeza sobre meus sentimentos e o futuro que eu teria. Apenas 3 anos depois, eu já não era mais nada daquilo. Eu estava perdida. Queria ligar para todo mundo que conviveu comigo na época e perguntar quem eu sou: “Ei você lembra como eu era quando…”. Mas não liguei.

Liguei foi pra uma amiga de infância, que me conhece melhor que eu mesma, e ela ficou chocada com minha reação. Então percebi como eu tinha esquecido tudo de ruim da época e lembrava só das coisas boas, porque eu acreditei nas mentiras das fotos que eu mesma criei. A verdade é que de lá pra cá muitas águas rolaram. Lembro que fui contratada como redatora e trabalhar na área era o que eu mais queria na época. Mudei de agência, criei inúmeras campanhas, fiquei responsável pela produção de revistas, trabalhei na política, trabalhei como freelancer, ganhei dinheiro, gastei meu dinheiro fazendo o curso de roteiro de cinema no RJ que sempre quis, apresentei TCC, me formei, junto com meu grupo ganhei 2 prêmios regionais pela universidade e logo em seguida ganhamos 2 prêmios nacionais. Então não, eu não quero mais ser a garçonete de 2014.

Fui diversas vezes pro sítio e pra São Miguel com a família, pra Pipa, Recife, Olinda, Fortaleza, São Paulo, Rio de Janeiro, Paris, Viena, Amsterdã, Berlim e Lisboa. Não, eu não quero só fazer planos de viajar como em 2014. Voltei forte pro Brasil. Acabei um relacionamento onde vivia por dois, fiquei solteira pela primeira vez em 6 anos e me vi finalmente livre de uma traição que nunca aprendi a superar. Mas aprendi a me valorizar. Nesse tempo, perdi amigos, mas aprendi tanto sobre a vida. Compartilhei minhas experiências com outras mulheres, nos fortalecemos juntas, descobri minha coragem, perdi minha vergonha, me curei de traumas, perdi o medo do mar, fiz amizades de infância, fiz amigos em qualquer esquina, conheci globais. Fui em rave, show do Safadão, baile funk, Carnaval de rua, quintas do samba e muitas rodas de violão. Descobri pra onde eu gostava de ir, de ouvir e de vestir. Não, eu não quero ter a certeza cega que tinha em 2014.

Ao olhar pra trás e enxergar tantas conquistas nos últimos anos, eu sinto é orgulho dessa trajetória. Não quero ser o passado, nem o futuro, eu quero ser o agora. Mês passado eu estava perdida com a mudança de planos, com o fato de eu ficar sozinha na Áustria, ter que sair do apartamento, não ter dinheiro pra pagar as contas e não saber alemão. Hoje eu to acolhida nesse lar de amigos cheio de amor, o alemão fazendo cada vez mais sentido, a alimentação bem equilibrada e as soluções financeiras aparecendo. Próximo mês eu não sei, mas tá tudo bem. Que eu sempre me perca e volte ainda mais forte. Quero ser essa pessoa amorosa e boazinha que neguei a vida inteira dentro de mim, gosto de como ela se conhece bem, tem autocontrole, paciência, resiliência e empatia. Mas também gosto dessa que está aprendendo a se impor, que questiona, exige o que é certo e não se acomoda. Elas têm me proporcionado momentos incríveis. Que eu não esqueça quem fui, mas lembre sempre quem sou.

“Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”.