Para Ana

01 DE FEVEREIRO DE 2018

Hoje é Dia do Publicitário. Não sei o motivo da data e nem sei por que a inventaram, já que “publicitário raiz” não liga para essas coisas, mas acontece que hoje também é meu primeiro dia de não-publicitária e eu ainda não sei como agir diferente do que fui nos últimos anos. A rotina me engoliu e acabei reclamando mais do que agradecendo, mas agora do lado de fora é possível voltar a enxergar com outros olhos. Com os olhos de Ana.

O primeiro contato que tive com Ana foi por mensagem, me convidando para uma entrevista da matéria de rádio da universidade. Ao final, ela escreveu:

“Ouvi muitos elogios sobre você! Eu quero ser redatora também. Li seus textos no Medium e assisti ao seu TCC”.

Aquilo me deixou em êxtase e logo em seguida em pânico. Ana foi a primeira pessoa que eu soube que lia meus textos sem me conhecer. Dei a entrevista na rádio e acabei conhecendo mais sobre Ana, uma estudante empolgada com o curso de publicidade, que veio de Caicó para estudar em Natal, mora longe da família, trabalha, estuda e cuida da casa. Eu tenho certeza que naquele dia eu aprendi mais com Ana do que ela comigo. A última vez que a encontrei foi trabalhando num curso, eu levantei no meio da palestra para ir ao banheiro e ela me chamou no canto para me contar com orgulho do seu trabalho de storytelling na faculdade. Eu não consegui voltar a prestar atenção na palestra porque eu pensava em como Ana conseguia ser tudo aquilo, em como eu queria ter me dedicado à universidade como ela e não o fiz por cansaço do estágio, por preguiça de pegar ônibus ou por priorizar outras coisas que não me acrescentaram em nada. Eu queria ter voltado lá no canto e contado o quanto eu a admiro, mas isso ficou tão engasgado que saiu em forma de texto agora.

O entusiasmo de Ana lembra muito o meu. Nós duas escolhemos redação dentro da publicidade, com uma certeza não tão comum na faculdade. Eu queria tanto ser redatora que entrei para conhecer uma agência por um dia e acabei ficando dois meses. Não podiam me contratar porque já tinham um estagiário de redação, mas só de estar lá dentro já era o suficiente para mim. O diretor de criação me fez ler todos os anuários e depois de algumas referências eu tive liberdade para criar — mas a lápis e papel, porque o computador já era do estagiário oficial. O primeiro anúncio que fiz foi para a Revista Deguste, eu fiquei tão realizada por finalmente ver algo que criei sendo publicado, ali eu percebi que era boa em algo e tinha encontrado o que eu desejava fazer profissionalmente. Depois veio o primeiro anúncio no jornal, primeiro outdoor, primeiro spot, primeiro jingle e meu primeiro VT. Eu assistia TV esperando minha propaganda só para sentir os 30 segundos do maior orgulho do mundo. Melissa, dona da agência, falou que a graça estava justamente em nunca perder a empolgação de ver uma criação sua circulando. Até hoje guardo isso.

Talvez Ana me admire pela profissional que me tornei, e isso faz eu me enxergar com outros olhos. Eu entrei na faculdade pesando 37kg, depois de uma passagem catastrófica pelo ensino médio e um namorado pra lá de abusivo. Eu tinha 19 anos, não havia passado na faculdade federal, não gostava de estudar e não acreditava em mim mesma. Carregava uma culpa enorme por ter largado meu curso de edificações no CEFET porque ouvia comentários constantes sobre a diferença salarial de engenharia e publicidade. Hoje, tenho certeza que seria uma publicitária com potencial desperdiçada em uma engenheira frustrada. Entrar na faculdade e me identificar com o curso foi o divisor de águas da minha vida, porque a partir de então eu entendi que podia alcançar muito mais do que acreditava. Dito e feito. Foi durante o curso de publicidade que ganhei gosto de estudar, criei coragem pra fazer meu intercâmbio para a Austrália, passei de estagiária para redatora em pouco tempo, dei passos maiores que minha perna e assumi grandes responsabilidades.

Agora não me pareço mais com a menina insegura do primeiro dia de aula, mas também devo ter perdido a magia da profissão em algum lugar no caminho. A rotina comeu minha criatividade e até mês passado eu tinha esquecido a razão de trabalhar em uma agência de publicidade. Agora eu lembrei de você, Ana, e eu gostaria de voltar a enxergar com seus olhos. O que ficou daquela menina que fui é a vontade de mudar o mundo, isso eu não perco. É usar a comunicação para transformar, informar e diminuir a desigualdade a nossa volta. Sabe como? Estudando. Criando. Compartilhando. Então, Ana, vamos fazer um combinado de não esquecermos da nossa empolgação do início, ok? Acabei de inventar nosso juramento solene de profissão para que a gente siga sempre no caminho de bem:

“Prometo que, ao exercer a arte da comunicação, me mostrarei sempre fiel aos preceitos da honestidade e da ética. Não me calarei diante um briefing intolerante ou um cliente preconceituoso. Não me servirei da minha profissão para eleger político corrupto, produto defeituoso ou empresa sem valores, assim como não promoverei a desigualdade, seja ela racial, social ou de gênero, não incitarei o padrão de beleza e não esquecerei a consciência ambiental. Sempre usarei da minha capacidade para combater a sexualização infantil e a cultura da pedofilia. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que eu desfrute de saúde e consciência limpa para conviver em uma sociedade mais justa para todos.”
Entrevista na rádio da UnP