PARIS. SE DER MEDO, VAI COM MEDO MESMO.

EUROTRIP — Parte 1

PS: Não tem roteiro de viagem. Documentei os pensamentos que surgiram durante esse um mês na Europa e as transformações que foram acontecendo. Acredito que isso seja mais pessoal e valioso do que um roteiro com endereços e preços.

Cá estou no meu primeiro dia na Europa e lembrando que há um ano minha vida dava uma reviravolta após minha viagem pro Rio. Foi a partir do Rio que ganhei uma força interior, a autoestima voltou elevada, a cabeça mais decidida, e tudo isso repercutiu nas minhas relações. Não foi o poder do Rio, mas viajar sempre provoca novas experiências, nos tira da zona de conforto e nossa cabeça nunca volta a mesma de antes de partir. Então me prometi que todo ano tentaria fazer ao menos uma viagem, aproveitando a virada de ciclo do meu aniversário e partindo para mais uma aventura de autodescoberta. Ano após ano, essas mudanças vão ficando mais perceptíveis.

A viagem para a Europa foi mais organizada em relação às outras, fiz um grande planejamento financeiro, fui atrás de freelas e peguei todo trabalho extra que apareceu. Pude organizar minhas malas com tranquilidade e estava pronta com antecedência no aeroporto (essa coisa de ser pontual é algo muito novo na minha história). Apesar de toda a calma pré-viagem, eu não estava reconhecendo tanta insegurança boba que explodia dentro de mim. Eu tinha a missão de pegar a chave do apartamento que ficaria em Paris, sozinha. Eu sentia uma mistura assustadora de independência e responsabilidade: seria a primeira vez sem ninguém me esperando no aeroporto, e ainda mais numa cidade enorme como Paris.

Carreguei meu celular, estudei o caminho, troquei meu dinheiro no aeroporto, peguei o ônibus, peguei metrô, peguei outro metrô e andei mais um pouco. Paris à noite me lembrou São Paulo: um caos, muito urbana, festa estranha com gente esquisita. Às 22h estava exausta, com fome, querendo chorar (querendo ainda mais um banho), mas com a chave na mão. Considerei seriamente pegar um Uber de volta, mas considerei ainda mais o arrependimento que seria gastar meus suados euros na alternativa mais fácil. Em vez disso, procurei o Mc Donald's mais perto, me recompus e peguei o caminho para o apartamento. E consegui. Mesmo com o medo gritando, errando e aprendendo, descendo e subindo escada com a mala, arriscando o “franglês” que as aulas de Adriano me permitiram conseguir. Fiz tudo por mim, focando no tamanho da realização que seria abrir aquela bendita porta — e onde mais eu dormiria, né?

Missão cumprida, lição aprendida. Fim do primeiro dia de viagem. Se eu achava que seria difícil, foi 3 vezes mais, mas a coragem em mim está 10 vezes maior. É uma boa conta. O que sempre digo sobre viajar sozinha é que é libertador, mesmo com todo o medo. Mas era pegar uma chave, certo? É que eu tenho um medo danado aqui dentro. Medo de ser assaltada, de perder dinheiro, de ser sequestrada, estuprada, de me perder, de não conseguir me comunicar e de sei lá tantas outras coisas. Eu sou medrosa pra caramba, a verdade é essa. Mas nunca deixei de enfrentar minhas inseguranças e me jogar no mundo, então talvez eu seja corajosa pra caramba. É como aquela frase que a gente aprende depois que amadurece:

Vai. E se der medo, vai com medo mesmo.